Resenha: O Muro

05 maio, 2017 Por Nina Novaes

Título Original: The Wall
Autor: William Sutcliffe
Ano: 2017
Editora: Record
Páginas: 336
Compre: Submarino – Amazon

Narrada em primeira pessoa por Joshua, um garotinho de 13 anos, a história começa mostrando um dia típico na vida de um garoto dessa idade brincando com um amigo. Até que a bola de Joshua vai parar em um terreno abandonado cercado por tapumes que escondem algo a mais do que uma simples obra. Joshua vive em uma região em guerra, órfão de pai, ele se mudou com a mãe e o padrasto para perto da fronteira da cidade onde existe um muro gigantesco. Ele nunca parou para pensar o que teria por trás daquela enorme construção que parece não ter fim. Mas isso muda quando ele acaba do outro lado do muro. 
Lá ele começa a ter noção de que existem pessoas muito diferentes dele, que falam outra língua, pessoas que parecem não gostar de quem ele é (ou seria de onde ele veio?). No entanto, também é onde ele descobre o valor da amizade. Aos poucos o jovem começa a questionar a existência do muro e percebe o quanto o padrasto é radical. Sendo assim, tudo o que Joshua passa a vivenciar precisa ser mantido em segredo e não será uma tarefa fácil honrar essa amizade proibida.

“Deitado na cama com a luz apagada, noite adentro, a mesma coisa continua, sem parar. O posto de controle. As jaulas. As armas. O arame farpado. O Muro. As filas de pessoas e seus rostos fechados e amargos. A menina.”

Logo na capa encontramos referências a alguns best sellers, como A Menina que Roubava Livros e O Menino do Pijama Listrado, ambos livros, assim como O Muro que propõem contar histórias de amizades improváveis em períodos de guerra. Isso fez com que elevasse bastante a minha expectativa em relação ao livro, já que tive experiências maravilhosas com as outras leituras da mesma temática. Mas alguns pontos me incomodaram um pouco no livro escrito por William Sutcliffe.

O livro começa muito bem apresentando muita ação logo nos primeiros capítulos. Acompanhar como Joshua foi parar do outro lado do muro e como ele voltaria para casa tirou o meu fôlego. Mas em determinado ponto, a história ficou um pouco morna e pareceu trazer um aspecto mais “poético”. Até é interessante acompanhar os questionamentos do menino, a aflição por tentar devolver um pouco do que foi feito por ele para os amigos do outro lado do muro, mas toda essa reflexão do personagem fez com que a história ficasse mais lenta e com poucos diálogos. Somos agraciados com alguns momentos tocantes e até alguns ataques extremistas do padrasto do personagem, mas só lá para as últimas cem páginas que a história volta a ter um ritmo melhor, para o meu gosto. 
Fiquei muito incomodada com a ignorância do personagem, não pelo fato dele ser alheio ao que estava acontecendo a sua volta, mas pelo fato dele não buscar as informações tendo diversas ferramentas para isso. Isso me deixou muito confusa ao longo da história. O autor coloca alguns elementos como celular e google, o que me faz crer que o Joshua poderia muito bem buscar certas informações, assim como poderia ter usado a luz do celular em uma situação. Por outro lado, a mente (o alter ego?) do personagem que narra a história tem um vocabulário super rebuscado. Eu não sei se foi uma questão de tradução ou se o autor não soube encarnar a mente de uma garoto de 13 anos. Não que uma criança de 13 anos não passa ter um vocabulário vasto, mas não parecia ser o caso do Joshua.

Um ponto que achei bastante interessante na construção da história é que Amarias, a cidade, é fictícia. Eu fiquei durante toda a leitura me questionando se realmente seria na Cisjordânia onde realmente existe um muro separando as pessoas que possuem etnias e religiões diferentes. Essa confusão mostra que o autor obteve sucesso em construir bem essa parte da história, trazendo elementos reais para a ficção e tornando a história bastante verossímil. 
William Sutcliffe é londrino e autor de seis livros. O Muro traz uma história bastante tocante e que apesar de fictícia retrata uma dura realidade em nosso mundo. Adorei saber que quinze por cento dos royalties da edição inglesa foram doados para uma instituição de caridade que constrói playgrounds em campos de refugiados palestinos. Pela Editora Record foram publicados no Brasil outras duas obras do autor: Eu, minha (quase) namorada e o guru dela e O que te faça feliz – ambos parecem trazer uma proposta bem diferente desse novo livro. 
No geral, eu acho que O Muro traz uma ideia muito boa, talvez não tão bem executada, mas que ainda assim vale a leitura. Como eu sempre digo em minhas resenhas, os livros são ótimos meios de conhecer outras realidades e trazer discussões importantes à tona. Afinal de contas, seria um muro a solução para os conflitos? (Encaminhando a pergunta para o Trump).

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