Talvez essa seja a resenha mais longa que eu já tenha escrito, e ainda assim, muito provavelmente não farei jus aos temas abordados e todas as emoções que o enredo carrega. Dito isto, peço que tenha o carinho de lê-la por completo, e mais do que isso, que tenha o carinho de ler o livro que é tão atual, real, cru e palpável, principalmente quando olhamos o mundo e o caminho que muitas “pessoas” e “políticas” tem tomado.

O Vento Sabe Meu Nome, chega como um sussurro do vento que se agita e já avisa que uma tempestade está a caminho, se tornando um grito potente sobre luto, dor do exílio, busca por pertencimento, sobrevivência e amor. Com uma história que atravessa gerações e fronteiras, com duas linhas temporais, duas infâncias e uma mesma ferida, ferida esta que o vento carrega – nomes, memórias e cicatrizes, as perdas que moldam quem somos, construindo assim um retrato comovente da resiliência humana diante de um trauma, da migração forçada e da luta por identidade, mostrando como o passado ecoa no presente e como o amor e a memória podem ser formas de resistência.

“— Todos os nazistas são malvados, mamãe? — Não sei, filhinho. Deve haver bons e ruins. — Mas os ruins são mais, acho — disse o menino.”

Começamos a leitura conhecendo os Adler, uma família judia que mora em Viena, o ano é 1938, e o ar está impregnado de prenúncios ruins, como se o vento já trouxesse a opressão e perigos do aumento do poder nazistas que se fortaleceu com o financiamento e as armas de Hitler. Os ataques e atentados tem se espalhado mais a cada dia e por mais cidades e só parece questão de tempo até que chegue até sua casa. E Rudolf estava certo, ainda que fosse um médico conhecido e já tivesse salvado muitas pessoas, isso não significava nada para o ódio que se ascendia nas pessoas, e como se era esperado naquele dia inquietante ele não retornou para casa. Rachel, levou apenas alguns minutos para entender a gravidade da situação, uma pedra foi lançada para dentro de sua casa, estilhaçando a janela, e isso bastou para que ela pegasse o seu filho de apenas cinco anos, Samuel, e saísse de casa para buscar pelo marido, mas sendo impedida pelo vizinho, Volker, um militar reformado que os abrigou em seu apartamento.

Aqui faço o primeiro parêntese histórico – A Noite dos Cristais -, aconteceu entre o dia 9 e 10 de novembro de 1938, e foi um verdadeiro massacre, recebeu este nome por causa da quantidade de cacos de vidros espalhados pelas ruas, das sinagogas, casas e comércios dos judeus que foram vandalizados. Foi um ataque realizado pelos próprios civis que eram pró nazistas e nazistas. Nesta noite, milhares de judeus foram espancados e mortos, outros presos e enviados para campos de concentração. Se tornando um marco, um ponto de ruptura na violência antijudaica.

O resultado de tamanha devastação não pode ser descrito, mas focando na família Adler, eles nunca mais foram os mesmos. Rudolf, chega a ser encontrado, está muito machucado e mesmo precisando de muitos cuidados vai ser enviado para um campo de concentração, não há nada que sua esposa possa fazer por ele, porque até mesmo visita-lo, pode significar serem presos também. Mas isso, não faz com que Rachel desista, ela segue tentando de todas as formas reunir sua família novamente, um esforço que ganha um novo obstáculo, quando a preocupação com a segurança de seu filho fica alarmante, e ela entende que é hora de dar um passo para trás e tentar protegê-lo, enquanto ainda luta pelo seu marido. No dia 10 de dezembro de 1938, Rachel e Volker, levam o pequeno Samuel a estação ferroviária para pegar um kindertransport, que o levaria para a Inglaterra, onde uma família, abrigo ou simpatizante dos judeus, ficariam com ele, até que pudessem retornar para casa.

“A imagem mais persistente do passado, que haveria de permanecer intacta na memória de Samuel Adler até a velhice, foi aquele último abraço desesperado e sua mãe, banhada em lágrimas, amparada pelo braço firme do velho coronel Volker, agitando um lenço na estação, enquanto o trem se afastava. Naquele dia acabou sua infância.”

