Há filósofos que escrevem tratados. Byung-Chul Han, cada vez mais, profere conferências, e é justamente desse gesto de fala, de voz ao vivo, que nasce A Tonalidade do Pensamento. Em abril de 2023, o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha esteve pela primeira vez em Portugal, onde apresentou duas palestras, no Porto e em Lisboa; dias depois, realizou também pela primeira vez uma conferência musical em Leipzig. Desse tríptico de aparições públicas nasce o livro, como primeiro volume de uma anunciada trilogia de conferências. O título do volume vem justamente da conferência de Leipzig, que empresta seu nome ao conjunto e dá o tom para tudo o que se lê a seguir.

Byung-Chul Han (Seul, 1959) é filósofo, ensaísta e professor na Universidade das Artes de Berlim, autor da obra de sucesso Sociedade do Cansaço. Antes de entrar nos três textos, vale parar num ponto: por que ler Han hoje? Poucos filósofos contemporâneos conseguiram traduzir o mal-estar civilizatório do século XXI em fórmulas tão econômicas quanto as suas. Desde Sociedade do Cansaço, Han vem construindo uma obra que funciona quase como uma cartografia dos sintomas do presente, o excesso de positividade, a transparência coercitiva, o esvaziamento do ritual, a extinção do outro sob a “infernal mesmice” do narcisismo contemporâneo. Livros como A Sociedade da Transparência, Psicopolítica, Não-Coisas e Infocracia funcionam como peças de um mesmo diagnóstico: o sujeito neoliberal, que se acredita livre, na verdade se autoexplora sob a forma de um desempenho sem fim.
O que diferencia A Tonalidade do Pensamento dentro dessa obra é o registro. Aqui não há o rigor sistemático dos ensaios teóricos, mas a cadência da fala pública, mais aberta, mais pessoal, entremeada de referências à música, à pintura, à própria biografia do autor. É um Han mais próximo do ensaísmo lírico do que da filosofia acadêmica, o que torna o livro um ponto de entrada especialmente generoso para quem ainda não frequentou sua obra, sem abrir mão da densidade conceitual que fez dele um dos pensadores mais lidos da atualidade.
“A Tonalidade do Pensamento” (Leipzig)
O texto-título nasce de uma conferência atípica: acompanhada da interpretação ao piano de peças favoritas do autor, ela expõe os tons e temas que atravessam toda a sua filosofia através da música. Han aproxima pensamento e composição musical, sugerindo que filosofar tem uma tonalidade própria, um timbre, um ritmo, uma afinação, assim como uma peça musical. A linguagem, nessa conferência, deixa de ser apenas veículo de conceitos para se tornar ela mesma objeto de escuta. É um texto que dialoga com sua formação teológica e com sua leitura de Heidegger, não por acaso Han já havia se debruçado sobre o conceito heideggeriano de tonalidade afetiva em trabalhos anteriores, mas que aqui ganha uma inflexão estética, quase confessional.
“A Sociedade do desempenho, dominada pelo verbo poder, e na qual tudo é iniciativa e projeto, não pode acessar o amor na qualidade de ferida e paixão.”
“Sobre Eros” (Porto)
A segunda conferência retoma um tema caro ao autor desde A Agonia do Eros: o amor como experiência do outro enquanto outro, irredutível ao mesmo. Han interroga o sentido do amor numa sociedade em que o outro se dissolve por falta de contato físico e de presença real, uma sociedade que ele já havia descrito como “inferno do igual”, onde o desejo erótico é substituído pelo consumo de si mesmo sob disfarce de alteridade. Nessa palestra o argumento ganha uma formulação mais direta e oral: o amor exige a coragem da autonegação, o risco de se perder no outro, algo que a lógica narcísica e produtivista do presente torna cada vez mais difícil de sustentar.
“Sobre a Esperança” (Lisboa)
A terceira conferência é talvez a mais surpreendente do volume, porque desloca Han do registro mais pessimista com que costuma ser lido. Aqui ele distingue esperança de otimismo: o otimista, diz Han, é alguém parado, que nunca questiona as estruturas que o determinam e por isso não age, pois toda ação implica risco, e o otimista não quer arriscar. A esperança, ao contrário, é o fermento da ação e da revolução: ela permite escapar do tempo fechado, do futuro já decidido, abrindo espaço para o inesperado e o incalculável. Han associa a esperança à transcendência, à fé e à capacidade de celebração, e nota que vivemos numa época sem festa, portanto também sem esperança, tomados inteiramente pelo tempo do trabalho.
Lidos em sequência, os três textos formam uma espécie de tríptico afetivo: som, amor e futuro, ou, dito de outro modo, como se ouve, como se ama e como se espera num tempo que Han diagnostica, em toda a sua obra, como esvaziado de ritual, de alteridade e de transcendência. A conferência sobre a música é a mais rarefeita das três, mais sugestiva do que argumentativa, e funciona quase como um prelúdio tonal para os outros dois textos, vale como convite à sensibilidade antes de qualquer tese. Já “Sobre Eros” retoma, em chave mais direta e menos sistemática, o argumento de A Agonia do Eros, e ganha nessa oralidade uma urgência que talvez falte ao livro original. É em “Sobre a Esperança”, porém, que o volume surpreende mais: ao separar esperança de otimismo e de pessimismo, ambos presos a um tempo fechado, Han escapa da acusação recorrente de que seu pensamento seria apenas diagnóstico do declínio, sem saída. Aqui há, pela primeira vez de forma tão explícita, um gesto propositivo.
Fica, ao fechar o livro, uma questão que talvez seja o próprio convite do volume: se o pensamento tem mesmo uma tonalidade, que tom é esse que estamos, hoje, deixando de escutar? A edição ainda oferece códigos QR de acesso às gravações originais das conferências, um detalhe que reforça a ideia de que este é, antes de tudo, um livro para ser ouvido, não apenas lido.

- La Tonalidade del pensamento
- Autor: Byung-Chul Han
- Tradução: Paulo M. Verussa
- Ano: 2026
- Editora: Crítica
- Páginas: 142
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