Resenha: Os Três

27 out, 2015 Por Izabel Wagner

Quando esse livro foi lançado, confesso que fiquei extremamente ansiosa para conhecer a misteriosa história por trás destas páginas com bordas pretas. Não vou mentir ou tentar contornar, sou muito exigente quando os assuntos são histórias de terror e suspense, por ser uma amante assumida os gêneros, acredito que sempre espero o melhor possível das mentes criativas que criam histórias e mais histórias capazes de nos assustar e prender a atenção.Como se não bastasse, minha exigência aumenta ainda mais quando minha curiosidade para com o livro é grande e as expectativas estão nas alturas. Por esse motivo, imaginem como eu estava
quando recebi esse gracioso livro pelo correio, enviado pela querida Joi, que leu meus pensamentos e sabia que morreria para conhecer essa história! Infelizmente, toda aquela curiosidade foi recompensada com um livro mediano, que conseguiu se salvar apenas com a presença de um bom final. Minha decepção para com essa história foi tão grande, que senti que fazia parte da tripulação de um dos aviões que caíram dos céus, pertencentes ao livro que comentarei com vocês hoje.

De jeito nenhum. Não são reais. Não podem ser reais. Ela não consegue ver os olhos deles, os rostos são glóbulos totalmente pretos que permanecem chapados e imóveis enquanto a luz atrás floresce e morre.

Os Três se inicia através de uma narrativa instigante em terceira pessoa. Logo no começo do livro nós conhecemos a americana Pamela May Donald, que se mudou para o Japão a fim de trabalhar e, principalmente, reatar a relação com sua única filha. No dia em que Pamela embarca no avião, aquele que a levaria para se encontrar com sua tão amada filha, a aeronave sofre um terrível acidente. 

Minutos depois de decolar, o  avião caí. Ironicamente, a aeronave caí nas proximidades da famosa Aokigahara, também conhecida como Mar de Árvores ou Floresta do Suicídio. Se o acidente em si já não fosse trágico o suficiente, apenas duas pessoas sobrevivem a queda. Um deles é um menininho japonês chamado Hiro, e o outro sobrevivente é a própria Pamela, que se mantém ligada ao nosso mundo apenas o tempo suficiente de compreender com clareza a situação em que se encontra, e gravar uma mensagem em seu celular.

Como se essa primeira premissa já não fosse suficiente para nos deixar, no mínimo, curiosos. Logo depois de conhecer o destino trágico de Pamela,descobriremos que o avião japonês não foi o único a cair naquele dia. Outros três aviões também caíram dos céus, e o pior de tudo, todos os acidentes aconteceram de maneira trágica e misteriosa, deixando, com exceção de um acidente, apenas um sobrevivente.Dos escombros das aeronaves destruídas, surgem crianças sem família, com traumas enormes, e… totalmente diferentes daquelas que um dia embarcaram no avião. O primeiro é Bobby, proveniente da aeronave caída nos Estados Unidos. A segunda criança é Jess, proveniente do avião que caiu em Portugal. A terceira criança é Hiro, o garotinho japonês que sobreviveu e encontrou Pamela no meio dos escombros. Porém, o quarto avião se transforma em uma incógnita para nossa história, pois em nenhum momento, mesmo após o início de uma caçada longa e desgastante, fora encontrado qualquer sobrevivente.

Era como… como se um monte de cimento tivesse sido injetado nas minhas veias. Fiquei olhando durante séculos. Aquela coisa estava sentada frouxa, imóvel, olhando para as mãos. E então falou: O que você fez, Paul? Como pôde deixar essa coisa entrar aqui?

Assim que descobrimos o triste fim de Pamela, o livro se transforma em outro livro. Nesta história que tinha tudo para dar certo, Sarah Lotz nos surpreende com uma enorme quantidade de textos, escritos em primeira pessoa, por pessoas ligadas direta ou indiretamente ao acidente, suas vítimas e seus sobreviventes. Dentro de Os Três nós encontramos um livro escrito pela autora
fictícia Elspeth Martins. E foi justamente nesse ponto que o livro me perdeu.
Como mencionei antes, a grande maioria do livro foi escrito de maneira a nos apresentar o livro escrito por Elspeth, autora que se dedicou a descobrir tudo o que podia sobre os acidentes dos quatro aviões. Porém essa personagem brilhante vai além, ela nos mostra toda a atenção da mídia para com as três crianças, nos apresenta o caos que a mensagem de Pamela May Donald causou no mundo todo, e principalmente, na congregação de que fazia parte em sua pequena cidade nos Estados Unidos.Elspeth nos mostra o caos que o mundo virou por causa desses quatro acidentes, e destaca, de pouco em pouco, os mistérios por trás de tudo isso. A partir do momento em que entramos no livro de Elspeth, serão textos e mais textos, relatos de pessoas que mantiveram contato direto com as três crianças, comentários de psicólogos, policiais, padres e prostitutas, que possuem importância elevada ou mínima para que possamos entender essa história. Desta forma Os Três se apresenta como um pequeno documentário em texto. Fórmula que ficaria interessantíssima, caso fosse virar um filme, porém, para uma história que deveria nos causar no mínimo angústia, a narrativa foi morna do começo, ao quase fim.

