Eu deveria estar vivendo dentro de uma caverna para não reconhecer o nome Lili Reinhart quando solicitei esse livro. Talvez vocês já tenha visto alguma resenha minha aqui no blog, e se tirou um tempinho para ler uma delas deve ter percebido que eu sou uma romântica, que ama crônicas e poesias. Estou sempre em busca de uma nova emoção, em busca daquele texto que fará meu coração balançar feliz e minha alma sorrir em concordância. Sou uma caçadora de novas histórias, lindos amores e belas palavras. Nado Livre chama atenção pelo nome. Imediatamente fiz a associação, sobre nadar em si mesmo, sem amarras, livre de medos, aprofundar-se no autoconhecimento, e sair do superficial para se reencontrar em novas nuances. Isso me fez querer conhecer a escrita de Lili, e não o fato de ela ser uma atriz famosa, algo que só descobri depois e que tem certa relevância para essa resenha.

Eu acredito que um artista possa sim ser completo, que possa ser multitarefas e desempenhar bem seu papel em mais de uma área, e por esse motivo não teria desistido do livro só pelo fato de ele ter sido escrito por uma atriz. No entanto, sabendo de antemão que Lili é uma escritora em processo de amadurecimento, eu teria tido um pouco mais de cautela nas expectativas e talvez conseguisse ler a obra com menos criticidade e mais empatia. Como você deve ter percebido pelo que leu até aqui, o tom do texto não será dos mais gentis. É uma posição difícil essa, de julgar uma obra e tentar arduamente não fazer o mesmo com o autor, ainda mais quando o livro é como esse, intimista, sincero e singelo em suas premissas. Fala da alma da escritora, buscando a alma dos leitores. Mas infelizmente Nado Livre mirou em água profundas, sem nunca sair do raso.

Não sou especialista em poesia, não conheço as regras linguísticas necessárias parar criar poesia, mas sei o que eu sinto e busco enquanto leio poesia. A obra de estreia da atriz de Riverdale, categorizada dentro desse gênero, carece de consistência. O texto parece misturar auto ajuda com frases de efeito, e tenta buscar aceitação por meio dos sentimentos comuns, embora dolorosos, do desamor e do abandono. Carregado de uma melancolia exaustiva, as linhas tratam principalmente sobre amores indisponíveis, ou amores tristes como diria minha amiga Mari do blog Sobre Amor e Livros. Os amores que conhecemos pela escrita de Lili, expressam falta de reciprocidade, sobre permanecer onde não há espaço e talvez a parte mais triste desses amores seja justamente a romantização de que há beleza nisso. Já li outros autores que falam sobre situações semelhantes, e fui bastante elogiosa inclusive, mas existe uma diferença gritante entre eles. Nado Livre esqueceu de abordar o recomeço, a reconstrução. Chafurdar na dor do fim e ali permanecer não é saudável e não é o tipo de ideia que deva ser vendida, principalmente aos nossos jovens que são o público alvo da autora.

Acho que você pode acabar sendo o meu fim. E é como se eu corresse a toda velocidade em direção ao meu túmulo.

Os poemas também passeiam pelo sentimento da depressão e da ansiedade, doenças que exigem cuidado e principalmente atenção. Fazer arte com questões tão brutais quanto essas ligadas à saúde mental não é tarefa fácil. Mascará-las com palavras bonitas não serve nem para paliativo. Um dos poemas em particular me deixou bastante preocupada, quando a autora fala sobre o isolamento como alívio para uma mente que pede socorro. Em outro texto fala que não acredita em meditação, e novamente fala sobre o distanciamento como fonte de superação. Mais adiante ainda, em um trecho particularmente denso, ela diz que melhorou “quando pegou a (…) vida de volta e a guiou em direção ao (…) futuro”. Gente, o assunto é bastante sério e exige prudência. Existe um abismo entre acolher a solitude como oportunidade de autoconhecimento e a opção de se isolar deliberadamente.

Entendo que algumas pessoas utilizem o ato de escrever como terapia, desestresse e até fuga daquela imensidão de nada que paira em si. Mas a responsabilidade de quem tem visibilidade é chamar atenção para o tratamento adequado, é necessário alertar sobre a importância de buscar ajuda.

Querem que eu seja a garota pioneira. Aquela que abriu o caminho para as outras seguirem e aprenderem a ser felizes, a lutar quando os membros fraquejarem. Ás vezes eu me sinto uma fraude. Mas, por outro lado, eu nunca disse que era feliz. Nunca anunciei que havia cura. Eu só disse ao mundo o que sinto, e não como superar. Parece desonesto ganhar os parabéns só por dizer a verdade.

Novamente citando outras obras, lembro de um livro resenhado aqui no Estante Diagonal que falava principalmente sobre as experiências do autor com a ansiedade. E sim ele abordou o tema com leveza, mas não de forma leviana, sem jamais deixar de mencionar que o tratamento médico foi a peça fundamental em sua luta por melhora. Lili desnuda sim suas dores, ou mesmo a de outros como ela alegou na introdução, mas lhe falta um viés de esperança. Não entendi o objetivo da publicação, se para entreter ou se para fazer refletir, se deveria conversar conosco ou expandir nossos horizontes.

Nado Livre não segue uma linearidade, e a qualidade da escrita não amadurece no decorrer das páginas. Você finaliza a leitura, mas parece que ainda está no começo. A autora não conseguiu nos contar uma história com seu trabalho. Fala sobre sentimentos, mas não emociona. É uma pena. Eu queria ter sido arrebatada por essa leitura. Eu poderia dizer que não é meu momento, que lê-lo em outra época teria me presenteado com outra percepção, mas autores mais experientes criam o tal “momento” na gente. Já chorei por um coração partido de um personagem/autor, estando completamente feliz e apaixonada fora das páginas. Há bons poemas no livro, mas eles não possuem a força necessária para tornar a obra memorável.

  • Swimming Lessons
  • Autor: Lili Reinhart
  • Tradução: Ana Guadalupe
  • Ano: 2020
  • Editora: Globo Livros
  • Páginas: 240
  • Amazon

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