Título Original: L’enfant Multiple
Autora: Andrée Chedid
Ano: 2017
Editora: Martin Claret
Páginas: 265
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Em O Menino Múltiplo se prepare para embarcar nas páginas de um livro que, como um carrossel, te levará para dar algumas voltas. Escrito pela romancista Andrée Chedid de origem libanesa, em 1989, a Martin Claret é primeira editora brasileira que a trazer um dos trabalhos dela para o nosso país.
A história começa em Paris com Maxime, que aos 40 e poucos anos decide administrar um Corrossel. A inspiração veio da sua infância com o Tio Léonard, um homem considerado excêntrico entre seus familiares tão “normais”. Obviamente, Maxime foi muito criticado por sua família pelo investimento. O pior é que, de fato, a família dele podia estar certa e depois de cinco anos, talvez ele tivesse que abandonar essa ideia absurda. 
Outro personagem da história é Omar-Jo, um menino de onze anos, que é obrigado a sair da sua terra natal após um grave incidente na Guerra do Líbano (1987). Apesar das cicatrizes físicas e emocionais que Omar-Jo carregava, ele é menino cheio de esperança e dons artísticos que, assim como Maxime, teve influências de uma figura mais velha em sua família, no seu caso, o avô Joseph.

“-Maxime é um poeta! Quem além de um poeta teria deixado tudo para trás pra comprar um Carrossel? Quem mais teria escolhido, como companheiro um palhaço, um estranho, um estropiado como eu?”

Será nas voltas desse Corrossel e da história, que traz um pouco do passado e do presente dos personagens, que Maxime e Omar-Jo irão se encontrar. Juntos eles vão preencher o que estava faltando em suas vidas, de como de certa forma um ajuda o outro em suas novas condições. Um livro que na própria capa resume bem: “alteridade, amor e tolerância fazem parte do enredo poético”. O Menino Múltiplo é uma história linda, que em alguns momentos é bem triste, mas também muito real. 
Adorei a ordem em que a história foi contada, onde a vida dos personagens são destrinchadas aos poucos. Conhecemos a história de cada um na mesma velocidade que os personagens se conhecem. Adorei como o Omar-Jo traz Maxime de volta para os seus sonhos e destrói suas armaduras de homem revoltado com a vida. E apesar da história seguir em um ritmo um pouco lento em algumas partes, Andrée Chidid, as vezes, nos pega de jeito numa reviravolta. Aliás, o final do livro é lindo e de chorar! 
As histórias da Andrée Chidid são estudadas por alguns linguistas e tradutores brasileiros. Por isso, a editora colocou duas introduções de estudiosas sobre a obra do O Menino Múltiplo. Uma delas é a tradutora Carla Renard. Confesso que isso me intimidou um pouco e muitas coisas eu não entendi, porque como esses “artigos” vêm antes da história, você não tem muita noção do que ele está falando. Sem contar os termos mais “rebuscados” que envolvem o universos das pesquisadoras. E a história em si da Andrée Chidid não é tão complicada. Pelo contrário, ela tem suas técnicas e desenvolve um história que envolve muito sobre culturas diferentes e talvez seja necessário para algumas pessoas a contextualização histórica, mas não é algo difícil de chegar numa conclusão sozinho.

Eu entendi a intenção da editora em valorizar ainda mais o fato desse ser o primeiro livro da autora no Brasil, explicando porque depois de quase 20 anos essa história ainda tem a sua importância. Mas eu colocaria isso no final, depois da história, para não espantar talvez leitores não acadêmicos. Eu sei que isso normalmente acontece com autores mais conceituados e clássicos, mas também não gosto muito que o primeiro contato com a obra seja através da interpretação de terceiros. Acho que isso deve ser algo que o leitor deve ter acesso (e buscar) depois da leitura do original. Para mim é importante que o leitor chegue nas suas próprias conclusões (ou dúvidas). 
Enquanto eu lia a história, eu fiquei pensando o quanto esse livro seria perfeito para um presente de Natal. O trabalho do design da capa feito pela Martin Claret passam bastante da essência do que o leitor irá encontrar nessas páginas. Ainda por cima, a edição é em capa dura! E, claro, nós amamos livros assim. E como eu já disse, a história, apesar de ter seus momentos tristes, é muito lindinha e super combina com essa época do ano.

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