Alerta de gatilhos! A obra aborda assuntos sensíveis como estupro, violência e assassinatos.

Não existe uma maneira de se iniciar a leitura de Tempo de Matar, preparado para o que irá se encontrar. É necessário que por diversas vezes se pare, respire fundo e seque as lágrimas, que você esteja pelo menos avisado, que um turbilhão de emoções irá te alcançar feito um terremoto que abala todas as suas estruturas, logo na primeira página, e que a leitura irá te tirar totalmente da zona de conforto, te colocar frente a frente com questões sociais, ideológicas, econômicas, raciais, criminais… questões de humanidade, vida, família, justiça, vingança… é brutal, intenso, revoltante, angustiante e cheio de apontamentos que infelizmente ainda hoje, precisam ser esmiuçados, destrinchados, na esperança de que assim, sejam enfim entendidos, aprendidos e não mais repetidos em nossa sociedade.

Uma jovem de dez anos, uma menininha indefesa, preta, que está amarrada, sendo brutalmente estuprada, por dois homens bêbados e drogados, brancos, que estão se divertindo com toda a cena que se desdobra a sua frente, a jovem está machucada, abalada, amedrontada, mas se ela chorar, ou pedir por misericórdia só ira apanhar mais e mais, então, ainda que em sua pouca idade, ela aguenta, ela tenta o seu máximo ser forte, porque ela só quer que tudo aquilo termine e ela possa voltar para sua casa… Obviamente que como esperado, após muito ser usada, espancada, maltratada, eles cansam, acham que está bom, e o primeiro impulso é matá-la, mas por um triz, ela escapa da morte. Encontrada por populares, é levada para sua casa e a família então, se torna ciente do que lhe aconteceu.

“Willard perguntou a Cobb se ele achava que ela estava morta. Cobb abriu outra lata de cerveja e explicou que ela não estava morta porque negros geralmente não morriam apenas por conta de chutes, socos e estupros. Era necessário muito mais, algo como uma faca, um revólver ou uma corda, para se livrar de um negro.”

Desesperados é talvez a palavra que melhor descreva a reação da família quando olham para a garotinha toda machucada e ensanguentada. O pai, que estava trabalhando chega e é devastado por sua garotinha estar naquele estado, mas ele a pega em seu colo e a carrega para o hospital, lá ficando ciente da extensão dos ferimentos e das consequências que o jovem corpo irá pagar. Carl Lee, não consegue impedir sua raiva, controlar seus impulsos, seu ódio, sua amada filhinha está passando por cirurgia e por mais que ele queria acreditar que o ÚNICO xerife negro Ozzie Walls, irá cumprir o que lhe prometeu de encontrar os dois culpados pelo crime, e os levarem a julgamento, Carl Lee sabe que o desfecho pode ser bem diferente. E motivado pelo amor que sente por sua filha, assim como pelo ódio só de pensar em todo horror que ela passou nas mãos daqueles dois monstros, ele toma uma decisão, irá fazer justiça com as próprias mãos.

Jake Brigance é advogado, e um velho conhecido da família Hailey. Aos 37 anos, é tido como um dos melhores da sua área de atuação, ele não trabalha em um grande escritório, não possui grandes clientes, mas se orgulha de trabalhar para e pelas pessoas. Pai de uma garotinha de 4 anos, se pega pensando sobre como seria sua reação se estivesse na posição de Carl Lee, e de certa forma se assusta ao constatar que talvez tomasse a mesma decisão vingativa que o homem, ainda assim, ele tentou o acalmar, conversar sobre o que ele encontraria caso seguisse sua fúria, mas também disse que o ajudaria se fosse preciso, jamais imaginando o tamanho do caos que iria se instaurar na pequena cidade de Mississippi.

“(…) Falou para eles fingirem que a menina tinha cabelos louros e olhos azuis, que os dois estupradores eram negros, que amarraram seu pé direito a uma árvore e o esquerdo ao poste de uma cerca, que a estupraram várias vezes e a xingaram por ela ser branca. Falou para eles imaginarem a garotinha deitada lá, implorando pelo pai, enquanto eles chutavam ela na boca e arrancavam seus dentes… (…) Então ele falou pra eles imaginarem que a menina era deles, a filha deles.”

