Quando penso na imensidão do território pertencente ao mundo da literatura, fico extremamente encantada. A literatura é inclusiva não apenas na quantidade de assuntos e temáticas abordadas nas páginas e mais páginas delicadamente guardadas nas estantes de seu reino. Ela é inclusiva em sua essência, no real sentido da palavra. Para além das temáticas ou assuntos polêmicos, das obras desconhecidas ou dos livros mais vendidos, a literatura abraça com carinho as mais diversas culturas, os mais diversos povos, cada indivíduo, suas características e tudo aquilo que nos difere e nos une como seres humanos.
Em meio a tantas histórias fantásticas, repletas de importância sendo reais ou fictícias. Dentre tantas narrativas inspiradoras, uma chama a atenção por sua simplicidade, pela graça com que foi capaz de abordar um assunto delicado e principalmente, pela idade do autor que a escreveu.
Naoki Higashida, pessoa formidável que me acompanha na jornada da passagem dos anos – nós dois nascemos em 1992 – foi diagnosticado com tendências autistas e, mais tarde, acaba sendo localizado, demarcado em um ponto mediano dentro do espectro do autismo. Naoki enxerga o mundo de forma única, de uma maneira que nós talvez nunca seremos capazes de compreender em sua totalidade. A forma como ele se conecta com as pessoas, com o mundo a sua volta, é extremamente diferente da qual estamos acostumados, da qual em nossa ignorância consideramos como “normal”. Ele enfrenta dificuldades que se assemelham e diferem das nossas, ao mesmo tempo, encara um dia após o outro. E assim como muitos de nós, enfrenta batalhas que o resto do mundo talvez nunca tenha ouvido falar.

Quando tinha apenas treze anos Naoki realiza algo que, em meio ao pensamento racional, limitado e totalmente especializado, era considerado uma grande dificuldade, quase impossível de ser concretizado. Porém, aos olhos daqueles que o acompanhavam dia após dia, conheciam suas batalhas e dedicavam tempo e afeto, o impulsionavam e serviam de suporte para tentar cada vez mais, mostrava apenas o quanto a paciência, carinho e a forma como lidamos com as situações realmente fazem a diferença na vida das pessoas. Com apenas treze anos, Naoki Higashida escreve um livro e responde perguntas preciosas para todos aqueles que convivem com o autismo, mas principalmente, abre as portas de seu mundo para todos aqueles que, como eu, nunca realmente compreenderam o que é o autismo.
O Que Me Faz Pular se apresenta através da estratégia de perguntas e respostas. Com uma escrita simples, direta, graciosa e acolhedora, Naoki nos insere em seu mundo. A obra pode contar com apenas 190 páginas, mas as lições, mensagens e informações contidas dentro de si vão muito além dos números que representam. Este livro mostra como, verdadeiramente, um autista pensa, porque faz o que faz, age como age, quais são suas dificuldades e o que sentem quando não somos capazes de compreender o que estão passando. Ele introduz um tema delicado e importante ao mundo literário, abre espaço para discussão e compreensão, mas acima de tudo, mostra que, embora as batalhas sejam diferentes, e nem sempre sejam analisadas sob o mesmo prisma, assim como nós, um autista muitas vezes só precisa de apoio, carinho e suporte para superar seus obstáculos.
Muito mais do que deixar a sua marca no mundo, ter sido abraçado pelo adorável mundo da literatura, Naoki Higashida nos mostra a importância da compreensão, da empatia, do suporte que oferecemos uns aos outros e que faz toda a diferença quando enfrentamos nossas batalhas.
Em um mundo em que o conhecimento está parcializado, onde evitamos falar sobre determinados assuntos por medo ou falta de compreensão, O Que Me Faz Pular nos insere em uma realidade que, por muito tempo manteve-se desconhecida, e mostra o quanto ainda precisamos percorrer para que o senso comum e a falta de empatia sejam superados. Muito mais do que uma dica de leitura, esse livro é obrigatório. E muito mais do que repleta de informações importantes, essa obra, com toda sua graça e habilidade, surge para nos mostrar que mesmo diferentes, mesmo enxergando o mundo de formas diversas, em essência somos todos iguais!

  • iheisho no boku ga tobihaneru riyu
  • Autor: Naoki Higashida
  • Tradução: Rogério Durst
  • Ano: 2014
  • Editora: Intrínseca
  • Páginas: 190
  • Amazon

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