Ao longo de milênios de história humana a peculiar concepção, que ainda pode ser compreendida por meio da palavra herói, adquiriu espaço cativo em nosso coração, imaginário e mitologia. Suas trajetórias gloriosas e repletas de conquistas fascinantes, sua suposta perfeição e reminiscência à divindade, a maneira como suas vidas, escolhas e desenlaces superam barreiras de tempo e espaço por muito tempo se apresentaram como algumas das características essenciais a visão que tão belamente construímos de nossas figuras heroicas. Contudo, todavia, entretanto, os detalhes que não se encontram nos poemas épicos, as nuances que não se expressam nas narrativas clássicas, os acontecimentos que não adentram os anais da história seriam os aspectos que, talvez, nos carregassem por entre caminhos de pensamento e reflexão acerca dos recortes tão estrategicamente definidos para a consolidação de tais personalidades.

As lembranças se sucedem ininterruptamente. Ela ouve; olhos fixos nos veios do mármore. Estamos todos ali: a divindade, o mortal e o menino que era as duas coisas.

Por entre glória e realizações maravilhosas, por entre conquistas e guerras vencidas, as trajetórias dos heróis que tanto admiramos delineiam rastros de sangue e morte. As consequências para aqueles que desafiaram os deuses, que atravessaram o oceano em busca de fama e poder, que enfrentaram exércitos sanguinários ou perderam décadas de suas vidas em jornada de retorno para casa, incontáveis vezes culminaram na perda de amigos, familiares, tripulações, exércitos e, como não poderia deixar de ser, heróis que se transformariam em lendas.

Do mesmo modo, suas infâncias podem mostrar-se repletas de momentos felizes, descobertas encantadoras, lições arduamente apreendidas, memórias adoráveis e primeiros amores. Podem revelar uma personalidade nunca antes imaginada pelos curiosos e distantes leitores da história. E, todo e cada um destes detalhes, toda e cada uma destas nuances, foram compreendidas e interiorizadas por Madeline Miller ao escrever A Canção de Aquiles.

Narrada por Pátroclo, a narrativa segue o percurso deste príncipe exilado, renegado pelo pai após a morte acidental de um filho da nobreza cuja genealogia garantia proteção, alianças e poder. Destituído de títulos, riqueza ou influência, Pátroclo desembarca no reino de Fítia como servo aprendiz. É neste contexto que conhecerá Aquiles, fruto da violência e abuso impostos pelo rei Peleu à deusa, ninfa do oceano, Tétis. É por entre os corredores do palácio, as praias ensolaradas de Fítia, os treinamentos e exercícios oferecidos aos garotos exilados, que Pátroclo e Aquiles firmarão amizade. É por meio da convivência diária e ininterrupta, do compartilhamento de segredos, histórias e desejos que a amizade entre dois garotos se transforma em lealdade. E, quando aquele que possui o sangue dos deuses correndo por suas veias, quando aquele que encontra seu destino prometido à história por meio da concretização de ações gloriosas, necessita iniciar treinamento com Quíron, a lealdade e amizade entre Aquiles e Pátroclo se transforma em amor, delineando uma narrativa dividida entre a lenda de um futuro herói e a mortalidade de seu companheiro.

Confira a resenha de Circe

Espécie de romantização – enquanto deslocamento de uma narrativa épica escrita em versos para os moldes e características de um romance em prosa – a estreia de Madeline Miller no universo literário é uma encantadora e cativante demonstração de talento criativo, atenção aos detalhes, respeito à diversidade e pautas contemporâneas, homenagem ao precedente estabelecido por Homero e, principalmente, humanização de personalidades que milênios de história humana nos direcionaram a compreender erroneamente. Com um estilo de escrita peculiarmente similar aos clássicos livros de outrora, de início lento e desenvolvimento instigante, compondo uma introdução aprofundada à trama, aos personagens, à mitologia e eventos que possibilitam a existência da obra, observamos a aliança firmada pelos principais e mais poderosos reis gregos quando do casamento entre Helena e Menelau, acompanhamos a transposição da infância e chegada da adolescência de Pátroclo e Aquiles, alinhamos os acontecimentos que direcionarão Aquiles a lutar  na Guerra de Troia e, com muitas dúvidas e dor, desvendamos as profecias acerca da trágica morte de um dos maiores heróis gregos… mas também de um dos mais hábeis médicos, um dos mais fiéis amores, uma das mais corretas almas que já pisou em solo mortal.

Ao preencher as lacunas deixadas por Homero, Madeline Miller presenteia o leitor com uma história de amor que supera desavenças, intrigas e traições por meio do diálogo, confiança, certeza de fidelidade e, principalmente, aceitação livre de julgamentos perante os piores erros e maiores valores da figura amada. O romance de Aquiles e Pátroclo ultrapassa oceanos e territórios inimigos, desafia o próprio tempo e espaço, supera a distância das almas dispersas no submundo por, simples e essencialmente, demonstrar-se regido pela realidade da vida, pela compreensão de que nuances existem em mortais, deuses e lendas.

Entendendo que humanos se fundamentam tanto pelas dores que a crueldade ou perdição do outro promovem em nossas almas, quanto a atenção oferecida ou carinho delicadamente expressado elevam nosso espírito às configurações de divindade, a autora oferece a Pátroclo a oportunidade de revelar os desejos, temores, princípios, amores e falhas de si, mas também os desejos, temores, princípios, amores e falhas de Aquiles. Nada é resta para ser consumido pelas areias do tempo, tudo de grava em mármore para a eternidade e, talvez, por esse motivo A Canção de Aquiles tanto tenha conquistado leitores.

Seja por meio das conspirações e interferências promovidas pelo Olimpo, pela crueza e violência da guerra, pelos abusos normalizados por heróis, reis e generais cujo machismo garantiu a ceifa de meninas, garotas e mulheres, o livro, seu narrador e autora não perdem a oportunidade de comentar, ainda que sutilmente, desafios contemporâneos através da apresentação de contextos passados. Por outro lado, embora não repare os erros, equívocos e consequências das escolhas de Aquiles, a narrativa delineia o mais cuidadoso trabalho de caracterização e redenção de Pátroclo, quem lutou a sua própria maneira, de acordo com suas próprias regras, defendendo ideais que hoje reconhecemos, que atualmente nos são caros, que expressam a humanidade de seres que lendas e mitos transfiguraram em algo impossível de assimilar. Este é um livro de preenchimento de lacunas, é o oferecimento de oportunidades de fala àqueles cujas lendas silenciaram, é a jornada de um herói que se transformou em lenda… e de outro que permaneceu a sua sombra.

Contudo, vencida a guerra, conquistados os tesouros, contabilizados os mortos e partilhadas as honrarias, o que nos resta são as lições apreendidas, os ensinamentos que carregamos em nossa essência, os desafios que enfrentamos com o intuito não permitir que o mundo altere quem verdadeiramente fomos. E, no fim, com a chegada da alvorada, o que permanece é o amor, o amor sincero e livre de julgamentos que tudo supera. Amor que não percebe cor, forma ou aparência, que resiste e persiste, que nos cativa e comprova que, em meio as diferenças, ainda somos todos iguais.

  • The Song of Achilles
  • Autor: Madeline Miller
  • Tradução: Gilson César Cardoso de Sousa
  • Ano: 2021
  • Editora: Planeta de Livros
  • Páginas: 336
  • Amazon

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