A Porta | Magda Szabó

10 jul, 2022 Por Viviane Papis

Magda Szabó foi uma das mais reverenciadas escritoras húngaras da modernidade. Nasceu no auge da revolução socialista e viveu uma vida plena, falecendo em 2007 aos impressionantes 90 anos. Junto a nomes como Imre Kertész, ganhador do Nobel de literatura, Magda ainda é uma das grandes porta vozes da realidade húngara durante e após o estrito regime comunista, em uma ampla e diversa bibliografia que compõe poesia, ensaios, livros infantis, memórias e dramas. É considerada a autora húngara mais traduzida e seus livros receberam diversos prêmios de tradução, em especial para a língua inglesa. Recentemente, a Intrínseca reviveu um de seus romances mais impactantes, inédito no Brasil, e é sobre este livro que faço essa resenha.

A Porta, um dos últimos livros escrito por Magda, foi meu primeiro contato com a literatura húngara, até mesmo do leste europeu, e devo dizer que preciso urgente me afastar do mundo anglófono e consumir mais as obras de nações perpassadas por conflitos, guerra, fome, e que são tão bem colocadas no papel. Nesse drama tardio, a personagem principal, um alter ego da própria escritora, descreve sua relação com a faxineira da vila, Emerence, responsável por manter a ordem das calçadas e de vários apartamentos da região. Apesar da simplicidade da descrição, a autora captura uma relação conturbada e repleta de sentimentos e rancores entre as personagens que representa muito bem suas personalidades tão opostas e ao mesmo tempo complementares.

Através de capítulos que tentam sintetizar uma relação (de trabalho e afetiva) que dura anos, Magda narra episódios que descrevem e representam as excentricidades de Emerence e o desenvolvimento de seu laço. Desde o primeiro capítulo, a narradora conta desses episódios e como sua percepção e relação com Emerence mudou após certo evento, prevendo e preparando a narrativa para esse desfecho. A narradora conta que Emerence sempre usa um lenço na cabeça, é contrária ao culto religioso tão comum na Hungria e parte integral da fé da narradora, proíbe a entrada de qualquer um em sua casa, apenas permitida ao cachorro Viola.

Diante de figura tão enigmática e fechada com a intimidade, seu lar e seu legado, a narradora cria diversas suposições sobre quem de fato é Emerence e tenta desvendar sua resistência em ceder aos avanços da narradora e seu marido.

De imediato, eu me vi capturada pela narradora e rejeitando a maneira de impor-se diante dos outros que Emerence já estava acostumada a fazer. Me incomodava essa insistência em fazer tudo do seu jeito e não havia meio termo, era preciso aceitar. E me vi compelida, como a narradora, em tentar desvendar essa figura tão complexa e inacessível, como um desafio literário, de compreender sua história, sua subjetividade. Mas ao final, me encontrei numa situação oposta, encantada e defendendo a postura de Emerence e rejeitando tudo que pensa e fala a narradora, tamanha transformação que Magda Szabó conseguiu realizar ao longo do livro.

Devorei os últimos capítulos com tremenda raiva e rancor, julgando a narradora e todas as desculpas que ela apresentava para justificar seus comportamentos. Diante do meu cometimento, passei a acreditar na veracidade daquelas palavras e ter raiva da própria autora, de ter recontado esses eventos em um livro auto piedoso. E ao final, senti um desejo perverso de seu sofrimento emocional não ter nenhuma resolução. Me sinto uma tola de ter acreditado com tanto fervor ser um relato autobiográfico.

No entanto, não posso me culpar se foi esse o intuito de toda a construção da narrativa, de tornar-me uma cúmplice, de acreditar que a narradora havia vivenciado tudo isso e colocado energias suficientes em um extenso relato de sua culpa (deveras cristã). Apenas no dia seguinte, quando a leitura já causava menor emoção em mim, entendi o que havia se passado, e pude reconhecer o mérito que Magda Szabó teve ao conseguir transportar uma leitora como eu à Hungria que se recuperava da guerra e da censura, me fazendo compadecer com pessoas inexistentes, sofrer com seus destinos e me provocando repulsa às escolhas da narradora.

A Porta é um livro difícil de descrever em poucas palavras. Há uma complexidade latente que vai sendo desvendada a cada capítulo e evento descrito. Além disso, a figura da porta, usada no livro de diversas formas figurativas e literais, é muito forte para representar uma subjetividade reclusa, a Cidade Proibida de Emerence, mas também nossa relação com a narradora. A porta é um elo que liga e separa o que há fora do que há dentro. Um portal para uma realidade diferente ou um refúgio.

Para mim, será impossível pensar na porta sem ser tomada pelas imagens que Magda plantou em mim com essa dura narrativa, pois sua escrita crua traz à tona uma sensibilidade enorme das personagens, se utilizando se analogias religiosas e mitológicas, creio que justamente para chegar ao cerne humano desses eventos tão significativos.

  • Az ajtó
  • Autor: Magda Szabó
  • Tradução: Edith Elek
  • Ano: 2021
  • Editora: Intrínseca
  • Páginas: 256
  • Amazon

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