Grama é um quadrinho coreano,  publicado pela Pipoca & Nanquim e traduzido direto do Coreano. Apesar de coreano, o quadrinho é lido da forma ocidental, portanto não é considerado um mangá.

Aqui conheceremos a história da sul coreana Ok-Sun Lee, que fora vendida quando criança e forçada a escravidão sexual por três anos pelo Exercito Imperial Japonês. Esta é a história de uma das várias mulheres, de várias nacionalidades, que foram capturadas para servir os soldados japoneses nas chamadas Casas de Conforto, espalhadas pela China e pelos territórios ocupados pelo Japão durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, durante a Segunda Guerra Mundial.

É importante mencionar que esta história relatará episódios de violência e estupro, portanto, se você é um leitor mais sensível, considere continuar a leitura.

O termo “mulheres de conforto” foi usado para classificar estas mulheres coreanas, chinesas, tailandesas e mulheres de territórios dominados pelo Império do Japão, forçadas a vender seus corpos nos bordeis militares japoneses. É uma tradução direta do eufemismo nipônico para “prostituta” e por isso continua sendo um termo controverso, principalmente entre as sobreviventes, por refletir apenas a visão do Exercito Japonês, distorcendo as experiências reais das vítimas. Entretanto, para o propósito da obra, a tradução optou por utilizar a tradução literal do termo, já que é comumente empregada na Coreia do Sul, para designar essa forma específica de escravidão sexual.

Em Grama acompanharemos Ok-Sun desde criança, em Busan, sua cidade natal, com sua rotina ao lado da família, que era uma vida de fome e muita pobreza. Ao longo das páginas iniciais veremos que mesmo diante as dificuldades Ok-Sun só desejava ser uma criança normal, comer doces e querendo gastar seu tempo livre com brincadeiras. Algo completamente distante para a sua realidade. A narrativa alterna o presente, enquanto Keum Suk entrevista Ok-Sun e o passado, enquanto revivemos as lembranças dela. Os relatos são tocantes, pesados e extremamente tristes.

Assim adentramos nas sombras da vida da vovó Ok-Sun, que mesmo tendo passado por tanta coisa na vida, não perde o bom humor e a oportunidade de compartilhar o lado positivo da vida. Um exemplo, com certeza! Assim, a obra dá enfoque a determinação da protagonista para superar as diversidades e manter-se viva em todos os episódios que viveu. Sem dúvida nenhuma Ok-Sun Lee é uma sobrevivente.

Ok-Sun Lee hoje tem 90 anos de idade e se tornou uma importante ativista em prol da indenização das “mulheres de conforto”. Pois mesmo com o fim da guerra, restaram traumas e feridas, físicas e psicológicas, indiferença e preconceito. Isso acontece devido a uma cultura tradicional, patriarcal e machista, que vê mulheres escravizadas sexualmente como uma pária na sociedade. É por este motivo que mulheres como Ok-Sun Lee escolheram viver em abrigos como a Casa da Partilha, onde não há julgamentos, por mais que ninguém ali tenha feito algo por vontade própria, pelo contrário, muitas dessas mulheres nem sabiam ao certo o que estavam fazendo, pois na época dos fatos, ainda eram crianças.

No posfácio a autora nos fala sobre o título da obra, das dificuldades que é viver com todas as adversidades, mesmo pisoteada, a grama sempre sobrevive. Esta relação com a vida da autora faz toda o sentido e é de uma sensibilidade incrível, portanto se você tinha dúvidas em relação a isso, está aqui sua reposta. Neste mesmo texto, Keum Suk  aborda as disparidades sociais, de como na época, os mais pobres tinham também seus direitos básicos roubados, precisando recorrer a medidas desesperadas. É assim que Ok-Sun acaba sendo adotada por uma nova família, com a promessa de que levaria uma vida melhor, sem fome. Este foi só o início da trajetória de Ok-Sun, que a partir dai acabou em uma casa de conforto.

Este período da guerra na história do Japão é considerado um episódio vergonhoso. E é por isso que esta HQ é de extrema importância, trazendo à tona este crime de guerra. É com uma narrativa leve, que trata de uma história cruel e chocante, que a autora também dá um contexto histórico da época, nos fazendo entender quais os conflitos da época e a situação econômica e social dos países envolvidos.

Ok-Sun Lee, ainda hoje, luta pelo reconhecimento do governo japoneses, para que o país reconheça este terrível episódio e que façam um pedido de desculpas oficial para todas as mulheres que foram violentadas e que tiveram suas infâncias e vidas ceifadas. Histórias como as contidas em Grama precisam chegar a mais pessoas, e por isso dedico, de hoje em diante, esta história a todos, pois além de lindíssima, dura e cruel, fará com que mais pessoas atuem na questão abordada aqui com persistência, pois a retratação histórica que a vovó Ok-Sun Lee tanto luta, ainda não aconteceu.

Sem dúvidas esta história esta ao lado de outras GNs de peso, como Maus, Persépolis, entre outros nomes, que contam uma história de vida em meio a crueldade humana. A graphic novel já ganhou diversos prêmios em 2019 e em 2020 foi indicada a três categorias do Prêmio Eisner, o maior nicho.

Com uma arte linda, em preto e branco, e com muita sensibilidade e respeito, Keum Suk Gendry-Kim conta uma história emocionante que não deve ser esquecida, que deve ser sempre lembrada. Devemos isso a Ok-Sun Lee e a todas as mulheres que merecem ser indenizadas por todo o mal que passaram. Mais do que recomendado, necessário!

  • 잔디
  • Autor: Keum Suk Gendry-Kim
  • Tradução: Jae Hyung Woo
  • Ano: 2020
  • Editora: Pipoca e Nanquim
  • Páginas: 488
  • Amazon

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