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A Rainha – Kiera Cass


(Confira aqui os 3 capitulos liberados por Kiera Cass no dia 15 de agosto através do site MoreSeletion)
CAPÍTULO 1
Só fazia duas semanas que estava ali, e aquela já era a minha quarta dor de cabeça. Como eu explicaria uma coisa dessas para o príncipe? Como se já não fosse ruim o bastante que quase toda garota que ainda estava ali era uma Dois. Como se as minhas criadas já não estivessem se matando para melhorar as minhas mãos ressecadas. Alguma hora eu teria que falar para ele que eu tinha ataques de enjoo que chegavam sem avisos. Bom, se ele me notasse. 
Rainha Abby se sentou no lado oposto do Salão das Mulheres, quase como se ela estivesse se separando das garotas de propósito. Pelo pequeno arrepio que pareceu passar pelos seus ombros, eu percebi que se dependesse dela, nós não estaríamos ali.
Ela esticou a sua mão para uma criada, que lixou suas unhas à perfeição. Mas até quando ela estava sendo mimada, a rainha parecia estar irritada. Eu não conseguia entender, mas eu tentava não julgar. Talvez um canto do meu coração estaria endurecido também se eu tivesse perdido um marido tão nova. Era sorte que Porter Schreave, o primo de seu falecido marido, tê-la aceitado e deixado que ficasse com a coroa.
Eu passei os olhos pelo salão, olhando para as outras meninas. Gillian era uma Quatro como eu, mas uma melhor. Os pais dela eram ambos chefes e, baseado na sua descrição sobre nossos pratos ali, eu pude sentir que ela seguiria seus passos. Leigh e Madison estavam estudando para se tornarem veterinárias e visitavam os estábulos sempre que podiam.
Eu sabia que Nova era uma atriz e tinha uma multidão de fãs que a queriam no trono. Uma era uma ginasta e seu corpo petit era gracioso, até quando estava parado. Várias das Dois ali ainda não tinham escolhido uma profissão. Acho que se alguém pagasse as minhas contas, me alimenta-se e mantivesse um teto sobre a minha cabeça, eu não me preocuparia com isso também.
Esfreguei minhas têmporas doloridas e senti minha pele ressecadas e meus calos passando pela minha testa. Parei e olhei para as minhas mãos maltratadas.
Ele nunca iria me querer.
Fechando meus olhos, eu imaginei a primeira vez em que tinha conhecido Príncipe Clarkson. Podia me lembrar da sensação da sua mão forte quando ele apertou a minha. Graças a Deus minhas criadas tinham encontrado um par de luvas de renda para eu usar, ou teria sido eliminada naquela hora. Ele era calmo, educado e inteligente. Tudo que um príncipe deveria ser.
Eu tinha notado nas últimas duas semanas que ele não sorria muito. Era como se ele tivesse medo de ser julgado por achar alguma coisa engraçada. Mas, meu Deus, como os seus olhos brilhavam quando ele cedia! Seu cabelo loiro escuro, os olhos azuis claros, o jeito que ele se portava com tal força…ele era perfeito.
Infelizmente, eu não era. Mas tinha que ter algum jeito de fazer com que o Príncipe Clarkson me notasse.
Querida Adele,
Eu segurei a caneta no ar por um minuto, sabendo que seria inútil. Mas mesmo assim. Estou me estabelecendo muito bem no castelo. É lindo. É grande e melhor do que lindo, mas eu não sei se conseguiria encontrar as palavras certas para descrevê-lo. O calor de Angeles é diferente do de casa também, mas eu tão pouco sei como te explicar direito. Não seria maravilhoso se você pudesse vir sentir, ver e cheirar tudo você mesma? E, sim, tem vários aromas para cheirar.
Quanto à competição, eu ainda não passei nem um segundo sozinha com o príncipe. Minha cabeça latejou. Fechei meus olhos, respirando devagar. Eu me ordenei a me concentrar.
Eu tenho certeza de que você já viu na TV que o Príncipe Clarkson já eliminou oito garotas, todas elas Quatros e Cincos e aquela Seis. Ainda tem outras duas Quatro aqui, e algumas Três. Eu me pergunto se esperam que ele escolha uma Dois. Acho que faria sentido, mas é decepcionante para mim.
