Se prepare para chorar, mais uma vez, com Isabel Allende. A melhor escritora da atualidade, que navega por diferentes estilos literários, mas sempre mantém sua tônica de emocionar.

Seus relatos são penetrantes, entram em nossa mente de uma maneira única, despertando lembranças — e às vezes gatilhos — contando a história de suas personagens misturando-as com acontecimentos reais, mostrando como tudo pode se encontrar e refletir na formação de nossas características psicológicas.

Em Retrato em Sépia, será a vez de acompanharmos a vida de Aurora Del Valle, que irá relembrar tudo que viveu, ou pelo menos o que lembra deles, já que por algum motivo, cinco anos de sua infância foram apagados.

A mãe de Aurora morreu no parto e isso já seria o bastante para ter sua vida completamente modificada, mas seu pai também a abandona, simplesmente sumindo após seu nascimento. Caberá aos avós maternos a sua criação, na San Francisco do final dos anos 1800.

Neste ponto já temos muito sobre a história da Califórnia da época, mostrando seus imigrantes, já que o avô de Aurora é Chinês. Mas ele também morrerá e por algum motivo — evitando spoilers — ela acaba parando no Chile, distante de tudo que já tinha vivido, em uma nova família, com uma dinâmica de vida quase que oposta a que estava acostumada.

Aurora partirá em busca de respostas para sua vida, para tudo pelo que passou, tentando preencher lacunas na sua mente. Porém, as vezes, cutucar coisas escondidas de nossa família pode provocar mais dor que libertação e alguns detalhes do nosso passado seria melhor deixar aonde eles estavam.

O livro é muito bom, como disse antes, a narrativa de Allende é impactante, emociona, conseguimos sentir todo sofrimento que aquelas lembranças carregam, tendo a clara noção de como suas personagens foram afetadas por aqueles acontecimentos e como ainda é doloroso relembra-los, mesmo depois de tanto tempo.

Saber os detalhes sobre o passado do mundo, principalmente de uma cidade que eu tanto gosto, como San Francisco, torna a leitura praticamente um estudo sobre o lugar, fazendo que entendamos o motivo de aquela região estar neste ponto de sociedade mais de um século depois.

Porém, sempre existe um porém, achei um pouco mais do mesmo. Entendo perfeitamente que este é o estilo de escrita da autora, que sua fama foi conquistada através das personagens femininas fortes, com histórias dolorosas, cheias de perdas e carregadas de emoção, um imenso drama, que nos emociona sempre. Mas acaba ficando repetitivo.

Não sei se foi o momento em que fiz a leitura, que não era o melhor possível mentalmente, ou se realmente ele acaba sendo mais fraco do que outras obras suas como “Paula” ou “Meu Nome é Emilia Del Valle” que são muito superiores, este último livro inclusive forma praticamente uma série sobre a família, que mesmo não tendo muita ligação acaba ficando clara a intenção de contar uma saga familiar.

A narrativa, em alguns momentos, pareceu um pouco cansativa para mim, algumas partes que ganham ênfase na trama talvez não a merecessem, deixando tudo mais arrastado, não gerando a conexão que estamos acostumados nos livros da escritora.

Talvez esta tenha sido minha pior experiência com Allende, e isso não significa que a obra seja ruim, pelo contrário, é boa e merece sua leitura, mas os outros livros dela foram muito superiores para mim. Eu quase sempre favorito os livros de Isabel e penso em relê-los em muitos momentos, mas este certamente não está no mesmo patamar que os demais, sendo um daqueles que será esquecido rapidamente.

  • Retrato En Sepia
  • Autor: Isabel Allende
  • Tradução: Mario Pontes
  • Ano: 2025
  • Editora: Bertrand Brasil
  • Páginas: 353
  • Amazon

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