Caros leitores, escrever esta resenha está sendo muito difícil. Porque está me fazendo reviver tudo que senti ao longo da leitura, lágrimas e mais lágrimas, mãos que tremem, coração doendo e um sentimento de impotência tão absurdo que me rouba as palavras. Tempo de Matar, se passa em Mississippi, nos EUA, na década de 80, um estado ainda em fase de integração social, foi originalmente publicado em 1989, mas ganhou notoriedade com a adaptação cinematográfica em 1996. Como mencionei ali em cima, a obra retrata a história de um pai que quer vingança, justiça, após sua filha de dez anos ser brutalmente estuprada. Ele invade o fórum, e mata os dois acusados de terem cometido o crime, sem nenhum remorso, culpa, ou arrependimento, no ato ele também atinge um policial na perna.

O cenário é de muito racismo, e isso fica claro quando falam da vítima, assim como tratam o caso, ficando evidente que se fosse uma criança branca violentada por dois homens pretos, e que o pai desta os matasse, não daria em absolutamente nada, ele nem seria indiciado, porque seria justificável, mas que como foi o contrário, eles querem um julgamento, ou melhor, uma condenação. Jake aceita a difícil missão de ser o advogado de Carl, ele resolve lutar mesmo ciente de que não terá um julgamento justo, entendendo que provavelmente todo o júri será composto por brancos, ele tenta transferir o local de julgamento… mas tudo parece fadado a derrota. E não é só isso… a ku-klux-klan, entra na briga de lados. Ameaças e mais ameaças são feitas, a família de Carl, a família do Jake a própria polícia… cruzes são queimadas. Jake e a família de Carl, tentam muito se manterem firmes, lutando bravamente, mesmo com recursos escassos, a beira de passar fome… é um pesadelo que vem destruindo tudo e todos que nele estão envolvidos.

Que baita livro, que leitura forte. A narrativa do autor é minuciosa, ele se apega a detalhes e esse pode ser um ponto que desagrade alguns leitores, mas para quem gosta de tudo esmiuçado, de conhecer um pouco dos bastidores de um julgamento, e não liga para umas páginas a mais, essa leitura vai ser viciante, empolgante e cheia de reviravoltas. Eu AMEI, e queria muito saber como colocar todos os meus sentimentos aqui nestas palavras, mas não consigo. Que final… que discussão mais emocionante a dos jurados no fim, foi de arrepiar. Outro ponto que me chamou bastante atenção também, é em como algumas pessoas se compadeciam em seu íntimo, até conseguiam se colocar no lugar daquele pai, mas o condenavam mesmo assim, por se tratar de uma pessoa preta.

“— A sua condenação seria outro tapa na nossa cara, um símbolo desse racismo arraigado, de velhos preconceitos, velhas hostilidades. Isso seria um desastre. Você não pode ser condenado.”

Venha ser confrontados sobre qual seria seu posicionamento em relação ao crime, se você o veria como justiça ou vingança? Apoiaria ou condenaria? Como você encara o ato de matar? Os fins justificam os meios? Você é a favor da pena de morte?

Enfim… é um livro para se ler, pensar e repensar muitas coisas. Só quero ressaltar que quanto a parte jurídica da história eu não tenho muito o que falar, uma vez que não tenho propriedade no assunto e desconheço as vias legais, mas quanto ao enredo, ao “Thriller Jurídico”, que eu mais caracterizaria como um drama, eu deixo aqui meus aplausos de pé. Este Foi meu primeiro contato com a escrita do autor e estou aqui, louca, ensandecida, para conhecer todos os demais livros dele, vai ser uma das minhas metas para 2022. Até a próxima! Bye.

  • A Time to Kill
  • Autor: John Grisham
  • Tradução: Bruno Fiuza
  • Ano: 2021
  • Editora: Arqueiro
  • Páginas: 544
  • Amazon

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