Quando falamos em Eduardo Spohr, pensamos automaticamente em suas aclamadas obras que compõem a Tetralogia AngélicaA Batalha do Apocalipse e a Trilogia Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida, Anjos da Morte e Paraíso Perdido – sendo excelentes exemplos da literatura fantástica brasileira contemporânea, onde a construção de personagens e desenvolvimento da trama deixa o leitor, experiente ou não nos livros de fantasia, bastante ávido por mais. Então, quando o autor resolve sair de sua “zona de conforto” e migrar para o romance histórico que, a priori, é uma das áreas que considero mais fascinantes no mundo da literatura, podemos esperar a mesma (e até superior) qualidade de escrita e atenção aos detalhes que já vimos anteriormente.

Em Santo Guerreiro, nova trilogia do autor, teremos em evidência a figura de São Jorge, um dos santos mais queridos e adorados por católicos, ortodoxos, anglicanos e devotos das religiões africanas, desde antes do seu nascimento e passando por toda a sua vida no fim do terceiro século quando o Império Romano inicia seu colapso.

Neste primeiro volume intitulado Roma Invicta, acompanharemos todo o caos das invasões bárbaras, a ascensão do cristianismo e o confronto com as demais religiões, insurreições militares e as mais variadas desordens ao passo que uma figura de grande destaque entre as fileiras de legionários contribui de diversas maneiras na rotatividade de poder da época. O alto oficial da cavalaria, Laios Graco, tribuno grego da legião Fulminante, exemplo de nobreza e valores que se excediam aos seus conterrâneos, vítima da politicagem do Império e de seu próprio senso de honra, é morto e tem suas terras roubadas. Este é o pai de Georgios, nome grego de São Jorge, e a partir daí nossa aventura histórica toma as areias do tempo conquistando o leitor com sorrisos, lágrimas e aquela inebriante sensação de “o que será que se encontra na próxima página”.

A primeira impressão que tive – desde o acompanhamento das lives de divulgação do livro até a leitura em si – foi de quão extensa se deu a pesquisa de Spohr tanto in loco quanto através de documentos históricos, formando uma base coesa e bastante fidedigna que me fez sentir em uma aula de história bastante interativa e que abordava, curiosamente, um dos impérios que menos me interessou até o presente momento: o romano.

O livro possui uma troca de cartas entre a narradora, Helena, e um ouvinte, Eusébio, sendo para o leitor uma espécie de tête-à-tête com o autor e até um mini resumo de suas pesquisas e do que veremos na trama. O enredo é dividido em cinco tomos que irão construir a história do jovem Georgios desde antes de seu nascimento, partindo dos acontecimentos que levaram Laios e Polychronia a se conhecerem, vindo a ser seus pais, em meio à investida militar do imperador Aureliano contra a rainha Zenóbia de Palmira. Com a vitória de Roma, Laios torna-se o herói da batalha e por isso o tribuno, junto a seu companheiro de exército Räs Drago, primeiro centurião da Cirenaica, tem concedido pelo imperador o governo de Lida. Contudo, desde o início o atrito entre os dois legionários é evidente o que irá transcorrer numa série de acontecimentos cruéis e importantes ao longo da narrativa.

Grandes transformações são sempre precedidas por ritos de passagem. Se a sociedade não os organiza, os deuses tratam de realizá-los.

Entre os mais diversos conflitos e conspirações, divergências entre as religiões pagãs e a emergente fé cristã, é no final do primeiro tomo que nasce Georgios no seio protetor de seus pais na Vila Fúlvia em Lida, sendo educado nas letras pelo escravo-secretário Strabo e treinado pelo gigante Ulisses. Como qualquer criança, é de se esperar que Georgios tenha sua quota de aventuras e desventuras, algumas delas, em específico uma, me deixou abalada pelo conteúdo e devido a vivacidade da descrição do autor, mas é aos quatorze anos, quando seus pais são mortos e tudo aquilo que ele tinha como seguro e certo cai por terra, que a jornada realmente começa através de sua fuga afim de entrar para o exército romano, se fortalecer e finalmente conseguir sua vingança. Como n’A Jornada do Herói de Joseph Campbell, o leitor verá o desenvolvimento gradativo de Georgios e a consolidação do seu caráter, muitas vezes indo na contramão do que era esperado para um jovem romano.

Ao longo da narrativa de Roma Invicta, Spohr nos leva por um império em frangalhos onde os conflitos e a instabilidade política e militar são constantes. A experiência extraída nesse primeiro volume de Santo Guerreiro, que nos mostra além do declínio do Império romano e da perseguição dos cristãos, é de que luz e trevas sempre irão duelar pelo espírito humano tendo diversos exemplos disto ao longo da história.

Mas não só de batalhas, aventuras e doses de crueldade é composto o livro, em suas muitas formas o amor é retratado de forma marcante na trama, seja entre o filho e sua mãe, o jovem garoto que encontra uma moça bonita, dois amigos descobrindo seu lugar no mundo, um ex escravo e uma judia convertida ao cristianismo, a bondade e compaixão, sabedoria e inteligência de Georgios são mostradas desde cedo enquanto ele passa pelos mais variados caminhos de sua jornada. Outro aspecto bastante interessante, que foi retratado de forma muito satisfatória, e que vemos mais uma vez saltando das entrelinhas o nível de profundidade na pesquisa do autor, é o misticismo e ocultismo das religiões pagãs da época e anteriores, especialmente o culto a Mitra ou do Sol Invicto que é adorado pelos soldados romanos.

Por apresentar um período histórico pouco explorado na literatura, a da queda do Império, com invasões bárbaras assolando o território romano, somado à biografia romanceada de um dos santos mais queridos e adorados em todo o mundo, Spohr entrega ao leitor um prato cheio de informações, referências, vivências, aventuras e reflexões acerca da virtude humana desde os primórdios do cristianismo, passando pelos costumes consolidados na época e suas devidas críticas, onde podemos levar para os dias atuais e não só conhecer um pouco mais da história de um herói humano como também refletir e analisar em nós mesmos aquilo que nos faz os vilões ou os heróis na nossa própria história.

Leitora de Spohr desde seu estreante A Batalha do Apocalipse, a cada nova história me surpreendo com a capacidade do autor tragar o leitor para dentro de suas páginas, e neste romance histórico não é diferente, inclusive chega a superar seus trabalhos anteriores visto o amadurecimento na escrita do autor. A vivacidade na descrição dos ambientes, na construção física e emocional dos personagens, nos muitos momentos bons e ruins, no cuidado por trás da história, com as pesquisas e estudos, faz-me apenas ter certeza de que a cada novo virar de página, finalizar de capítulo, o que virá será mais que notável.

– Por que há tantas histórias de heróis na mitologia? – Porque é sobre isso que vale a pena escrever.
Joseph Campbell e Bill Moyers, O Poder do Mito

Santo Guerreiro: Roma Invicta é o primeiro volume da nova trilogia de Eduardo Spohr que traz a biografia romanceada de Georgios, o santo São Jorge, e será sucedida por Ventos do Norte e Império do Leste ainda sem datas de lançamento.

  • Santo Guerreiro: Roma Invicta
  • Autor: Eduardo Spohr
  • Tradução: -
  • Ano: 2020
  • Editora: Verus
  • Páginas: 588
  • Amazon

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