Resenha: Os Três

27 out, 2015 Por Izabel Wagner

Título
Original:
The Three
Autor: Sarah
Lotz
Ano: 2014
Editora:
Arqueiro
Páginas: 393
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Quando esse
livro foi lançado, confesso que fiquei extremamente ansiosa para conhecer a
misteriosa história por trás destas páginas com bordas pretas. Não vou mentir ou tentar contornar,
sou muito exigente quando os assuntos são histórias de terror e suspense, por ser uma amante assumida os gêneros, acredito que sempre espero o melhor possível das mentes
criativas que criam histórias e mais histórias capazes de nos assustar e prender a atenção. 

Como se não bastasse, minha
exigência aumenta ainda mais quando minha curiosidade para com o livro é grande
e as expectativas estão nas alturas. Por esse motivo, imaginem como eu estava
quando recebi esse gracioso livro pelo correio, enviado pela querida Joi, que
leu meus pensamentos e sabia que morreria para conhecer essa história!
Infelizmente, toda aquela curiosidade foi recompensada com um livro mediano,
que conseguiu se salvar apenas com a presença de um bom final. Minha decepção para com essa
história foi tão grande, que senti que fazia parte da tripulação de um dos aviões que
caíram dos céus, pertencentes ao livro que comentarei com vocês hoje.

“De jeito
nenhum. Não são reais. Não podem ser reais. Ela não consegue ver os olhos
deles, os rostos são glóbulos totalmente pretos que permanecem chapados e
imóveis enquanto a luz atrás floresce e morre. ”

Os Três se inicia através de uma narrativa instigante em terceira pessoa. Logo no começo do
livro nós conhecemos a americana Pamela May Donald, que se mudou para o Japão a fim de trabalhar e, principalmente, reatar a relação com sua única filha. No dia em que Pamela embarca no
avião, aquele que a levaria para se encontrar com sua tão amada filha, a aeronave sofre um terrível
acidente. 

Minutos depois de decolar, o avião caí. Ironicamente, a aeronave caí nas
proximidades da famosa Aokigahara, também conhecida como Mar de Árvores ou
Floresta do 
Suicídio. Se o acidente em si já não fosse trágico o suficiente, apenas
duas pessoas sobrevivem a queda. Um deles é um menininho japonês chamado Hiro,
e o outro sobrevivente é a própria Pamela, que se mantém ligada ao nosso mundo apenas o tempo suficiente de compreender com clareza a situação em que se encontra, e gravar uma mensagem em seu celular.

Como se essa
primeira premissa já não fosse suficiente para nos deixar, no mínimo, curiosos. Logo depois de conhecer o destino trágico de Pamela,descobriremos que o avião japonês não foi o único a cair naquele dia. Outros
três aviões também caíram dos céus, e o pior de tudo, todos os acidentes aconteceram de maneira trágica e misteriosa, deixando, com exceção de um acidente, apenas um sobrevivente. 

Dos escombros das aeronaves destruídas, surgem crianças sem família, com traumas enormes, e… totalmente diferentes daquelas que um dia embarcaram no avião. O primeiro é Bobby,
proveniente da aeronave caída nos Estados Unidos. A segunda criança é Jess, proveniente
do avião que caiu em Portugal. A terceira criança é Hiro, o garotinho japonês que sobreviveu e encontrou Pamela no meio dos escombros. Porém, o quarto avião se transforma em uma incógnita para nossa história, pois em nenhum momento, mesmo após o início de uma caçada longa e desgastante, fora encontrado qualquer sobrevivente.

“Era como…
como se um monte de cimento tivesse sido injetado nas minhas veias. Fiquei olhando
durante séculos. Aquela coisa estava sentada frouxa, imóvel, olhando para as
mãos. E então falou: O que você fez, Paul? Como pôde deixar essa coisa entrar
aqui? ”

Assim que descobrimos o triste fim de Pamela, o livro se transforma em outro livro. Nesta história que tinha tudo para dar certo, Sarah Lotz nos surpreende com uma enorme quantidade de textos, escritos
em primeira pessoa, por pessoas ligadas direta ou indiretamente ao acidente, suas vítimas e seus sobreviventes. Dentro de Os Três nós encontramos um livro escrito pela autora
fictícia Elspeth Martins. E foi justamente nesse ponto que o livro me perdeu. 
Como mencionei antes, a grande maioria do livro foi escrito de maneira a nos apresentar o livro escrito por Elspeth, autora que se dedicou a descobrir tudo o que podia sobre os acidentes
dos quatro aviões. Porém essa personagem brilhante vai além, ela nos mostra toda a atenção da mídia
para com as três crianças, nos apresenta o caos que a mensagem de Pamela
May Donald
causou no mundo todo, e principalmente, na congregação de que fazia
parte em sua pequena cidade nos Estados Unidos. 