Você poderia me fazer um favor? Tem como você perguntar para mamãe e papai se talvez tenha algum primo ou outra pessoa na nossa família que é de uma casta maior? Eu deveria ter perguntado antes de sair.
Acho que seria uma informação bem útil.
Eu estava começando a sentir o enjoo que vinha às vezes com a dor de cabeça.
Eu preciso ir. Muita coisa acontecendo. Eu mando outra carta logo.
Te amo para sempre,
Amberly
Eu sentia como se fosse desmaiar. Dobrei minha carta e a coloquei dentro do envelope já endereçado. Esfreguei minhas têmporas de novo, esperando que só aquele pouco de pressão fosse me dar algum alívio, apesar de que nunca funcionava.
“Está tudo bem, Amberly?” Danica perguntou.
“Oh, sim,” eu menti. “Provavelmente só um pouco cansada ou algo assim. Acho que vou dar uma caminhada. Tentar fazer meu sangue fluir e tudo o mais.”
Eu sorri para Danice e Madeline e saí do Salão das Mulheres, seguindo meu caminho em direção ao banheiro. Um pouco de água gelada em meu rosto estragaria a minha maquiagem, mas poderia fazer eu me sentir melhor. Antes que eu pudesse chegar lá, eu senti uma tontura tomando conta de mim de novo. Eu me sentei em um daqueles sofás que sempre tinham nos corredores e apoiei minha cabeça na parede, tentando clarear a mente.
Aquilo não fazia nenhum sentido. Todo mundo sabia que o ar e a água no sul de Illéa era ruim. Até os Dois lá às vezes tinham problemas de saúde. Mas isso, – sair de lá para entrar no ar limpo, com comida boa e ter os cuidados impecáveis do palácio – isso não deveria estar me ajudando?
Eu perderia todas as oportunidades de impressionar o Príncipe Clarkson, se eu não conseguisse acompanhar. E se eu não fosse ao jogo de croquet nessa tarde? Eu podia sentir meus sonhos vazando pelos meus dedos. Daria na mesma se eu simplesmente aceitasse a minha derrota naquela hora. Talvez doesse menos mais tarde.
“O que você está fazendo?”
Eu me afastei com tudo da parede para encontrar Príncipe Clarkson olhando para mim.
“Nada, Alteza.”
“Você está se sentindo mal?”
“Não, claro que não,” eu insisti, me fazendo levantar. Mas tinha sido um erro. Minhas pernas fraquejaram e eu caí no chão.
“Senhorita?” Ele perguntou, chegando do meu lado.
“Me desculpe,” eu sussurrei. “Isso é vergonhoso.”
Ele me pegou nos braços. “Feche seus olhos se estiver tonta. Nós vamos para a Ala Hospitalar.”
Que história engraçada essa seria para os meus filhos: o rei já tinha me carregado pelo palácio como se eu não pesasse nada. Eu gostava de estar ali, nos braços dele. Eu sempre tinha me perguntado como seria.
“Ai, meu deus,” alguém soltou. Eu abri meus olhos para ver uma enfermeira.
“Eu acho que ela está exausta ou algo assim,” Clarkson disse. “Ela não parece ter se machucado.”
“Coloque-a aqui, por favor, Vossa Alteza.”
Príncipe Clarkson me colocou em uma das camas ali, cuidadosamente deslizando seus braços para longe de mim. Eu rezava para ele conseguir ver a gratitude em meus olhos. Achei que ele fosse ir embora imediatamente, mas ele ficou ali de pé enquanto a enfermeira checava meu pulso. 
“Você comeu hoje, querida? Bebeu bastante líquido?”
“Nós acabamos de tomar café da manhã,” ele respondeu por mim.
“Você está se sentindo enjoada?”
“Não. Bom, sim. Quer dizer, isso não é nada.” 
Eu estava esperando que, se eu conseguisse convencer de que não era nada, eu ainda poderia ir ao jogo de croquet mais tarde.
Ela fez uma careta, tão severa quanto doce. 
“Pelo contrário, você teve que ser carregada até aqui.”
“Isso acontece o tempo todo,” eu soltei, frustrada.
“Como assim?” A enfermeira insistiu.
