Irei começar essa resenha dizendo que este livro foi uma das minhas melhores leituras de 2025, mas também, uma das mais doloridas. Eu pensava que conhecia a história de Medusa, ou pelo menos, tinha um parâmetro geral, quase superficial do que era sua história, caindo na “ideia” de enxergá-la apenas como o monstro de cabelos de cobra, aquela que petrificava a todos em que pusesse o olhar… ledo engando.
Medusa vai muito além, e este livro traz uma roupagem, uma maneira de recontar este mito clássico, que o desmonta e remonta com muito cuidado narrativo, se atentando a essência, ao mesmo passo que “humaniza” a mulher que veste o peso de ser tida como vilã, mas que na verdade foi mais uma vítima dos deuses.

“— Ou fujo agora e vivo o resto de meus dias com medo do fim que me foi prometido, com medo da felicidade, ou vou com vocês e procuro a felicidade eu mesma, e saúdo minha morte de frente.”
Medusa, nasceu mortal em uma família de deuses, filha do deus do mar e da deusa dos perigos do mar, é uma das górgonas, muitas vezes tratada com desprezo, e aversão, por não ser vista como uma igual. O peso de pertencer a sua própria família, faz com que carregue em si uma inquietação, um vazio, a sensação de que falta algo, mas por viver em uma ilha isolada apenas com suas duas irmãs – Esteno e Euríale -, limita sua visão sobre o mundo, sobre si, e as possibilidades de buscar por algo que nem ela mesma sabe do que se tratar. Até que ela recebe uma profecia das Greias, algo ruim, mas nem perto do que ainda estaria por vir.
Fato é, que em algum momento para a própria segurança das filhas, Ceto, recomenda que elas saiam da ilha em que vivem isoladas, e partam para uma ilha com mortais, e elas fazem isso, é durante essa viagem e busca por um novo lugar para morarem, que Medusa se torna sacerdotisa de Atena, ela acredita ter encontrado um propósito, e assim se separa de suas irmãs e aceita essa nova página em sua vida. E é ali no templo da deusa, que Medusa passa a descobrir mais sobre sua própria aparência tomando ciência do quanto é bonita, e o que sua beleza é capaz de conquistar. Porém, é ali também que ela vive um grande pesadelo, Medusa que julgava ter um tipo de amizade com Poseidon, acaba violentada por ele dentro do templo de Atena.
“— As pessoas vão olhar para você uma vez e saber que a deusa delas ainda deve ser temida. Certa vez te alertei sobre sua beleza — disse ela. — Você a vivenciou como uma bênção; agora vai conhecer a maldição em toda sua apavorante glória.”
Sua dor é ignorada, sua suplica não é ouvida, Medusa se vê sendo castigada, por algo que ela foi vítima, julgada e condenada, transformada em uma criatura, uma ameaça, uma vilã. Enquanto que os deuses, especialmente esses que a colocaram no meio de suas rixas, picuinhas e egoísmo, seguem impunes e intocados, nem se quer mencionados como algozes.
E aí você pensa, essa é a cena mais dolorida? E a resposta é um grande NÃO. Mas, este é um ponto de virada na história, de ruptura, jogando nossa protagonista agora ao exílio. Medusa não pode ser vista, não pode olhar para as pessoas sem que as transforme em pedra, jogada para longe do mundo humano, e um perigo até mesmo para os deuses, Medusa se torna uma viajante, seu nome se torna sinônimo de terror, mais do que sobreviver, ela precisa reaprender a viver em um corpo que ela não reconhece mais, acompanhada de suas cobras. Medusa passa a lutar não somente com o mundo externo, mas com si mesma, contra o sentimento de culpa, aversão ao mar que sempre lhe foi tão natural, amargando uma solidão latente.

Contudo, renasce como uma mulher não mais mortal, mas ferida, muitas vezes amarga, irônica, protetora com quem ama e profundamente humana. E em seu caminho em busca de si, e sentido a sua nova forma, ela se depara com improváveis amigos e até um amor, onde cada interação traz à tona a cura para um pequeno fragmento seu que foi quebrado. E lembra que mencionei que ainda teríamos mais por vir? A segunda profecia que as Greias lançam contra Medusa, é ainda mais implacável, e soa como um tique taque constante, um lembrete, uma contagem regressiva silenciosa que paira constantemente, afinal de contas, sabemos como a lenda mitológica termina e é isso que torna tudo ainda mais doloroso.
Medusa, no fundo, é uma narrativa sobre nós mulheres, sobre quem somos e como carregamos nossas marcas. É a história de uma identidade ferida, de uma culpa que não escolhemos e de uma luta pela sobrevivência. Fala de um corpo que vira prisão, da violência que nos obriga a nos reinventar, e de como a sociedade tantas vezes prefere castigar as vítimas em vez de encarar seus verdadeiros culpados. É uma leitura que conversa com dilemas muito atuais, sem perder a força simbólica que o mito sempre carregou.
“— Ser um monstro — ela continuou — não te impede de ser uma mulher. Na verdade, acho que uma parte essencial de ser mulher é descobrir aquela parte de você que os outros veriam como monstruosa; encontrá-la e cultivá-la de modo que não tome conta de quem você é. Se você a ignorar ou tentar escondê-la, é aí que as outras pessoas vão conseguir virá-la contra você.”
Que baita leitura, que história intensa, palpável e real. Medusa é sensível, brutalmente honesto, com um ritmo cadenciado, mais introspectivo e pulsante. Por isso, se você espera se deparar com batalhas e reviravoltas a cada capítulo pode acabar estranhando um pouquinho, o foco aqui é emocional, é mergulhar dentro da mente de uma protagonista que vê sua verdadeira tragédia, não em ser transformada em monstro, mas em ser tratada como um, quando nunca escolheu esse destino. Não é uma leitura confortável, e não deveria ser mesmo, estamos falando de uma mulher que sofre um abuso sexual, e violências emocionais por onde passa. Mas também é sobre força, coragem de existir mesmo quando tudo conspira para que você desapareça e olhar para o espelho e se encarar, ainda que exista um risco deste ato te transformar em pedra.
Nataly Gruender não se limita a criar apenas uma fantasia. O que ela constrói aqui é uma reflexão sobre o poder das histórias: como elas podem inventar monstros e, ao mesmo tempo, revelar que muitos desses monstros são apenas pessoas silenciadas, que ninguém se dispôs a ouvir. Que ainda exista tempo para o mundo aprender com seus erros, e vermos uma geração que escolha acolher, amar e cuidar ao invés de destruir.

- Medusa
- Autor: Nataly Gruender
- Tradução: Flávia Souto Maior
- Ano: 2025
- Editora: Trama
- Páginas: 352
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