Nós – Crítica

29 out, 2020 Por Izabel Wagner

Relembro com muito carinho o lançamento do filme Corra, os comentários e críticas positivas que recebeu, a notícia de que Jordan Peele fora indicado ao Oscar e, mais tarde, o momento em que o criador deste filme maravilhoso recebeu um dos mais importantes prêmios da indústria cinematográfica. Lembro o quanto fiquei animada e orgulhosa após conferir um longa que, além de oferecer espaço e oportunidades para atores e profissionais negros, também abria as janelas dos gêneros do terror e suspense a fim de possibilitar uma necessária troca de ares, garantindo que novas mensagens, novas críticas e novas perspectivas fossem expostas nas salas de cinema.

Daquele momento em diante, decidi apoiar todos os futuros projetos de Jordan Peele e, por esse e tantos outros motivos, pensando também nos eventos e discussões levantadas ao longo de 2020, defini que neste Mês do Terror eu precisava compartilhar com vocês um pouquinho de Nós.

Escrito e dirigido por Jordan Peele, Nós delineia uma narrativa complexa e reflexiva, realisticamente sombria, crítica e fortemente interpretativa. Ao contrário de seu antecessor, as mensagens e comentários político e socioculturais de maior relevância para a compreensão dos acontecimentos, mistérios e personagens da trama não surgem com facilidade na mente do espectador – isto pensando em alguém que não tenha buscado informações, explicações e teorias antes de conferir a história. Por empregar uma diversidade surpreendente de símbolos, analogias e conexões com períodos, movimentos ou mesmo propostas específicas observadas na história dos Estados Unidos, mas também relações com debates e temáticas de maior amplitude, as quais se estendem para os contextos e realidades de outros países e sociedades, o longa acaba transformando-se em verdadeiro quebra-cabeças.

Consequentemente, encontramos em Nós a atmosfera ideal para o surgimento de conversas, para que espectadores dispersos ao redor de todo o mundo troquem ideias e compartilhem teorias. É por este motivo que algumas pessoas sentem a necessidade de conferir o filme duas, três ou quatro vezes. É por este motivo que, na época de seu lançamento, foram publicados uma quantidade considerável de vídeos e textos no estilo “entendendo Nós” ou “final explicado”. É por este motivo, também, que fiquei tão encantada com as propostas do longa. Afinal, quando um filme de terror e mistério estratégica e racionalmente opta por não empregar os constantemente utilizados “jumpscares”; insere críticas e comentários sociais ao longo de toda a narrativa; distancia-se da previsibilidade de tramas clássicas; não permite que a construção de seus personagens os delineie como desprovidos de inteligência e, ao mesmo tempo, demonstre aos aficionados por histórias de terror que ainda existem maravilhosas ideias a serem exploradas neste vasto e curioso universo… temos o dever, enquanto apaixonados e defensores do gênero, de compartilhá-lo.

A trama de Nós, apresentada de maneira simples e bastante resumida, duas grandes frentes que serão ampliadas e interligadas na medida em que os minutos do filme avançam. Num primeiro momento conheceremos Adelaide (Lupita Nyong’o), uma garotinha de aproximadamente dez anos que, ao passear com a família no parque de diversões da praia de Santa Cruz, acaba desaparecendo por algumas horas, sendo encontrada assustada e nervosa na casa de espelhos. Deste ponto, acompanharemos a Adelaide adulta, que segue em viagem para a mesma praia juntamente do esposo Gabe (Winston Duke), e os filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex).

Uma vez acomodados na casa de veraneio, não demora para que a família comece a presenciar acontecimentos estranhos em seu ensolarado e convidativo entorno, propiciando o crescimento da apreensão do espectador para com as possibilidades dos eventos seguintes e culminando na visita noturna de pessoas curiosas e diferentemente idênticas aos nossos personagens principais. É por meio deste encontro que a narrativa se modifica, tornando-se sombria. É por meio deste encontro entre protagonistas e replicantes que o longa tece os direcionamentos da trama, permitindo que espectador e personagens descubram o caos, as injustiças e a violência que os espera. É por meio deste encontro, também, que se delineiam as cenas, os diálogos, os contextos e cenários que oferecem aos espectadores e personagens as chaves para diversas questões e interpretações que o filme promove.

