Durante os primeiros meses do ano, enquanto o mundo se preparava para retomar todas as intrigas e mistérios de Westeros, os olhares curiosos, aguçados e ansiosos que passavam pelos sete reinos eram recompensados por um vídeo misterioso e intrigante, estrategicamente posicionado antes do início de nossa amada e famosa série. Conforme a sexta temporada de Game of Thrones (resenha aqui) ia se desenrolando, éramos devidamente apresentados a um novo mundo, novas possibilidades, a promessa de algo grandioso. Foi com o fim de Game of Thrones que descobrimos o começo de Westworld.
Lançada em outubro de 2016 pela poderosa HBO, Westworld é uma série inspirada no filme de mesmo nome, lançado em 1973. Em sua primeira temporada a história é desenvolvida ao longo de dez episódios, com duração de uma hora cada – com a maravilhosa exceção do episódio final, prolongado para uma hora e meia. A série, que conta com a produção de J.J. Abrams e um elenco de peso, integra ficção científica, velho oeste e muitas teorias. Aqui os pequenos detalhes e o plano geral se complementam para fisgar, maravilhar e intrigar cada espectador.
Westworld, porém, é maior, vai muito além do título escolhido para o seriado, ele é o início de tudo – em todos os sentidos, se é que você me entende – este é o nome dado ao parque temático criado por Ford (Anthony Hopkins) e seu sócio Arnold. 
Nesta nova terra, dentro de seus domínios devidamente controlados, neste parque de possibilidades, visitantes de todas as idades e de todos os lugares podem vivenciar, experimentar, desfrutar o Velho Oeste, além de se conectarem ou descobrirem quem verdadeiramente são, qual é sua verdadeira essência. O parque se estende por quilômetros. Nele encontramos narrativas inteiras, pensadas, elaboradas, modificadas e repaginadas para que cada visitante seja capaz de aproveitar sua estadia da forma que preferir, e quem demarca essas narrativas, quem as encena e segue com um mínimo de improvisações são os Anfitriões, robôs projetados pelos criadores para viver dentro do parque e garantir a diversão de seres humanos que buscam algo mais real do que a própria realidade.
Westworld era o sonho de Ford e Arnold, seu projeto e plano, a criação de suas vidas, algo além da imaginação, poderoso e único. Dentro do parque a dupla possuía controle, criou vida, brincou de líder de tudo, Deus, foi além. Seus robôs são capazes de agir como nós, pensar e seguir caminhos que nós também podemos trilhar, porém não são humanos, não possuem a consciência que possuímos e caso algo aconteça, sempre é possível reiniciar, apagar memórias, modificar.

Com o passar dos anos, porém, como todo ser vivo seguindo as forças da natureza, as coisas mudam, se transformam. Uma nova colaboradora (Delos) se une ao projeto e assume o controle de grande parte do que acontece nos bastidores, Arnold se transforma em um mistério e Ford assume o controle do processo criativo, das narrativas, da criação de novos anfitriões para o parque. Porém, no momento em que somos apresentados a história, algo começa a surgir na superfície, a princípio tão calma, deste reino de sonhos.

Anfitriões começam a ter surtos, alguns fogem totalmente de suas narrativas, outros vagam sem motivo pelo parque e casos específicos são quase um perigo para os visitantes. Mas dentre tantos defeitos, começamos a enxergar algumas fagulhas, algo mais, uma pequena parcela de razão e sentido dentro da promessa de caos que se espalha. A principal responsável por nos inserir neste enigma, aquela que irá nos direcionar pelo labirinto de histórias, segredos e teorias é Dolores (Evan Rachel Wood), uma das mais antigas, a primeira de muitos. Dolores é uma das robôs mais antigas do parque, e aquela capaz de nos esclarecer, encantar, conduzir pelo vale de teorias que nos cerca.
Westworld é instigante, intrigante, curiosamente bela, dramática, repleta de suspense e muito bem amarrada. Por incrível que pareça, e por mais absurdo que isso soe, até mesmo as pontas soltas guardam segredos, teorias e elementos capazes de nos confundir, ou apenas prometer algo para a próxima temporada.
Teorias surgem a cada novo episódio, informações novas mudam nossa visão do todo, pequenos detalhes atiçam nossa imaginação e fazem com que o impossível seja razoavelmente e perfeitamente possível, porém a sacada de gênio está no fato de que tudo o que precisamos saber está diante de nossos olhos. Cada informação, história, cenas e personagens só farão
sentido no momento em que o maior segredo for revelado. No momento em que conhecemos o contexto, no momento em que nossa visão se acostuma, conhece o painel geral, seremos capazes de compreender tudo aquilo que vimos ao longo de dez episódios, e ainda elevar as possibilidades para um plano maior e muito mais complexo e caótico.
Com uma narrativa maravilhosa, não se espera menos de todo o resto. A fotografia é certeira. O visual, as paisagens, as cenas são maravilhosas, de tirar o fôlego. A trilha sonora nos conduz e transporta, nos prende com suas belas garras e mostra a beleza de nossa prisão. Mas é o elenco que rouba a cena.
Certamente cada ator e atriz realiza um trabalho maravilhoso ao longo do seriado, afinal, estamos falando de uma história com Anthony Hopkins no meio, porém duas atrizes brilham mais forte, e seria sacrilégio não comentar sobre as duas nesta resenha.
Evan Rachel Wood encarna uma anfitriã humana, um ser perdido entre o mundo real e o imaginário. Sua atuação está impecável, belíssima. É impossível não se emocionar quando Dolores chora, não sentir raiva ou desespero quando algo lhe aflige, não sentir curiosidade quando ela descobre algo novo, não se encantar pela personagem. A atriz consegue se mostrar tanto robô quanto humana, suas feições, movimentos, olhares, são únicos.
Mas para arrematar, e ela não poderia deixar de ser destacada, temos Thandie Newton. Sua atuação surpreende, assusta, nos mostra a força e a sutileza, o medo e a coragem, o rosto de uma líder. Assim como Evan, Thandie transita lindamente pelo lado robô e o lado humano de Maeve. Seria impossível, falar sobre as atuações e não destacar as duas atrizes.
A segunda temporada de Westworld está programada para 2018, porém o que pode ser uma tortura para aqueles que se apaixonaram pela história e por tantos personagens queridos, também surge no horizonte com diversas possibilidades e a promessa de uma história ampliada, capaz de responder dúvidas que não foram respondidas e mostrar o caos dentro de toda a incapacidade de controle.
Com uma narrativa acertada, segredos interligados, detalhes e assuntos inacabados, não tenho dúvidas de que o seriado tem tudo para chegar onde hoje encontramos Game of Thrones (não me venham falar da impossibilidade de bater GoT quando Westworld está apenas começando). Tudo o que sei é que Dolores me levou para um caminho sem volta, me deixou no centro do labirinto, e embora não conheça o futuro que nos aguarda do lado de fora, sei que sua previsão é certeira, e irei carrega-la comigo até o fim.

  • Westworld
  • Criado por: Lisa Joy e Jonathan Nolan
  • Com: Evan Rachel Wood; Jeffrey Wright; Ed Harris
  • Gênero: Ficção Científica; Suspense; Drama
  • Duração: 10 Episódios – 60 Minutos

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