Eu não queria ter confessado aquilo. Suspirei, tentando pensar em uma explicação. Agora o príncipe veria como a minha vida em Honduragua tinha me estragado.
“Eu tenho muitas dores de cabeça. E às vezes elas me deixam tonta.” Eu engoli em seco, preocupada com o que o príncipe pensaria. “Em casa, eu vou dormir horas antes de meus irmãos e isso me ajuda a trabalhar no dia seguinte. Mas está difícil de descansar aqui.”
“Hm-hm. Alguma outra coisa além de dores de cabeça e cansaço?”
“Não, senhora.”
Clarkson se mexeu do meu lado. Eu rezei para que ele não conseguisse ouvir meu coração batendo forte.
“Há quanto tempo você tem esse problema?”
Dei de ombros. 
“Alguns anos, talvez mais. Já é normal agora.”
A enfermeira parecia preocupada. 
“Tem algum histórico disso na sua família?”
Eu pensei antes de responder. 
“Não exatamente. Mas o nariz de minha irmã sangra de vez em quando.”
“Você tem uma família doente?” 
Clarkson perguntou, com um pouco de desprezo em sua voz.
“Não,” eu respondi, querendo me defender ao mesmo tempo que estava com vergonha de ter que me explicar. “Eu vivo em Honduragua.”
Ele levantou as sobrancelhas, entendendo. “Ah.”
Não era segredo o quanto o sul era poluído. O ar era ruim. A água era ruim. Tinha muita criança deformada, mulher estéril e mortes de jovens. Quando os rebeldes passavam, eles deixavam uma trilha de grafite e reclamavam do palácio não estar ajudando. Era um milagre a minha família inteira não ser doente como eu era. Ou que eu não estivesse pior.
Respirei fundo. O que eu estava fazendo ali? Eu tinha passado as semanas antes da Seleção criando um conto de fadas na minha cabeça. Mas não existia sonhos o suficiente para me fazer ser merecedora de um homem como Clarkson.
Virei meu rosto para longe dele, não querendo que ele me visse chorando. 
“Você poderia me deixar, por favor?”
Houve alguns segundos de silêncio, e então eu ouvi os seus passos conforme ele nos deixava. Assim que já não ouvia mais nada, eu desabei a chorar. “Ah, querida, está tudo bem,” a enfermeira disse, me confortando. Eu estava tão acabada, eu a abracei tão forte quanto eu abraçava minha mãe e meus irmãos. “É muito estresse ter que passar por uma competição como essa e o Príncipe Clarkson entende isso. Eu farei com que o médico receite algum remédio para a sua dor de cabeça e isso vai ajudar.”
“Eu sou apaixonada por ele desde que eu tinha sete anos de idade. Eu sussurro a canção de aniversário para ele todo ano no meu travesseiro para a minha irmã não rir de mim por lembrar. Quando eu comecei a aprender a escrever, eu praticava escrever os nossos nomes juntos. E a primeira vez que ele fala comigo, ele me pergunta se eu sou doente.” Parei um pouco de falar para deixar o choro sair. “Eu não sou boa o suficiente.”
A enfermeira nem tentou discutir comigo. Ela só me deixou chorar, estragando a minha maquiagem sobre o seu uniforme. Estava tão envergonhada. Clarkson nunca me veria como algo além da menina estragada que o expulsou dali. Tinha certeza que a minha chance de ganhar o seu coração já tinha desaparecido. Para que ele me manteria ali?
CAPÍTULO 2
No final das contas, só seis pessoas podem jogar croquet por vez, o que foi ótimo para mim. Eu me sentei e assisti, tentando entender as regras para o caso de eu ter que jogar, apesar de que tinha a leve impressão de que nós todos ficaríamos entediados e terminaríamos o jogo antes que todos tivessem sua chance.
“Deus, olha para os braços dele,” Maureen suspirou. Ela não estava falando comigo, mas eu olhei mesmo assim. Clarkson tinha tirado o seu blazer e dobrado as mangas de sua camisa até os cotovelos. Ele estava muito, muito bonito.
“Como que eu faço para ele colocar aqueles braços em volta de mim?” Keller brincou. “Não é como se fosse possível fingir uma contusão em croquet.”