O que estou tentando dizer, através de minhas palavras confusas, é que a ideia da autora é maravilhosa. Acredito que esse foi o primeiro livro que li em que o autor se utiliza de diversas histórias reais (no sentido de que foram apropriadas de nossa realidade), foi capaz de criar uma história interessantíssima e bem formulada, e ainda por cima demonstra diversos personagens e histórias que se cruzam muito bem. Porém, ao utilizar o formato de “documentário”, a autora nos afasta da história, nos tira o elemento mais interessante do terror e suspense, que é justamente o fato de que com esses gêneros podemos sentir angústia, aflição e um pouco (ou muito) medo. Outra coisa que me decepcionou muito não foi apenas o fato de observar tudo de longe, sem conseguir sentir tudo o que a história poderia proporcionar, mas sim ver que a autora possui uma escrita maravilhosa que poderia ter sido melhor explorada, caso ela escolhesse outra fórmula de contar sua história.
Acho que eles não imaginavam que um pastor de cidade pequena poderia estender as mãos até o mundo lá fora e causar a encrenca que causou. Ou talvez eles tenham se preocupado com a hipótese de acontecer alguma grande tragédia se tentassem fechar o negócio dele.
Mas esse livro não é feito apenas de decepções, com as últimas 100 páginas a narrativa se mostra espetacular. É o final que salva toda a obra. E muito mais que isso, foi justamente a guinada na narrativa que conseguiu me prender ao livro. A medida em que o final se aproxima, Sarah Lotz volta sua atenção para uma personagem especial, e se utiliza de uma narrativa maravilhosa para nos deixar ansiosos pelo que vem a seguir. Somente com o eminente final, me vi sofrendo por entender bem o que tudo aquilo significava. E imaginem a minha alegria ao encontrar uma das famosas fórmulas de terror bem ali, esperando por mim. Essa fórmula foi usada lindamente e isso salvou a leitura.
Como não sou de ferro, preciso destacar aqui outro ponto que agiu como um balde de água fria. Encontrei, durante toda a narrativa, a temática da religião católica e de seus costumes e crenças. Não me levem, e nem me entendam mal. Religião pode SIM nos proporcionar boas histórias, mas para que isso aconteça, elas precisam ser extremamente bem pensadas e arquitetadas, caso contrário, se tornam apenas mais uma narrativa que aborda o mesmo tema para criar uma história de terror. Ao inserir essa temática no livro, a autora conseguiu deixar diversos personagens cansativos, e assim, seus relatos se tornavam quadrados, repletos de convicções religiosas. É verdade que virei os olhos, muitas vezes, para o que lia, tamanha era a minha indignação com certos relatos. Assim destaco, existem histórias maravilhosas baseadas em teorias e crenças religiosas?! SIM, porém esse tema é muito batido, e se não for bem utilizado, esgota-se com
facilidade.
Ao final, Os Três é um livro que nos instiga por sua história misteriosa, nos preenche com hipóteses e ideias, nos faz pensar em sua história por dias e dias, porém, um livro não é feito apenas de um bom final e de uma ideia interessante. É preciso habilidade e uma fórmula bem estruturada para inserir o leitor ao universo criado. Como disse antes, a ideia da autora foi muito interessante, não tiro o mérito dela, porém, ao se utilizar de uma fórmula inovadora a autora nos tirou o que os livros de terror e suspense possuem de mais especial, que é justamente a imersão na história, aquela sensação de fazer parte de tudo, sentir medos e aflições. Por esse motivo o livro me perdeu, mas ainda sim, não posso negar sua ótima e fascinante história.

  • The Three
  • Autor: Sarah Lotz
  • Tradução: Alves Calado
  • Ano: 2014
  • Editora: Arqueiro
  • Páginas: 393
  • Amazon

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