Aqui faço o segundo parêntese histórico – O Kindertransport, foi uma operação que regatou mais ou menos DEZ mil crianças, principalmente as judias, as tirando da Alemanha e outras cidades onde o nazismo havia tomado conta, e os levando para a Grã-Bretanha, esse “transporte”, recebia ajuda de organizações judaicas, e outras entidades humanitárias. E aconteceu poucos meses antes da segunda guerra.

É aqui que começa a jornada de Samuel em sua nova vida. Você consegue imaginar como deve ter sido para uma criança de cinco, seis anos, entrar em um trem sozinha, se mudar para outro país, com outra cultura, idioma… Devastador. E os primeiros anos de Samuel foram muito dolorosos, mas ele vai conseguir sobreviver, e seguir… Eu não irei entrar em muitos detalhes, mas Samuel era tido com um prodígio da música desde pequeno, um violinista, alguém com um futuro promissor, que vai ter isso interrompido quando acontece os ataques e por consequência a fuga para a Inglaterra, ali ele será impendido de tocar, e mesmo assim mantém o amor pela música, na verdade, ele se agarra a ela como um bote salva-vidas, compondo e tocando em sua mente, sentindo as notas, mesmo incapaz de as ouvi-la. Será somente em sua adolescência que ele retornará a ter contato com a música, mas devido a longa pausa que foi obrigado a fazer, já não é mais um prodígio, e seu esforço e determinação, faz com que siga sendo muito bom. As perdas, e tudo que viveu, o moldaram, fizeram dele um adulto taciturno, sério, solitário, um homem de poucas palavras, poucos sorrisos, poucos amores, e a música sua fiel companheira. Aos vinte e cinco anos, se muda para o Estados Unidos e lá conhece Nadine, seu completo oposto, alguém tão interessante, hipnotizante, de espírito livre, que o fascina. Eles se casam, e as diferenças os atraem, na mesma medida que os separam.

 Dando um salto temporal, iremos para dezembro de 1981, onde conhecemos Letícia Cordeiro, uma jovem que mora em um vilarejo salvadorenho, chamado El Mozote, de família muito simples e sem recursos, enfrentando um problema de saúde, que com ajuda dos demais moradores daquele local, consegue duas passagens para ir até a capital no hospital, seu pai é quem vai leva-la, porque sua mãe está se recuperando do parto recente. Constatado problema, Letícia vai precisar passar por uma cirurgia, seu pai sem condições e precisando trabalhar, vai pegando carona e retorna para o vilarejo, guardando a passagem para buscar a filha quando ela tiver alta. Porém, ao chegar no que era para ser o vilarejo e sua casa, só encontra destruição, sangue e morte. Em resumo, para fugir do horror que assolam o país, os dois fazem a difícil travessia e vão para os Estados Unidos.

“Empatia é uma coisa misteriosa, não obedece a nenhuma regra conhecida, ou ocorre espontaneamente ou não ocorre em absoluto, é impossível forçar.”

E vamos para o terceiro parêntese histórico. O massacre de El Mozote, aconteceu no dia 11 de dezembro de 1981, durante a guerra civil de Ele Salvador, quando o exército salvadorenho, invadiu o povoado e executou centenas de civis, estima que os números excedem de 900 mortos, principalmente de crianças. Mulheres foram estupradas e mortas em seguida, homens e crianças torturados e executados, depois atearam fogo nas casas. Não houve misericórdia.

A história de Letícia é importante porque ela mesma é uma peça fundamental no enredo. E ajuda a compreender de maneira mais ampla as fugas, refugiados, e porque as pessoas se arriscam aos perigos de uma imigração ilegal.

Em 2019, iremos conhecer Selena Durán, uma assistente social que trabalha no Projeto Magnólia para Refugiados e Imigrantes. Ela está buscando por advogados voluntários. Existe uma grave crise humanitária na fronteira com o México, após o anuncio do governo que implementou a política de tolerância zero, ordenando a separação de famílias que chegam para pedir asilo. Milhares de crianças foram separadas dos pais, inclusive bebês lactantes. E essas crianças precisam que alguém os acompanhe e zele por suas vidas perante um juiz. Para se ter uma ideia, um assassino em série tem direito a um advogado, mas um imigrante e refugiado, não. A criança que se apresenta para um juiz sem representação legal é deportada, e as que conseguem que a defenda, quase sempre consegue asilo. Primeiramente por motivos egoístas e fúteis, Frank Angileri se voluntaria, mas ao conhecer seu primeiro caso, Anita Díaz, tudo muda.