As garotas à sua volta riram e Clarkson olhou para elas, só um suspiro de sorriso em seus lábios. Era sempre assim que me parecia, só um suspiro. Pensando bem, eu nunca o tinha ouvido rir. Talvez uma risada rápida e de repente aqui e ali, mas nunca alguma coisa que o deixasse tão feliz que ele explodisse de rir.
Mesmo assim, o fantasma de um sorriso no rosto dele era o suficiente para me deixar paralisada. Eu estava bem sem ter que ver mais.
Os times entraram no campo e eu estava dolorosamente consciente de que o príncipe estava de pé perto de mim. Quando uma das garotas conseguiu rebater uma bola bem ágil, ele moveu seus olhos rapidamente para mim, sem mexer sua cabeça. Eu olhei para cima até ele, mas ele voltou sua atenção para o jogo. Algumas garotas comemoraram e ele chegou mais perto de mim.
“Tem alguns refrescos na mesa logo ali,” ele disse baixinho, sem me olhar. “Talvez você deva beber um pouco de água.”
“Eu estou bem.”
“Bravo, Clementine!” Ele gritou para uma garota que tinha conseguido interceptar outra batida. “Mesmo assim. Desidratação pode piorar dores de cabeça. Pode ser bom para você.”
Seus olhos encontraram os meus e tinha mais alguma coisa ali. Não amor, talvez nem afeição, mas talvez um nível ou dois além de preocupação.
Sabendo que seria impossível eu o recusar, me levantei e fui até a mesa. Comecei a me servir um pouco de água, mas uma criada pegou a garrafa da minha mão.
“Desculpa,” eu disse. “Ainda estou me acostumando.”
Ela sorriu. “Não se preocupe. Coma um pouco de fruta. É muito refrescante em um dia como este.” Fiquei de pé do lado da mesa, comendo uvas com um pequeno garfo. Eu precisava contar aquilo para Adele: utensílios para fruta.
Clarkson olhou em minha direção algumas vezes, parecendo estar checando para ver se eu estava fazendo o que ele tinha sugerido. Não saberia dizer se era a fruta ou sua atenção que estava me animando.
Não tive a chance de jogar. Clarkson só falou comigo de novo três dias depois.
O jantar estava quase acabando. O rei tinha se retirado sem cerimônias, e a rainha tinha quase esvaziado uma garrafa de vinho sozinha. Algumas das garotas tinham começado a fazer suas reverências e ir embora, não querendo ter que assistir a rainha quando ela se levantasse desajeitada. Eu estava sozinha na minha mesa, determinada a terminar o pedaço de bolo de chocolate.
“Como você está hoje, Amberly?”
Levantei a cabeça de uma vez. Clarkson tinha andado até mim sem eu perceber. Agradeci a Deus por ele ter me encontrado entre garfadas. 
“Muito bem. E você?”
“Excelente, obrigado.”
Um pequeno silêncio se instalou entre nós e eu esperei para que ele falasse mais. Ou era para eu falar? Quais eram as regras sobre quem deveria falar primeiro?
“Eu notei como seu cabelo é longo,” ele comentou.
“Oh.” 
Eu ri um pouco ao olhar para baixo. Meu cabelo estava quase na minha cintura. Apesar de ser muito para ter que cuidar, seu comprimento me dava várias opções sobre como prendê-lo. Aquela era a chave para trabalhar em uma fazenda. 
“Sim. É melhor para fazer tranças, que eu gosto de fazer em casa.”
“Você não acha que talvez esteja longo demais?”
“Hm. Eu não sei, Alteza.” Eu passei meus dedos no meu cabelo. Ele era limpo e eu cuidava bem dele. Será que eu parecia desleixada sem saber?
“O que você acha?”
Ele inclinou a sua cabeça. 
“É uma cor bonita. Eu acredito que ficaria mais bonito se fosse mais curto.” 
Ele deu de ombros e começou a andar para longe de mim. 
“Só uma ideia,” ele falou de longe por cima de seu ombro.
Eu me sentei ali por um momento, pensando naquilo. E então, já tendo abandonado meu pedaço de bolo, fui para meu quarto. Minhas criadas estavam lá, esperando como sempre.
“Martha, você se importaria de cortar o meu cabelo?”
