A memória, a história, tradição e a cultura dos povos indígenas originários do Brasil não foram passados através da escrita. Na verdade era comum a arte da oralidade: o pai contava para o filho que ouviu do seu avô. Assim gerações de famílias cultivavam as histórias de seus ancestrais que remontam inúmeras gerações. Mas com a ajuda do grupo editorial da Companhia das Letras, há finalmente um livro de memórias que registra inúmeras histórias de ancestrais contada por um dos maiores líderes indígenas do Brasil: Ropni Mẽtyktire, mais conhecido como Raoni, apelido dado pelos estrangeiros brancos (kube).

Raoni nasceu, ao que se sabe, por volta da década de 1930, em meio a conflitos entre etnias indígenas próximas em um país onde demarcações de terras indígenas ou políticas pela preservação e respeito às diversidades étnicas não eram apreciadas e muito menos eram uma política nacional efetiva. Enquanto grupos indígenas lutavam entre si mesmo sendo irmãos, a invasão de garimpeiros ilegais se expandia até o conflito se tornar em grandes proporções.
Vou começar contando algumas histórias dos nossos antigos. Meu bisavô Katàpjangri conhecia todas elas, que ouviu do seu avô. Quando meu pai nasceu e foi crescendo, Katàpjangri as contou para ele, que depois contou para mim, e assim essas histórias chegarão até vocês.
É aqui que Raoni surge como um líder indígena de sua etnia, lutando à favor da união pela paz entre os povos originários e do fim da violências dos kube (brancos) contra eles além das demarcações de terras indígenas.
Ao longo do livro, Raoni narra não só a história de suas lutas mas também a de seus antepassados, a tradição dada pela oralidade de seu tempo. Além disso, acompanhamos a transformação de Raoni quanto pajé e todas as suas comunicações com espíritos e o significado do papel de um pajé para sua comunidade. De uma forma dinâmica e fluída o livro conta de forma escrita como em um romance: diálogos diretos, narração construtiva e fluída. Mas aqui não vemos fantasia: vemos a tradição de um povo originário brasileiro que agora está eternizando por palavras escritas e em comum acesso à todos os brasileiros.

No entanto o livro não foi escrito pelo próprio Raoni. Na verdade Raoni não sabe ler e nem escrever em português apesar de saber se comunicar oralmente. Portanto houve a participação de seus familiares sucessores que trouxeram a oralidade de Raoni na forma escrita.
A edição acompanha também um glossário dando a definição de cada palavra e termo da língua nativa de Raoni. É acompanhado também de uma cronologia dos eventos acontecidos desde antes do processo de colonização até os dias atuais. Nas últimas páginas temos mapas das regiões que hoje são as reservas indígenas já demarcadas e outras regiões onde Raoni até agora continua a lutar por suas demarcações.
Luto para defender as terras onde sempre vivemos.
Memórias do Cacique é o mais novo lançamento da editora que promete eternizar memórias vividas por gerações. Essa é uma grande oportunidade para nós, os brancos, ou os já ditos ocidentalizados pela cultura predominantemente europeia a entender o lado dos povos originários que querendo ou não são nossos vizinhos, nossos parentes e também ancestrais devido a todo um contexto de violência que agora precisamos reparar.

- Memórias do Cacique
- Autor: Raoni Mẽtyktire
- Tradução: -
- Ano: 2025
- Editora: Companhi das Letras
- Páginas: 296
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