Título Original: Frankenstein: or the Modern Prometheus
Autora: Mary Shelley
Ano: 2017
Editora: Zahar
Páginas: 250
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As vezes nós relutamos tanto em conhecer clássicos da literatura, que, quando finalmente nos permitimos, a surpresa acaba nos proporcionando os mais variados significados, tantas facetas diferentes e a revelação de todas as outras histórias que um clássico já inspirou. Frankenstein é assim e não foi à toa que virou uma das minhas melhores leituras do ano passado.
Por muito tempo eu achei que já conhecia o suficiente desta história, do homem que criou um monstro e que acaba se rebelando contra seu criador, mas nunca questionei o porquê. Quando que, como leitora, eu imaginaria que o verdadeiro monstro nunca foi a criatura, mas sim aquele que o abandonou, num mundo completamente desconhecido?
A história inicia no navio do Capitão Robert Walton, que através de cartas para a irmã, relata um episódio curioso que se desenrolou próximo a uma passagem no Polo Norte. Neste local, preso as geleiras, Robert e seus homens avistam uma estranha criatura puxada por cães. Não demora muito para que mais a frente a tripulação encontre e resgate Victor Frankenstein, que passa a contar a sua história e o que o levou até ali.
Victor, filho de aristocratas e estudante de medicina, tem uma ambição, colocar em pratica o projeto que durante anos almeja, os mistérios da criação, o poder de trazer vida a um corpo inanimado. Já formado e doutor, ele coloca em pratica todos seus anos de estudo e dedicação, e em uma noite fria de tempestade, dá a vida a uma criatura, formado de membros e pedaços de variadas pessoas, um monstro. Perturbado e completamente anojado, Victor abandona a criatura e foge para longe, assinando eternamente a sua ruína.

As consequências por não estar preparado para aquilo que durante anos almejou, começam a perseguir Victor, sua vida se transformara num caos, as pessoas que mais ama estarão em perigo, e pior para ele, é perceber que o único culpado por tudo isso é ele e sua cruel curiosidade.
Em 1816, Mary Shelley, aos seus 19 anos de idade, começava a escrever as primeiras linhas do que viria a ser, um dos maiores clássicos do terror gótico e precursor para a ficção científica. E apesar de também ser uma crítica a busca desenfreada por avanços na ciência, seja ela da natureza que for, Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, fala essencialmente sobre valores humanos. O que faz de nós melhores do que outras criaturas e o que é preciso fazer para ser considerado um monstro. Está, sem dúvidas, foi a indagação mais reflexiva e esclarecedora da obra. O que me fez admirar tanto este livro que durante muito tempo ficou guardado e nublado na minha estante e memória. 
Aqui não temos um narrador confiável, pois como é Victor que narra toda a história para o Capitão Robert, constantemente passamos a sentir uma certa empatia pelo jovem e um certo repudio pela criatura. Eu acredito que esta tenha sido realmente a intenção da autora, nos fazer questionar os dois lados da história, Victor tentando enganar o leitor se fazendo de vítima de seus próprios atos egoístas e a criatura que mesmo cometendo todas as atrocidades é apenas vitima de sua existência não compreendida. Toda esta personalidade dúbia entre os dois personagens principais faz com que a leitura flua com mais rapidez, pois nós queremos muito saber a verdade por trás de todos os acontecimentos.
Porém, apesar de ser para mim, uma leitura instigante, eu entendo que a categoria “clássicos do terror” pode afastar certos leitores por dois principais motivos. Narrativa e gênero. Mas o grande trunfo deste livro é nos fazer entender que muito além de uma leitura possivelmente rebuscada, muito além de monstros e vilões, estas obras tão conhecidas vão muito além desta superfície. Conhecer a verdadeira essência dessas histórias e perceber o quanto são ricos em reflexões e conhecimento fez com que ressurgisse um desejo antigo que tinha de ler outros clássicos da literatura mundial.

A edição da Zahar possui comentários do autor e tradutor Santiago Nazarian, que também apresenta ao leitor a cronologia de vida e obra da autora Mary Shelley. Frankenstein, que fora lançado primeiramente em 1818 anonimamente, recebeu o prefácio de Percy Shelley, marido de Mary e agente. Anos depois, já em sua edição revisada e definitiva, em 1831, a obra recebeu a introdução da própria autora, onde explica de onde sugira a ideia do livro. Todos estes extras e curiosidades consta m na edição em capa dura da editora Zahar.
Por fim, ler finalmente Frankenstein e perceber o quanto a visão de uma autora, mulher, ainda se faz necessária na humanidade me faz temer o futuro que nos aguarda. É uma obra atemporal e ainda será por muito tempo. Uma obra que questiona o verdadeiro mal na natureza humana, que em várias camadas, apresenta ao leitor um terror, uma reflexão e uma promessa. Questiona o leitor sobre nossos atos, sobre a vida e sobre o que nos faz dignos dela. 
Eu mais do que recomendo está leitura a vocês. Peço encarecidamente que se permitam conhecer clássicos, levem o tempo que precisarem para finalizarem estas leituras, degustem, apreciem, entendam. Para aqueles que sentem um certo receio em relação a livros de terror, posso adiantar que esta não é uma história que te dará sustos, arrepios ou que te fará morrer de medo. Não se prendam a imagem que as adaptações fizeram desta obra. Só no livro você vai conseguir entender o que é realmente Frankenstein e o que faz dele uma história de terror.


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