“Claro que não, senhorita. Tirar só um centímetro mais ou menos das pontas mantém o cabelo saudável,” ela respondeu, entrando no banheiro.
“Não,” eu disse. “Preciso dele mais curto.”
Ela parou. “Mais curto quanto?”
“Bom…Depois dos meus ombros, mas talvez só um pouco acima das minhas escápulas?”
“Mas são quase trinta centímetros, senhorita!”
“Eu sei. Mas tem como você cortar? E tem como você ainda conseguir fazer ficar bonito?” Eu peguei as mechas grossas que caíam em meu ombro, imaginando-as cortadas.
“Claro, senhorita. Mas por que você faria isso?”
Eu parei na sua frente, indo até o banheiro. 
“Acho que é hora de uma mudança.”
Minhas criadas me ajudaram a tirar o vestido e colocar uma toalha sobre meus ombros. Fechei meus olhos conforme Martha começava, não completamente certa do que eu estava fazendo. Clarkson pensava que eu ficaria mais bonita com o cabelo mais curto, e Martha faria com que ficasse longo o suficiente para eu ainda poder prendê-lo. Não perderia nada nisso.
Nem arrisquei uma olhada até que já tivesse terminado. Ouvi o barulho metalizado das tesouras se fechando sem parar. Podia sentir quando os cortes ficaram mais precisos, como se ela estivesse tentando deixar tudo uniforme. Não muito depois disso, ela já tinha parado.
“O que você acha, senhorita?” Ela perguntou, hesitante.
Abri meus olhos. À primeira vista, eu não conseguia ver diferença. Mas se eu virasse a minha cabeça, mesmo que fosse pouco, uma mecha do meu cabelo caía por cima do meu ombro. Eu trouxe uma mecha do outro lado para a frente e era como se meu rosto estivesse sido contornado por uma moldura de madeira. Ele estava certo.
“Eu amei, Martha!” Disse, passando as mãos pelo meu cabelo todo.
“Deixou você com uma cara muito mais madura,” Cindy completou.
Concordei com a cabeça. “Deixa mesmo, não é?”
“Espera, espera, espera!” Emon gritou, correndo para a caixa de joias. Ela pescou entre várias, procurando por alguma coisa em particular. Finalmente, ela voltou com um colar que tinha pedras vermelhas enormes. Eu ainda não tinha tido a coragem de usá-lo.
Levantei meu cabelo, esperando que ela colocasse em meu pescoço, mas ela tinha outra ideia. Gentilmente, ela colocou o colar na minha cabeça. Era tão ornado, parecia muito uma coroa. Elas todas suspiraram e eu parei de respirar por completo.
Eu tinha passado tanto tempo imaginando o Príncipe Clarkson como meu marido, mas nunca o tinha considerado como o garoto que faria de mim uma princesa. Pela primeira vez na vida, percebi que eu queria aquilo também. Não tinha grandes contatos nem estava esbanjando riquezas, mas sentia que não seria uma posição que eu simplesmente preencheria, mas na qual eu me destacaria. Sempre tinha acreditado que era um bom par para Clarkson, mas talvez eu fosse um bom par para a monarquia também.
Eu me olhei no espelho e, ao mesmo tempo que imaginei Schreave no final de meu nome, acrescentei Princesa antes. Naquele instante eu queria a ele, à coroa – cada pedaço dela – como nunca antes.
CAPÍTULO 3
Pedi para Martha me encontrar uma tiara com joias para eu usar de manhã e deixei meu cabelo solto. Nunca tinha estado tão animada para o café da manhã antes. Achava que estava realmente bonita e eu não podia esperar para ver se Clarkson também acharia.
Se eu fosse esperta, teria chegado lá um pouco mais cedo. Mas cheguei lá no meio de tantas outras garotas, que perdi completamente qualquer chance de conseguir a atenção do príncipe. Olhei rapidamente para a mesa principal de vez em quando, mas Clarkson estava concentrado em seu café, cortando seus waffles e seu presunto com convicção, de vez em quando dando algumas olhadas em direção a uns papéis ao seu lado. 
