Uma Rosa no Concreto | Angie Thomas

10 fev, 2022 Por Clara Vieira

Uma Rosa no Concreto”, livro de Angie Thomas de lançamento mais recente no Brasil, é uma prequel de “O Ódio Que Você Semeia”, ou seja, uma obra que trata de eventos anteriores à história originalmente lançada. No caso de “Uma Rosa no Concreto”, acompanharemos a vida de Maverick, pai de Starr (protagonista de “O Ódio Que Você Semeia”), quando ele era adolescente. 

Angie Thomas revelou, nos agradecimentos de “Uma Rosa no Concreto”, que ver Russel Hornsby dando vida a Maverick no filme baseado em “O Ódio Que Você Semeia” a fez perceber que havia uma história a ser contada ali, inspirando-a para a realização desta prequel. Consigo entender a sensação, mesmo sem ter visto o filme até então, já que, em minha leitura recente da primeira obra de Angie Thomas, pude perceber o quanto Mav era um personagem bem construído e tridimensional, com uma das histórias mais complexas de toda a trama. Confesso que pensei, no entanto, que isso poderia ter sido um problema para “Uma rosa no concreto”. Thomas trabalhou em tantos detalhes o passado de Mav em “O ódio que você semeia” que receei que um livro apenas sobre o personagem pudesse ser muito previsível, de maneira a não deixar evidente uma razão para acompanharmos essa história.

Meu receio foi em vão, felizmente. “Uma Rosa no Concreto” trata, sim, de eventos da vida de Maverick que já sabíamos que aconteceriam, tais como a gravidez de sua então namorada Lisa, que viria a gerar Starr. Estes eventos, no entanto, não são o que sustenta o livro. Esta nova obra de Thomas veio ao mundo para discutir questões importantes que perpassam a vida de pessoas negras nos Estados Unidos da América, questões essas exemplificadas pelos símbolos trazidos pelo rapper Tupac Shakur. Se naquele livro a metáfora trazida era a da “thug life”, temos aqui a metáfora das rosas que nascem do concreto. “The Rose That Grew From Concrete” é uma coleção de poesias escritas por Tupac e que foram transformadas em um álbum musical após seu falecimento.

Confira a resenha de O Ódio Que Você Semeia

Na poesia que leva o nome do álbum, Tupac deseja “Long Live The Rose That Grew From Concrete When No One Else Even Cared.” (em tradução livre, viida longa à rosa que cresceu do concreto quando ninguém mais se importava). Trata-se uma metáfora que fala diretamente daqueles que crescem e prosperam em circunstâncias difíceis e que não estimulam o crescimento. Maverick é o perfeito símbolo da rosa que nasce no concreto, e é através de sua história que serão discutidas as problemáticas de se desenvolver em meio a tantas dificuldades, que podem tanto ser de ordem material – como não ter dinheiro para sustentar sua própria família – quanto de ordem psicológica – como ser levado a acreditar que sua vida não tem importância devido a uma identificação com aquilo que a sociedade discrimina como “marginal”. 

A partir desta temática principal Angie Thomas acabou proporcionando um espaço para reflexões acerca da masculinidade negra, ao tratar do que se espera de homens negros e como essa expectativa acaba afetando suas vidas. Um exemplo importante nesse sentido é o mito criado acerca de homens negros não terem emoções, que os leva a não poder expressá-las, com todas as consequências psicológicas que podem vir com isso. Thomas aborda também como esse mito tem bases racistas.

Assim, conclui – com muito prazer – que a qualidade da escrita de Thomas tal como evidenciada em “O Ódio Que Você Semeia” se manteve neste seu novo livro. Creio que a leitura seja válida tanto para fãs da primeira obra da autora que desejem reencontrar alguns dos personagens originais e aprender um pouco mais com eles, quanto para quem queira começar a ler Angie Thomas, conhecendo primeiro Mav, para depois encontrar sua filha Starr. Imagino que começar pela história de Mav pode deixar este livro um pouco mais surpreendente para o leitor, perdendo, por outro lado, a sensação de reencontrar personagens queridos que acontece quando lemos primeiro livro. Seja qual for a ordem de leitura que você decida, recomendo que leia Angie Thomas.

  • Concrete Rose
  • Autor: Angie Thomas
  • Tradução: Thaís Britto
  • Ano: 2021
  • Editora: Galera Record
  • Páginas: 308
  • Amazon

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