Elspeth nos mostra o caos que o mundo virou por causa desses quatro acidentes, e destaca, de pouco em pouco, os mistérios por trás de tudo isso. A partir do momento em que entramos no livro de Elspeth, serão textos e mais textos,
relatos de pessoas que mantiveram contato direto com as três crianças,
comentários de psicólogos, policiais, padres e prostitutas, que possuem importância elevada ou mínima para que possamos entender essa história. Desta forma Os Três se apresenta como um pequeno
documentário em texto. Fórmula que ficaria interessantíssima, caso fosse virar um filme, porém,
para uma história que deveria nos causar no mínimo angústia, a narrativa foi
morna do começo, ao quase fim.

O que estou
tentando dizer, através de minhas palavras confusas, é que a ideia da autora é maravilhosa. Acredito que esse foi o
primeiro livro que li em que o autor se utiliza de diversas histórias reais (no sentido de que foram apropriadas de nossa realidade), foi capaz de criar uma história interessantíssima e bem formulada, e ainda por cima demonstra
diversos personagens e histórias que se cruzam muito bem. Porém, ao utilizar o formato de “documentário”, a autora nos afasta da história, nos tira o elemento
mais interessante do terror e suspense, que é justamente o fato de que com esses gêneros podemos sentir angústia, aflição e um
pouco (ou muito) medo. Outra coisa que me decepcionou muito não foi apenas o fato de observar tudo de longe, sem
conseguir sentir tudo o que a história poderia proporcionar, mas sim ver que a
autora possui uma escrita maravilhosa que poderia ter sido melhor explorada, caso ela escolhesse outra fórmula de contar sua história.

“Acho que eles
não imaginavam que um pastor de cidade pequena poderia estender as mãos até o
mundo lá fora e causar a encrenca que causou. Ou talvez eles tenham se preocupado
com a hipótese de acontecer alguma grande tragédia se tentassem fechar o
negócio dele. ”

Mas esse livro não é feito apenas de decepções, com as últimas 100
páginas a narrativa se mostra espetacular. É o final que salva toda a obra. E muito mais que isso, foi justamente a guinada na narrativa que conseguiu me prender ao livro. A medida em que o final se aproxima, Sarah Lotz volta sua atenção para uma personagem especial, e se utiliza de uma
narrativa maravilhosa para nos deixar ansiosos
pelo que vem a seguir. Somente com o eminente final, me vi sofrendo por entender
bem o que tudo aquilo significava. E imaginem a minha alegria ao encontrar uma das famosas fórmulas de terror bem ali, esperando por mim. Essa fórmula foi usada
lindamente e isso salvou a leitura.
Como não sou de ferro, preciso destacar aqui outro ponto que agiu como um balde de água fria. Encontrei, durante toda a narrativa, a temática da religião católica e de seus costumes e crenças. Não me levem, e nem me entendam mal. Religião pode SIM nos proporcionar boas
histórias, mas para que isso aconteça, elas precisam ser extremamente bem pensadas e
arquitetadas, caso contrário, se tornam apenas mais uma narrativa que aborda o mesmo tema para criar uma história de terror. Ao inserir
essa temática no livro, a autora conseguiu deixar diversos personagens cansativos, e assim, seus relatos se tornavam quadrados, repletos de convicções religiosas. É verdade que virei os olhos, muitas vezes, para o
que lia, tamanha era a minha indignação com certos relatos. Assim destaco, existem
histórias maravilhosas baseadas em teorias e crenças religiosas?! SIM, porém esse tema é muito batido, e se não for bem utilizado, esgota-se com
facilidade.
Ao final, Os
Três
é um livro que nos instiga por sua história misteriosa, nos preenche com
hipóteses e ideias, nos faz pensar em sua história por dias e dias, porém, um
livro não é feito apenas de um bom final e de uma ideia interessante. É preciso
habilidade e uma fórmula bem estruturada para inserir o leitor ao universo
criado. Como disse antes, a ideia da autora foi muito interessante, não tiro o
mérito dela, porém, ao se utilizar de uma fórmula inovadora a autora nos tirou
o que os livros de terror e suspense possuem de mais especial, que é justamente a imersão
na história, aquela sensação de fazer parte de tudo, sentir medos e aflições.
Por esse motivo o livro me perdeu, mas ainda sim, não posso negar sua ótima e fascinante história.

“Mesmo sem a
mensagem, tudo acaba do mesmo modo. ”

rela
ciona
dos