Sinto terem transcorrido meses desde o último momento em que sentei de frente ao computador com o intuito de estruturar pensamentos desalinhados, alinhar reflexões desestruturadas e delinear o que viria a se transformar em resenha de um lançamento fascinante ou descoberta literária surpreendente. Infelizmente, os fatores tempo de leitura, mercúrio retrógrado e cansaço mental reduziram drasticamente minha energia produtiva, culminando na diminuição de minha concentração, vontade de escrever e, aqui encontramos o que mais incomoda essa pessoa sistemática, organização. Como consequência, toda a predisposição para a criação de textos, interpretações e análise de obras – sejam elas quais forem – evaporaram como num passe de mágica!

Talvez o universo pretendesse apenas promover uma desaceleração, uma reestruturação das coisas, dos planos, da vida, da mente. Talvez os astros simplesmente estivessem me possibilitando relembrar a importância do autocuidado e saúde mental. Quem sabe, talvez, um bom descanso e distanciamento dos livros fosse tudo o que necessitava. Dos conflitos, desafios e confusões deste período, pouco saberia interpretar ou explicar. Aquilo que sei, porém, é que ao me arriscar por entre os limites da literatura novamente, foi Margaret Atwood – ela e sempre ela – quem me resgatou do limbo e permitiu sentir, refletir, interpretar e finalizar outra obra novamente.

“Linguagem, o punho
proclama ao apertar,
é apenas para os fracos.”

Isto posto, início esse texto – o qual não estabelece pretensão alguma de se enquadrar como e enquanto resenha – afirmando não ser a pessoa indicada para analisar, comentar e interpretar poemas. Poesia nunca foi meu forte. Poesia nunca me evocou com seus cantos melodiosos e metáforas encantadoras. É possível que nunca tenha encontrado meu estilo de poemas, minha linha poética, aquela ou aquele escritor – com exceção do querido Walt Whitman – que aquecesse meu coração e permitisse compreender a extensão das maneiras com que os sentimentos do mundo se demonstraram capazes de materializar-se em formato de poesia. Em verdade, após períodos turbulentos, necessitava direcionar meus olhares para algo novo, diferente ou diversificado, para textos, pensamentos e sentimentos construídos e compartilhados em formatos tais que não estava acostumada a interpretar … e foi assim que iniciei a leitura de Políticas do Poder.

Publicado originalmente em 1971, Políticas do Poder define-se como um livro de poemas que, construídos de acordo com direcionamentos estruturais que ouso classificar como verso livre, abordam a relação social, contextual e romântica entre homens e mulheres na mesma medida em que exploram o relacionamento entre gêneros, especificamente, o feminino e masculino. Embora perpasse a temática do amor romântico, do relacionamento amoroso entre homens e mulheres, a obra ecoa questões políticas, sociais e culturais, refletindo e questionando, a sua própria maneira, os desafios, dores, complicações e desequilíbrio imposto – e aqui exposto – no relacionar-se com o outro.

Da observação das colossais diferenças existentes nas oportunidades oferecidas para indivíduos visível e visualmente qualificados como homens e mulheres à limitação histórica do feminino como organizador e cuidador do lar. Do delineamento e exploração do distanciamento sentimental, emocional, mental e social entre o masculino e o feminino ao emprego de forças físicas, políticas, econômicas, institucionais e numéricas quando da fundamentação de direitos, deveres e desigualdades entre homens e mulheres. Do término de uma relação à conclusão de que se é possível viver livre da heteronormatividade. Do pouco se importar ao muito se importar. Do amor enquanto sentimento e enquanto imposição, enquanto campo de batalha e libertação, enquanto vivência e apropriação, a poesia de Margaret Atwood integra e interliga todas as temáticas, todas as características, todas as nuances da relação entre feminino e masculino. Expressando o posicionamento da autora enquanto sujeito, os poemas oferecem ao leitor a oportunidade de enxergar poesia para além do amor, definindo a criação poética como tão política, crítica e questionadora quanto a quiser seus criadores.

Políticas do Poder é um livro de poemas que ousa distanciar-se da clássica e tão reestruturada, reeditada, repaginada ou reformulada temática poética que é o amor. É um livro sobre relações e relacionamentos interpessoais, sobre a beleza cruel da sociedade em que vivemos, sobre os encantos desiguais de viver com alguém que pouco se importa ou percebe os privilégios que recebeu em detrimento do outro. Trata-se de um livro que, como tantos outros da autora, define e defende seus ideais e seus pensamentos, expressando em formato de prosa ou verso suas críticas, reflexões e questionamentos. Mas, para essa humilde e cansada leitora que vos escreve, trata-se de um livro cuja energia e mensagens possibilitaram a retomada, ainda que breve e lenta, das leituras, das resenhas, das reflexões, questionamentos e sentimentos que somente bons livros são capazes de evocar.

Por fim, gosto de pensar em Políticas do Poder como um exemplo perfeito de poesia que clama, encanta, chama a e agrada os não amantes da poesia … demonstrando, uma vez mais, que poesia, assim como prosa ou literatura de forma geral, é para todos, precisamos apenas encontrar nosso canto, nosso texto e as vozes que ecoam nossa essência em formato de palavras!

  • Power Politics Poems
  • Autor: Margaret Atwood
  • Tradução: Stephanie Borges
  • Ano: 2020
  • Editora: Rocco
  • Páginas: 144
  • Amazon

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