O Ódio Que Você Semeia | Angie Thomas

23 jan, 2022 Por Clara Vieira

O Ódio Que Você Semeia, escrito por Angie Thomas, narra a história de Starr, uma adolescente negra que vê seu melhor amigo Khalil sendo injustamente assassinado por um policial ao voltarem de uma festa. Isso faz com que a jovem se veja diretamente confrontada por inúmeras dinâmicas racistas, e encontra em sua voz uma potente arma para lutar contra essas dinâmicas.

Essa sinopse pode já ser suficiente para apontar a importância desta história, já que ela claramente denuncia a violência policial cometida contra pessoas negras, e aponta também caminhos de resistência. Afinal, a ideia para este livro surgiu logo após o jovem Oscar Grant ter sido injusta e violentamente assassinado por um policial branco, o que mostra o quanto este livro é pertinente e, infelizmente, realista. Esta é, no entanto, apenas uma de muitas das facetas presentes na história. Isso porque a discussão acerca do racismo presente em nossa sociedade é feita através de diversas camadas. Starr já sofria com uma dinâmica social racista antes mesmo de presenciar um ato de extrema violência.

Ela cresceu em um gueto, no qual os habitantes frequentemente presenciavam tiroteios, além de sofrerem com pobreza e fome. Com o intuito de proporcionar a filha um escape desta situação de violência, os pais de Starr a transferiram para uma escola de elite frequentada quase que exclusivamente por alunos brancos. Assim, Angie Thomas conseguiu trazer outras duas discussões importantes à tona: primeiramente, a dificuldade que é ser negro e habitar espaços onde a maioria é branca, uma situação causada por uma estrutura societária racista, e que faz com que pessoas negras não se sintam pertencentes aos espaços. Em segundo lugar, Thomas também questiona quais as oportunidades que são dadas a pessoas que crescem em lugares tais como Garden Heights, o bairro de Starr. 

Tudo isso é feito através da construção de personagens tridimensionais, com qualidades e defeitos, traços de personalidade e preferências muito bem demarcados. Starr, sua família, seus amigos, Khalil, todos são personagens muito bem construídos, tanto que parecem pessoas de verdade. É isso que torna a história de Thomas genial: ela permite que a discussão sobre o racismo seja feita em todas as suas sutilezas, de pessoas reais para pessoas reais, conversando com todas as emoções que podem ser sentidas naquelas situações. Ela convoca a nós, pessoas brancas – dentre as quais me incluo – a um exercício de empatia e de auto questionamento, ao mesmo tempo em que segura firme na mão dos jovens negros e diz que eles não estão sozinhos e que os sentimentos deles são, sim, muitíssimo válidos. Uma das maneiras da autora acolher os sentimentos dos jovens negros e mostrar sua importância se dá  através da jornada de desenvolvimento da protagonista ao longo do livro, já que, ao descobrir a importância da própria voz enquanto ferramenta de resistência e de expressão, passa a validar aquilo que sente, o que inevitavelmente a torna mais forte.

Assim, defendo que este acolhimento que o livro fornece é parte importante da força da história. Ela fala, obviamente, da violência e do impacto desta na vida das pessoas. Não à toa o nome original em inglês, “The Hate You Give”, é parte da explicação do rapper Tupac Shakur para seu lema “Thug Life”. O rapper dizia que THUG LIFE é uma sigla que significa, em inglês, “The Hate U Give Little Infants F**** Everybody”, ou, em tradução literal, o ódio que você semeia em crianças pequenas f**** todo mundo. Essa é uma discussão importante ao longo da história, como o ódio se propaga e cria um ciclo de violências e de mais ódio. Creio, no entanto, que Angie Thomas prova ao longo do livro que não é apenas o ódio que se propaga, ao nos lembrar da importância dos laços – de amizade, familiares, comunitários – que enxergam a importância dos sentimentos e, principalmente, a importância da vida. Afinal, Black Lives Matter. Vidas negras importam.

  • The Hate You Give
  • Autor: Angie Thomas
  • Tradução: Regiane Winarski
  • Ano: 2017
  • Editora: Galera Record
  • Páginas: 378
  • Amazon

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