Cidade de Jade, por Fonda Lee

08 jun, 2026 Por Mariana Iazzetti

Cidade de Jade é a fantasia perfeita para amantes de ficção histórica e drama familiar. Digo isso sem medo, porque esse é o típico caso de história que li absolutamente admirada da inventividade da autora, mas, ao mesmo tempo, desdobrando meu cérebro para entender as referências e paralelos históricos que estavam claramente saltando das páginas.

Aqui acompanhamos os membros da família Kaul, os líderes do clã Desponta, conforme uma guerra contra seus maiores rivais, o clã Montanha, se desenha e cresce nas ruas de Kekon. A cidade, capital de Janloon, tem suas ruas tomadas pelo conflito entre Ossos Verdes (guerreiros usuários da poderosa substância jade, cuja única fonte natural do mundo é Janloon), enquanto os irmãos Shae, Kilo e Lan são obrigados a questionar até que ponto se sacrificariam em nome do clã.

Praticamente minha única ressalva com Cidade de Jade é que Fonda Lee peca na escrita excessivamente rígida, descritiva e, por vezes, quadrada. Nenhum raciocínio fica oculto, e diálogos de poucas falas se estendem por páginas ao serem intercalados com longos parágrafos de estratégia. Entendo que esse estilo se encaixa com a rigidez do próprio mundo que foi criado, mas realmente desejei ter mais espaço para interpretação dos acontecimentos enquanto leitora.

Dito isso, não tem como não se perder dentro dos conflitos políticos, reviravoltas e planejamentos estratégicos. A mente da autora cria um emaranhado maravilhosamente complexo, que é tão divertido de tentar desvendar quanto um jogo de poder com infinitas peças pode ser. E muito embora sejamos mantidos a muitos metros de distância dos protagonistas por uma escrita pouquíssimo calorosa, os irmãos Kaul ainda são fascinantes de acompanhar.

E se você ama alguém, realmente ama, a felicidade da pessoa não deveria importar até mais que a sua honra?

Fonda não tem qualquer receio de criar situações difíceis, de colocar os personagens para tomar decisões impossíveis e errarem. Todos são falhos e têm seus próprios múltiplos interesses, o que torna os debates sobre poder e sacríficio muito interessantes.

Correndo o risco de fazer o livro parecer entediante (mas prometo que não é), ler Cidade de Jade é como se sentir dentro da mente de líderes políticos. Batalhas, por mais que doam num nível pessoal, necessariamente se tornam números e tática; golpes políticos são ataques contra a família, e perder só é uma opção se for acompanhado de planos de contingência. Por mais que você se envolva com os personagens, esse conflito não é sobre as pessoas que o estão travando, mas sim sobre os poderosos que o provocam e administram.

Tenho certeza de que não é um livro para todo mundo – fiquei inclusive surpresa com o quanto funcionou para mim. Os acontecimentos são um pouco arrastados, e acho que a melhor forma de explicar o que a autora tentou fazer aqui é que os grandes momentos não são as batalhas em si, mas as reuniões que discutem as batalhas e suas implicações.

O papel da magia, embora seja um livro de fantasia, é extremamente contido dentro da trama: jade é mágico, e tem toda uma mitologia e religião por trás (fascinante, inclusive), mas a forma como a narrativa o trabalha é pragmática, pautada em conflitos econômicos, militares e políticos. A substância traz uma camada de perigo aos conflitos diretos, mas fora desses contextos ela facilmente pode ser enxergada como qualquer produto extrativista que tenha causado guerras no mundo real.

Cidade de Jade é uma leitura que foca em provocar a mente ao invés do coração dos leitores. O livro exige atenção e atende a um público, acredito eu, bastante específico. Mas se você se interessa pelas temáticas que mencionei e gosta de uma história mais intrincada com certeza vale a pena dar uma chance.

  • Jade City
  • Autor: Fonda Lee
  • Tradução: João Pedroso
  • Ano: 2024
  • Editora: Alta Novel
  • Páginas: 480
  • Amazon

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