Seu pai bebia quase só café, apenas dando algumas mordidas aqui e ali quando parava de ler o documento que estava em suas mãos. Presumi que ele e Clarkson estavam estudando a mesma coisa e que ambos começando a trabalhar tão cedo significava que eles tinham um longo dia pela frente. A rainha não estava por perto e, apesar de a palavra ressaca não ter sido falada nenhuma vez, eu podia ouvi-la nos pensamentos de todos.
Uma vez que o café da manhã tinha terminado, Clarkson se retirou com o rei para fazer o que quer que fosse que mantinha o nosso país funcionando.
Eu suspirei. Talvez hoje à noite.
O salão das mulheres estava quieto hoje. Nós já tínhamos acabado com o estoque de conversas para nos conhecer e já tínhamos nos acostumado a passar nossos dias juntas. Eu me sentei com Madeline e Bianca, como sempre fazia. Bianca vinha de uma das províncias vizinhas de Honduragua e nós tínhamos nos conhecido no avião. 
O quarto de Madeline ficava do lado do meu e a criada dela uma vez bateu na minha porta para pedir para as minhas criadas um pouco de linha. Uma meia hora depois, Madeline veio para nos agradecer. E nós ficamos amigas desde então.
O Salão das Mulheres tinha induzido a panelinhas desde o início. Nós éramos acostumadas a nos separarmos em grupos no dia-a-dia – três aqui, cincos ali – então talvez fosse natural aquilo acontecer no palácio. E apesar de nós não nos separarmos por castas, eu não conseguia evitar de querer que nós não nos separássemos de jeito nenhum. 
Não éramos como iguais vindo aqui, pelo menos enquanto a competição durasse? Não estávamos passando pela mesma coisa? Apesar de que, naquela hora, parecia que nós não estávamos passando por nada. Queria que alguma coisa acontecesse, pelo menos para que tivéssemos algum assunto.
“Alguma notícia de casa?” Eu perguntei, tentando começar uma conversa.
Bianca olhou para mim. 
“Minha mãe me escreveu ontem e disse que Hendly se casou. Acredita nisso? Ela foi eliminada, quando? Uma semana atrás?”
Madeline se animou. “Qual é a casta dele? Ela está subindo?”
“Ah, sim!” Bianca acendeu de excitação. “Um Dois! Quer dizer, dá um pouco de esperança. Eu era uma Três antes de vir, mas a ideia de me casar com um ator ao invés de um médico velho e sem graça é bem divertida.”
Madeline soltou risadinhas e concordou com a cabeça.
Eu não tinha tanta certeza. 
“Ela o conhecia? Antes de ela vir para a Seleção, eu quero dizer?”
Bianca inclinou a cabeça para o lado, como se eu tivesse perguntado algo ridículo. 
“Eu duvido muito. Ela era uma Cinco; ele é um Dois.”
“Bom, eu acho que a família dela era de cantores, então talvez ela tenha se apresentado para ele alguma vez,” Madeline sugeriu.
“Boa ideia,” Bianca acrescentou. “Então talvez eles não fossem completos estranhos.”
“Huh,” murmurei.
“Despeito?” Bianca perguntou.
Eu sorri. “Não. Se Hendly está feliz, então eu também estou. Mas é um pouco estranho mesmo assim, se casar com alguém que você mal conhece.”
Teve uma pausa antes de Madeline falar de novo. “Mas nós não estamos fazendo a mesma coisa?”
“Não!” Eu exclamei. “O príncipe não é um estranho.”
“Tem certeza?” Madeline desafiou. 
“Então, por favor, me diga alguma coisa que você sabe dele, porque eu sinto como se não soubesse de nada.”
“Para falar a verdade…eu também,” Bianca confessou.
Respirei fundo, me preparando para começar uma longa lista de fatos sobre Clarkson…mas não tinha muito o que dizer.
“Não estou dizendo que eu sei cada último segredo sobre, mas não é como se ele fosse um cara qualquer andando na rua. Nós crescemos com ele, ouvimos ele falando no Jornal, vimos o rosto dele mil vezes. Mesmo que nós não saibamos todos os detalhes, eu tenho uma impressão muito clara dele. Vocês não?”
Madeline sorriu. “Acho que você está certa. Não é como se tivéssemos chegado sem nem saber seu nome.”
“Exatamente.”