Apesar de tratar-se de uma história de terror, Nós trabalha as características do gênero de forma bastante diferenciada, alternando-se entre cenas noturnas e diurnas, cenários espaçosos ou claustrofóbicos, ambientações sombrias ou aconchegantes, detalhes conhecidos ou peculiares, personagens complexos e repletos de nuances. Observamos aspectos clássicos dos enredos de terror ao longo de toda a narrativa, seguindo desde a existência dos antagonistas ao embate entre o “bem” e o “mal”, partindo das famosas caçadas e brincadeiras de esconde-esconde até as descobertas de alguns dos principais mistérios da trama. Acompanhamos o passado de Adelaide a fim de estabelecermos interligações entre os acontecimentos do presente e suas memórias, analisamos o carinho e companheirismo existente na relação familiar a fim de nos conectarmos com cada personagem, direcionamos o olhar para a existência dos sócias a fim de imaginar suas motivações, percebemos nos diálogos as pistas do que tudo aquilo pode significar e, ao encontrarmos espaços e locais desconhecidos, recebemos as ferramentas necessárias para interpretar as mensagens por trás de cada cena.

Das gaiolas empilhadas aos coelhos, das roupas vermelhas utilizadas pelos replicantes ao local de onde vieram, do desaparecimento da pequena Adelaide ao encontro com sua família de sócias, do cordão de pessoas que parecem abraçar os Estados Unidos ao ódio que a não família de Adelaide parece sentir de seu esposo e filhos, dos diálogos sobre abandono, privilégios, necessidades, ignorância, descaso, injustiça, violência, carinho, oportunidades e preconceito até a proteção que duas mães parecem demonstrar para com seus entes queridos, tudo em Nós é motivo para reflexão, interpretação e crítica.

Como boa história de terror que é, Nós apresenta os personagens provenientes de localidades misteriosas, que buscam vingança por motivações desconhecidas. Delineia os momentos em que não sabemos onde, exatamente, encontram-se os perseguidores de nossos protagonistas, surpreendendo o espectador quando surgem de espaços inesperados. O filme constrói muitíssimo bem seus momentos de tensão, seus mistérios, suas perseguições e até mesmo as mortes e cenas de violência. Nada aqui existe ao acaso, mas, ao mesmo tempo, tudo depende da leitura do espectador.

Enquanto para alguns o filme trata de vingança, para outros ele abordará a questão dos privilégios e oportunidades oferecidas por uma sociedade. Enquanto para determinados espectadores o filme apresentará uma crítica perante a exclusão social, para outros ele levantará questões como o preconceito, a ignorância e a inércia de muitos. Na mesma medida em que podemos ressaltar que o filme demonstra uma revolução social, também somos capazes de analisar o quanto o conhecimento de diferentes realidades pode influenciar na busca de grupos e indivíduos por melhores oportunidades e qualidade de vida. Nós é tanto um quebra-cabeças quanto um depósito de camadas. Quanto mais refletimos sobre ele mais percebemos detalhes, quanto mais conversamos sobre ele mais encontramos possibilidades de interpretação, quanto mais o relacionamos ao mundo e às nossas próprias vivência, mais mensagens somos capazes de identificar.

Nós pode ser classificado como confuso, estranho, assustador, crítico, interpretativo, sombrio, inteligente e até mesmo peculiar. Com um elenco que nos apresenta atuações maravilhosas. Contando Lupita Nyong’o, quem se entrega completamente aos papéis representados e encanta o espectador com todo o seu talento. Com uma narrativa habilmente construída e mistérios muito bem delineados. Com cenas que contribuem para a fundamentação da atmosfera peculiar e sombria do filme. Com Jordan Peele utilizando clássicas estratégias de filmes de terror e interligando-as a símbolos e analogias que se transformam em críticas sociais, Nós também poderia ser considerado como um filme multifacetado. Acompanhá-lo pode ser desafiante, uma experiência verdadeiramente individual, mas, quando observamos algumas das discussões, movimentos e acontecimentos que marcaram o ano de 2020, acabamos o considerando, também, extremamente necessário!

E, se após conferi-lo surgirem diversas dúvidas, questões ou confusões mentais acerca do que viu ou de quais podem ser as mensagens do longa, sempre existem os comentários desta postagem para conversarmos e trocarmos uma ideia… além disso, uma infinidade de criadores de conteúdo elaborou vídeos e texto explicando a história. E talvez esse seja o melhor de toda a experiência: saber que podemos conversar sobre Nós com outras pessoas e, assim, descobrir e desvendar o filme juntos.

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  • Lançamento: 2019
  • Com: Lupita Nyong'o Winston Duke, Elisabeth Moss
  • Gênero: Terror, Mistério
  • Direção: Jordan Peele

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