Hazel Hart é, ou melhor, foi, uma autora de muito sucesso, respeitada, aclamada e muito querida por seu público, capaz de encontrar inspiração no simples e em qualquer lugar, pelo menos até tudo desmoronar e sua vida virar de cabeça para baixo, a colocando em uma crise criativa que parece não ter prazo de validade. O mesmo não se aplica ao prazo de seu último contrato, que já venceu, foi adiado, e está vencendo outra vez… o desespero já tomou conta, o divorcio conturbado, a jogou em uma espiral de culpa, desorganização e medo, até seu apartamento virou um problema, ela precisa contornar todos esses obstáculos, recobrar a confiança, reconstruir sua escrita e a si mesma.

Falando assim, até parece que Hazel está planejando algo, mas não, é no meio do caos, e de maneira abrupta e impulsiva, que ela compra uma casa histórica em Story Lake, uma casa que ela só viu por um anuncio na internet, em uma cidade minúscula e cheia de personalidade.
Obviamente, que o que parecia fora de controle, vai ficar ainda pior… a charmosa casa do anuncio está caindo aos pedaços, precisando de reforma urgente, os moradores que pareciam uma comunidade acolhedora e feliz… na verdade se revelam teimosos e rancorosos, para piorar a situação a cidade está enfrentando uma crise econômica, e arranjar material e mão de obra é limitado, o que a deixa à mercê dos Bishop, mais precisamente do Campbell Bishop, um construtor irritadiço, porém habilidoso, que parece preferir uma doença contagiosa por perto a presença dela.
“Hazel Hart tornava impossível não gostar dela. Acredite em mim: eu tentava o tempo todo.”
Entre idas e vindas um cenário se constrói, os opostos que de alguma forma se atraem, ela toda vibrante e caótica, a protagonista que depois de amargar seu romance da vida real se esvair, se torna insegura e reticente. Ele todo taciturno e controlado, que parece assombrado pelo passado, cheio de muros e distanciamento. A cidade pequena que vibra em ritmo próprio, presa em seu ecossistema de fofocas, teimosia e palhaçadas. Ou seja, poderia ser o típico romance clichê de cidade pequena, que aquece o coração e nos deixa suspirando… se não fosse pela culpa dos excessos.
Caros, leitores! Eu sou uma defensora dos romances água com açúcar, clichês, de puro entretenimento, que deixam um quentinho no coração… Mas, eu também acredito que eles precisam ter coerência e serem bem desenvolvidos. E dito isto, já adianto que A História da Minha Vida, não é de um todo ruim, ela só peca pelo exagero, tudo sobre a cidade pequena é caricato e falo isso com propriedade, porque sou moradora de cidade pequena, e em nada ela se aproxima do que é espelhado aqui, as palhaçadas, a “comunidade” de modo geral, as leis ou falta delas, os trabalhadores, o meio social… enfim, até a questão econômica que poderia ser um artificio para trazer profundidade acaba sendo usado superficialmente com uma reviravolta pouco convincente. Mas principalmente o romance.

Começamos com o clássico falta de diálogo útil, e excesso de coisinhas bobinhas, os mal entendidos que poderiam ser evitados, os personagens que são adultos, que deveriam ser maduros, que já tiveram relacionamentos anteriores, se comportando como adolescentes, tanto na postura, ações e falas, e do nada o hot, muito hot que não condiz… sério, se a história se passasse em um ambiente adolescente escolar, faria mais sentido e aí tem um excesso de hot que fica solto, é quase desnecessário, e eu gosto de hot, mas precisa caber na história e aqui em muitos momentos, é só a pegação, pela pegação.
Temos também o problema do queremos ficar juntos, mas não vamos abrir o coração, não vamos nos entregar, vamos resistir bravamente até a última página… Amamos isso? Sim, mas precisa vir acompanhado de desenvolvimento, o alívio cômico precisa estar alinhado com o peso dramático, mesmo que queiramos fugir da realidade, que busquemos pela diversão, a linha tênue que cria identificação, e passe verdade, precisa funcionar, se não fica superficial e esquecível.
Dito tudo isto, preciso dizer que SIM, eu ainda recomendo a leitura, principalmente se você estiver em busca de distração, leitura rápida, simples. O enredo é dividido em dual POV, o que nos permite ter o melhor dos dois mundos, ou seja, ambos os protagonistas tem espaço, e podemos conhecer um pouquinho mais de suas rotinas, da convivência que eles têm com as pessoas a sua volta. Outro ponto positivo e interessante, é vê-los não pelo que são no começo, mas o que se tornam no decorrer da obra, Hazel entendendo que escrever não é somente sobre se inspirar nas coisas boas, e bonitas, mas sobre o que se sente, o que se sonha, o que de alguma forma te toca – pessoas, lugares, emoções, expectativas e até mesmo as frustrações. Cam, enxergando que amar, se relacionar, é no fim uma grande construção/reforma, precisa de paciência, suor, sujeira e muito trabalho duro, mas a recompensa faz tudo valer a pena.
Enfim, para você leitor que está disposto a olhar para além do verniz, que busca por um humor mais ácido, com cenas muito divertidas e até vergonha alheia, com momentos doces e outros vulneráveis, com opostos que se atraem e muito enemies, eis aqui uma boa opção de leitura. Porque talvez, no final das contas, a leitura perfeita também seja sobre se permitir amar a história enquanto mora nela por algumas horas.

- Story Of My Life
- Autor: Lucy Score
- Tradução: Guilherme Miranda
- Ano: 2025
- Editora: Bloom Brasil
- Páginas: 440
- Amazon


