Título Original: Smoke Get in Your Eyes
Autora: Caitlin Doughty
Ano: 2016
Editora: Darkside
Páginas: 258
Amazon

Quem gosta de livro de youtuber? Uma pergunta um pouco mais complicada. Quem tem medo da morte? Caitlin Doughty tem um canal na plataforma chamado Ask a Mortician, traduzindo, Pergunte a um agente funerário. Com uma personalidade bastante peculiar, em seu canal, a autora fala com bom humor sobre a morte e o que está por trás das práticas na industria funerária.
Caitlin sempre foi muito próxima da morte. Aos 8 anos de idade se deparou pela primeira vez com a morte e a partir daí ficou bastante curiosa sobre assunto. A experiência foi bastante traumática, pois antes disso, seus pais sempre a protegeram sobre a realidade. Suas percepções sobre a morte começam a mudar quando, ainda jovem, formada em história medieval, Caitlin conseguiu um emprego em um crematório na Califórnia.
Em meio ao detalhes e curiosidade do seu dia a dia no trabalho, a autora constrói uma vasta reflexão sobre a morte, o que ela é e o que ela representa para a humanidade. Desde sempre, tivemos o sexo como um assunto tabu, isso já foi superado, e agora é tabu falar da morte. Apesar de já sabermos qual será nosso destino final, nós evitamos ao máximo falar sobre a morte.
Nos dois anos que trabalhou no Westwind Cremation & Burial, Caitlin adquiriu conhecimento o suficiente para escrever seu próprio livro e descobrir suas próprias convicções sobre o assunto. Confissões do Crematório vai trazer muito mais do que métodos e experiências da autora dentro do crematório, mas um estudo bastante extenso que a autora realizou, tanto histórico, literário e científico. Após isso, percebeu que a morte nem sempre foi um tabu em outras culturas.

A morte não está acontecendo com você. Está acontecendo com todo mundo.

A existência da negação, através dos séculos, em nossa sociedade se enraizou tanto, que a morte é escondida a qualquer custo, seja pela maquiagem utilizada nos cadáveres, pelos caixões variados e bem ornamentados ou pelos cemitérios floridos. Toda esta negação, esta falta de contato com a morte, faz com que nossa sociedade seja cada vez mais resistente em relação a mortalidade, o que fez com que Caitlin defenda o direito de uma “boa morte”. A autora defende que ao não nos distanciarmos de nossos cadáveres será mais fácil de lidar com o luto. Atualmente a Order of the Good Death conta com a apoio de milhares de simpatizantes, estudiosos e profissionais da área.

A leitura de Confissões do Crematório é realmente uma lição para a vida. Ao entendermos o significado da morte, aprendemos a dar valor a vida e foi isso que Caitlin conseguiu. A autora também compartilha diversas experiências pessoais e sinceras, inclusive experiências transformadoras, sem dúvida um divisor de águas na própria vida da autora e quem sabe, responsável por parte do seu posicionamento em relação a morte.

A vida é uma só e precisamos aproveitar nossa única chance. Precisamos estar mais dispostos a aproveitar da melhor maneira possível nossa passagem por aqui. Parece meio chocante e para alguns, desesperador, no meu caso, que tenho muita dificuldade em falar sobre, mas pensar que a vida terá um ponto final, faz com que eu deseje o máximo que eu puder extrair da vida. Se pensarmos que a morte é algo natural e corriqueiro, não seria muito menos traumático, não sentiremos menos?

Por mais que a tecnologia possa ter se tornado nossa mestra, precisamos apenas de um cadáver humano para puxar a âncora do barco e nos levar de volta para o conhecimento firme de que somos animais glorificados que comem, cagam e estão fadados a morrer. Não somos nada mais do que futuros cadáveres.

O tema abordado por Caitlin em seu livro pode ser mais pesado, denso e sem querer ser redundante, mórbido para os mais sensíveis, mas também extremamente revelador para outros. O livro aborda muito mais do que métodos de embalsamento e a decomposição e cremação de um corpo, mas aponta uma nova vertente para que sigamos. A morte permite uma visão diferente de encarar a vida e indiretamente, pode nos influenciar pelos caminhos que escolhemos para trilhar, seja por medo de encarar a possibilidade da morte ou não.

Sobre a edição física do livro, estou diante da edição mais bela da editora Darkside. A edição é lindíssima. Com as folhas em vermelho, capa trabalhada em alto-relevo e verniz e folhas de guarda com ilustrações da anatomia do corpo humano. Ao final da obra, a autora lista todas as fontes que ela utilizou como apoio na pesquisa e nesta, podemos conferir e quanto a pesquisa de Caitlin foi além.

Eu recomendo a leitura não só para quem procura saber como funciona uma funerária ou um crematório na América, mas também para quem estiver preparado para encarar muitos questionamentos existências. Sem dúvida uma leitura obrigatória, que merece e deve ser feita no seu tempo.


Resenha em Vídeo

rela
ciona
dos