Anita Díaz, é uma garotinha de apenas sete anos, sua mãe veio buscar asilo nos Estados Unidos, mas foram separadas devido as medidas políticas. Selena é responsável por seu caso, e Frank irá ser seu advogado, enquanto eles tentam encontrar sua mãe e as colocar juntas novamente. O que torna o caso de Anita ainda mais desafiador, é que a garotinha ficou cega após um acidente que matou sua irmã mais nova, Claudia. Como defesa, tentando fugir do medo, das inseguranças e emoções conflitantes que precisa enfrentar/processar, Anita invoca a presença da irmã, e sua anjinha da guarda, que juntas viajam para Azabahar, um reino imaginário, onde ela se refugia e encontra consolo e esperança.

“(…) Nada de chorar. Temos que ficar tranquilas. Não estamos perdidas. O vento sabe meu nome e o teu também.”

Isabel Allende entrelaça esses mundos, essas histórias, que mesmo separadas por mais de oitenta anos, se encontram, marcadas pela mesma dor, a dor da exclusão, do medo, da solidão, da apatia, da perda de identidade, do apagamento, da separação, uma dor imposta por forças políticas que ignoram o sofrimento humano, principalmente ignoram o que é ser criança. Não há romantização ou exploração da dor, o que encontramos aqui é uma ternura exasperada, que consola enquanto denúncia. Há sobriedade, fé, compaixão, sensibilidade em acolher e trazer a memória dores tão pulsantes, que ecoam até hoje.

Eu sempre quis me aventurar pelas letras da autora Isabel Allende, e por alguma razão inconsciente, também sempre procrastinei, até que surgiu a oportunidade de estar lendo O VENTO SABE MEU NOME, e confesso… não o li de primeira, quando o peguei em mãos, li dois capítulos e não retomei a leitura e toda vez que pensava sobre ele, o ignorava… Até que passado “pasmem” um ano desde meu primeiro contato com o livro, eu decidi que precisava ler de uma vez, e parar de ser assombrada por ele. E foi exatamente isso que fiz, eu sentei e li. E foi SENSACIONAL, uma experiencia tão humana, dolorosa e palpável, crua e real, que simplesmente senti cada emoção e tive a certeza de que sim, algumas leituras precisam acontecer no momento certo nas nossas vidas.

Samuel e Anita, assim como todos os personagens desta história seguirão comigo para sempre. Porque SENTI suas histórias, senti o nó na garganta ao perceber que Isabel Allende descrevia não apenas o abandono físico, mas o emocional, sobre o nazismo e as políticas migratórias atuais. Um lembrete doloroso de que o horror nunca desaparece, apenas muda de farda.

É importante dizer que não temos aqui grandes reviravoltas, ou surpresas, infelizmente tudo acaba se revelando óbvio, porque temos ciência de como o mundo funciona. Mas a verdadeira beleza está em termos uma história de pequenos gestos, pequenas bondades, detalhes que ainda oferecem esperança e devolvem um pouquinho de dignidade a humanidade.

Amei, amei e amei. Isabel Allende escreve como alguém que acredita no poder das palavras, que enxerga a literatura como uma voz que lembra, protege e acolhe. Que neste livro mais do que escrever sobre o exílio, escreveu contra o esquecimento. E reforçou o quanto sozinho não somos nada, mas que juntos temos o poder e de transformar, curar e ajudar muitas vidas. Tenhamos sempre em mente, que o AMOR também é uma forma de resistência, e talvez a forma mais poderosa.

Deixo aqui uma menção honrosa ao fato da autora passar uma parte da história ao longo da pandemia, voltar para esses anos foi sufocante, mas também é importante o registro e o lembrete. Deixo aqui minha FORTE recomendação de leitura.

  • El Viento Conoce Mi Nombre
  • Autor: Isabel Allende
  • Tradução: Ivone Benedetti
  • Ano: 2023
  • Editora: Bertrand Brasil
  • Páginas: 224
  • Amazon

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