Se Algo Acontecer… Te Amo – Crítica

05 maio, 2021 Por Clara Vieira

O ganhador do prêmio de Melhor Curta de Animação do Oscar 2021 foi “Se Algo Acontecer… Te Amo”, curta-metragem escrito e dirigido por Michael Govier e Will McCormack e produzido pela plataforma de streaming Netflix. Esta mídia breve, com seus cerca de 12 minutos de duração, foi surpreendentemente uma das mais emocionantes e delicadas que assisti nos últimos meses.

Justamente por ser um curta-metragem, mesmo uma breve sinopse já revela muito de sua história. Por isso, tentarei ser sucinta ao descrevê-lo neste parágrafo, fazendo após isso uma crítica mais detalhada, que você pode optar por ler após ver o curta, caso queira. Assim, a sinopse breve de “Se Algo Acontecer… Te Amo” seria de que o curta-metragem mostra como a vida de um casal foi impactada pela morte de sua filha. É uma animação de traços delicados, condizentes com a sensibilidade com que esta história foi conduzida.

Podemos ver, logo ao início do curta-metragem, um casal. Homem e mulher estão física e emocionalmente distantes um do outro. Sentam-se para comer a uma mesa comprida, cada um em uma ponta. O silêncio reina entre ambos, mas suas almas parecem permeadas por conflitos um com o outro. Um aspecto que vale a pena destacar aqui é que este curta não tem sequer um diálogo falado. Compreendemos a narrativa através da animação, de músicas, e de outros de sons específicos. Acredito que este tenha sido um recurso poético muito bonito desta obra, pois muitas vezes faltam palavras para expressar o que sentimos em relação a ausência de pessoas queridas que faleceram. 

Retornamos então à narrativa do curta. Podemos ver, ao final da refeição do casal, o quanto diversos aspectos da casa trazem sentimentos dolorosos para os personagens. A parede com uma mancha azul, o canteiro de flores, a blusa azul, as almôndegas… Nenhum deles é apenas um lugar ou item que pudesse ser visto objetivamente, muito pelo contrário: cada um deles remete diretamente para uma pessoa que fez uso de cada um desses espaços e itens. Eles contam uma história sobre a filha deles, a filha perdida, que não está mais lá. A partir do momento em que esses objetos aparecem, a cor aparece também no curta-metragem, que até então era preto, branco e cinza.

A blusa da menina é azul, a mancha na parede é de uma tinta azul… Esta diferença nas tonalidades me remeteu para momentos nos quais estava extremamente triste, momentos nos quais o mundo perdia cor, ou parecia cinza. Em contraste, no entanto, os objetos da menina passam a emanar vida e cor, a vida que estava presente nas memórias que passam a aparecer: festas e primeiros beijos em diferentes tons de azul e rosa,  o céu de paisagens de viagens em tons como laranja e roxo.

Passamos a relembrar, junto com o casal de pais, diversos momentos da vida daquela menina, até que entendemos o que aconteceu com ela. A garota entra em uma escola.  Vemos uma grande e colorida bandeira dos Estados Unidos acima de um par de portas. Logo em seguida a tela fica preta com manchas vermelhas e azuis, remetendo a reflexos de sirenes policiais. Ouvimos as sirenes, e também gritos e tiros. A menina foi assassinada em um tiroteio em sua escola. A ênfase da bandeira aqui não é à toa, e aponta para os tiroteios em instituições educacionais como um fenômeno tipicamente norte-americano. Vejo aqui uma denúncia, um pedido para olhar para essa situação naquele país, e também para suas consequências, tais como separar famílias.

O curta termina, no entanto, com uma mensagem triste e bonita, literal e figuradamente. A menina diz aos pais antes de morrer, via mensagem de texto, que se algo acontecesse, ela os amava. Este amor permanece presente mesmo após o falecimento dela, e é ele que reaproxima o casal. O falecimento da filha afasta o casal, mas são ela e as memórias dela que os aproximam novamente.

É devido a todos esses elementos citados anteriormente que considero esta uma excelente obra, retratando com muito cuidado e sensibilidade o sofrimento vivido no luto de pessoas amadas, principalmente das que se foram subitamente. É uma história que conversa com cada um de nós, falando de alguma forma com as nossas próprias perdas e lutos, ou apenas despertando a nossa compaixão e sensibilidade para a perda do outro. O final da narrativa nos convoca diretamente para essa compaixão, para esse abraço junto ao outro que (também) está sentindo aquela perda. Mesmo que algo aconteça, nós ainda nos amamos. 

  • If Anything Happens I Love You
  • Lançamento: 2020
  • Com: -
  • Gênero: Animação, Drama
  • Direção: Michael Govier, Will McCormack

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