A criada estava tão quieta, que eu não percebi que ela tinha se aproximado até que estivesse já perto de meu ouvido, cochichando.
“Você está sendo requisitada, senhorita.”
Olhei para ela, confusa. Não tinha feito nada de errado. Eu me virei para as meninas e dei de ombros antes de me levantar e seguir com ela pela porta. No corredor, ela fez um gesto discreto e eu me virei para encontrar o Príncipe Clarkson. Ele estava de pé ali com um quase sorriso em seu rosto e alguma coisa em suas mãos.
“Eu estava deixando um pacote na sala de correios e tinha isto daqui para você,” ele disse, segurando um envelope entre dois dedos. 
“Pensei que você o fosse querer o mais rápido possível.” 
Andei até ele o mais rápido que podia sem parecer mal educada e tentei pegá-lo. Seu sorriso ficou um pouco maléfico quando ele levantou o braço no ar.
Eu ri, pulando e tentando desesperadamente alcançar o envelope. 
“Não é justo!”
“Vai!”
Eu podia pular bem, apesar de que não tão bem de salto, mas até assim eu ainda era mais baixa que ele.
Não me importaria de não conseguir, porque, em algum momento durante as minhas tentativas, senti um braço em volta da minha cintura.
Finalmente, ele me deu a carta. Como eu suspeitava, era de Adele. Tantas pequenas coisas felizes estavam se acumulando em meu dia.
“Você cortou o cabelo.”
Eu tirei meus olhos da carta. “Cortei.” Peguei uma mecha e a trouxe para frente do meu ombro. 
“Você gosta?”
Tinha alguma coisa em seus olhos – não exatamente travessura, não exatamente segredo. 
“Gosto. Muito.” 
Com isso, ele se virou e andou até o final do corredor sem olhar para trás.
Era verdade que eu não tinha ideia de quem ele era. Mesmo assim, conforme eu o assistia no dia-a-dia, percebia que ele era muito mais do que eu já tinha visto no Jornal Oficial. Mas aquilo não parecia me assustar.
Pelo contrário, ele era um mistério que eu estava animada em solucionar. Eu sorri e abri a carta logo ali no corredor, indo até uma janela pela luz.
Querida, querida, Amberly,
Eu sinto tanto a sua falta que me dói. Dói tanto quanto dói pensar em todas as roupas lindas que você deve estar usando e toda a comida que você deve estar provando. Eu não consigo nem imaginar o que você está cheirando! Queria conseguir.
Mamãe chora quase todas as vezes em que vê você na TV. Você parecia uma Um! Se eu já não soubesse a casta de todas as meninas, nunca descobriria que você não era da família real. Não é engraçado? Se alguém quisesse, poderia simplesmente fingir que esses números não existem. Mas ainda assim, eles não existem para você, de certo modo, Pequena Senhorita Três.
Por falar nisso, eu queria muito que tivesse algum Dois perdido na nossa família para te ajudar, mas você já sabe que não tem. Eu perguntei e nós temos sido Quatros desde o começo, e é isso. As únicas adições à nossa família não são boas. Eu nem quero te dizer isso, e espero que ninguém leia essa carta até ela chegar a você, mas a prima Romina está grávida. Aparentemente ela se apaixonou por aquele Seis que dirige o caminhão de entregas para os Rakes. Eles vão se casar no final de semana, o que pelo menos fez todos respirarem aliviados. 
O pai (por que eu não consigo me lembrar do seu nome? Ah!) se recusa a deixar que um filho seu seja um Oito, que é o que vários homens mais velhos do que ele faria. Então, sinto muito por você ter que perder o casamento, mas nós estamos felizes por Romina.
De qualquer jeito, essa é a família que você tem agora. Um bando de fazendeiros e alguns criminosos. Só seja a garota linda e amável que nós sabemos que você é, e o príncipe certamente vai se apaixonar por você, não importa a sua casta.
Nós te amamos. Escreve para a gente de novo. Eu sinto falta de ouvir a sua voz. Você faz tudo ficar mais calmo por aqui e eu acho que não percebia isso até que você já não estava mais aqui. Adeus por agora, Princesa Amberly. Por favor se lembre de nós meros mortais quando conseguir sua coroa.
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