Nomadland, favorito do Oscar 2021, conecta o espectador ao estilo de vida, peculiaridades, questionamentos e desafios de uma vida nômade. Acompanhando a trajetória de Fern, viúva que perdeu o esposo para o câncer na mesma época em que perdia seu lar e sustento – consequência do fechamento da filial de uma grande empresa que movia a economia e soprava vida à pequena cidade onde vivia – observamos a dualidade e nuances que fundamentam a realidade vivenciada por diversos sujeitos, moradores, cidadãos dos Estados Unidos da América.

Seguindo a tendência delineada pela maioria dos indicados a categoria de Melhor Filme deste ano, Nomadland se constrói na medida em que expõe temáticas reais, refletindo e questionando os elementos conflituosos do mundo que lhe possibilitou a existência. Na medida em que expressa a valorização da liberdade, o sentimento de deslumbre perante as mais belas criações da natureza, além do não conformismo e do não aceitar fixar-se física e espiritualmente em um lugar, uma região ou grupo de pessoas. Neste sentido, o filme evoca alguns dos princípios da formação e história dos Estados Unidos, partindo do sonho pela liberdade, da promessa de uma terra que aceitaria a todos, até chegar ao desbravamento por entre as localidades mais remotas do território.

Enquanto encanta o espectador com paisagens encantadoras, cenários espetaculares e momentos que marcam nossas vidas para todo o sempre, Nomadland insere as nuances de um país em ruínas, a dualidade de um sistema decadente e, curiosamente, a estranha beleza da compreensão da realidade duvidosa que, hoje, se estende por entre países e comunidades infinitas.

Sem grandes comentários ou críticas, uma vez que a sutileza do debate prevalece ao longo das cenas, adquirindo destaque maior em momentos ou falas específicas, a narrativa se constrói. Por meio da apresentação clara e expressiva do mundo edificado para além do seguro e confortável limite de nossas quatro paredes, Nomadland promove o contato com a precarização do trabalho, a precarização da vida, a busca por distanciamento deste sistema voraz que prioriza o lucro, o consumo e exploração em detrimento do sujeito, do viver e do conectar-se (aqui, não técnica e tecnologicamente, mas, essencial e espiritualmente). A uberização do trabalho, famoso conceito que em discussões e questionamentos nos dispomos a apreender, nasce indiretamente ao longo da narrativa do filme. O trabalho “autônomo”, a priorização da eficiência, os desafios impostos pela falta de redes de apoio, as dificuldades de não se sistematizar, surgem em pequenos detalhes e, talvez por se apresentarem tão comuns, não nos assombram. Quais serão os destinos daqueles cujos empregos não se asseguram? Quais serão os futuros daqueles cujos trabalhos se apresentam de maneiras sazonais? Como responder tantas perguntas urgentes quando nem mesmo compreendemos a dimensão dos sistemas e desafios atuais?

Nomadland não nos apresenta as respostas. E embora minha trajetória de estudos tenha possibilitado o contato com algumas destas considerações, não encontro caminhos fáceis, simples e milagrosos para promoção das transformações que necessitamos.

Em sua constituição narrativa, audiovisual e técnica, Nomadland é peculiarmente encantador e estranhamente confuso. Seu processo de edição remete a uma espécie de álbum de memórias, culminando num filme repleto de saltos temporais e espaciais. Sua história se constrói por uma espécie de colagem de cenas, de acontecimentos, de falas de personagens e, talvez por esse motivo, não tenha possibilitado – lembrando que aqui trato de minha visão e relação com a obra – a consolidação de uma experiência tocante, cativante, Íntima… apenas uma sensação de distanciamento, verdadeira observação de cenas e questionamento acerca das intenções do filme. Nesse sentido, ainda que reconheça a importância da temática apresentada, senti falta de comentários e questionamentos diretos e expressivos. Da mesma forma, embora valorize o trabalho de Chloé Zhao e o talento demonstrado na edição e direção do longa, senti falta de algo que arrematasse, que alinhasse todas as cenas a fim de desvendar os direcionamentos por trás de sua criação.

Nomadland, em essência, trata-se de uma obra que apresenta vivências da realidade, ainda que de maneira particular, remetendo aos processos de pensamento próprios de cada sujeito, como um verdadeiro recordar eventos do passado. Aqui, figurino, sonoridades, cores e cenários se apresentam como representações do real, aquilo que vemos remete ao que veríamos no mundo que se estende pelo horizonte. Inclusive, vários personagens, e, consequentemente, atores, são verdadeiros nômades, verdadeiros viventes dessa cultura e estilo de vida retratado ao longo dos 107 minutos de filme. Assim, arriscando uma comparação com movimentos da literatura, o longa expressa uma curiosa vertente realista, o que, por sua vez, me permite compreender os motivos pelos quais pouco senti e me conectei com sua história.

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O favorito da crítica especializada não conquistou meu coração, não cativou minha curiosidade e muito dificultou minhas tentativas de reflexão acerca de seus objetivos. Seus aspectos técnicos são interessantes, efetivamente valorosos, sutis e peculiares, porém, auxiliaram em meu distanciamento. Sua falsa neutralidade, alguns diriam normalização da realidade vigente, ou, ainda, leveza nos questionamentos e críticas sociais, contribuiu para que, entre tantos concorrentes, permanecesse entre os últimos de minhas apostas. Não se trata de um filme ruim – se é que existe algo como um filme ruim -, mas sim de uma história que não cativou meu coração e encantou o olhar. Assim, sigo apostando no arrebatador Bela Vingança e em outros títulos comentados ao longo de nosso especial, mas quem sabe quais surpresas nos aguardam para a noite do Oscar?

  • Nomadland
  • Lançamento: 2020
  • Com: Frances McDormand, Linda May, Swankie, Bob Wells
  • Gênero: Drama
  • Direção: Chloé Zhao

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