Um presidente americano louco, assediador, racista, contra imigrantes, polêmico no seu twitter e mais algumas características nada ficcionais hoje em dia, esse é o cenário do magnífico Sam Bourne em Matem o Presidente.
Eu adoro quando um livro começa logo com ação, com algo bem importante acontecendo, seja um assassinato, a descoberta de um corpo ou, como nesse caso, um momento crítico na política americana. O presidente americano, que não tem o nome mencionado no livro, sendo sempre tratado como “O Presidente”, está prestes a apertar o botão que libera o lançamento de mísseis para atingir a Coreia do Norte, tudo isso devido à uma declaração pouco respeitosa do ditador norte coreano.
Um agente especial ligado a segurança do país recebe a informação de que o ataque acontecerá em poucos minutos e precisa se virar para impedir que milhares de pessoas inocentes morram devido a um devaneio de dois doentes que comandam potências nucleares.
Do outro lado, uma remanescente do presidente anterior ainda está na casa branca, vivendo com crises existenciais sobre ser honesta com o seu país ou com o seu novo patrão, vivendo diversos momentos constrangedores e vendo o quanto o novo presidente está prejudicando a nação. Maggie Costello decide que o presidente não pode permanecer no poder, mas ao mesmo tempo seu caráter impede que ela haja pelas costas dele para articular um grande golpe. Quando ela descobre que pode haver um complô para que o presidente seja assassinado se vê na obrigação de salvar a vida dele, por mais que isso signifique manter o país em constante perigo.

Um único escândalo podia acabar com um bom presidente, mas mil escândalos davam imunidade a um mal presidente. Quanto pior era seu comportamento, mais ele podia agir impunemente.

Matem o Presidente traz muitas referências diretas ao atual presidente americano, desde as constantes idiotices expostas no twitter, passando por cenas de brigas entre policiais da imigração e os imigrantes ilegais e chegando até mesmo em uma passagem onde o presidente enfia a mão dentro da calça de uma das funcionárias da casa branca, uma das coisas das quais Trump é acusado. Essas cenas são muito bem descritas e conseguem passar a carga emocional presente nelas, o que é algo muito forte para quem está lendo. Sem dúvidas é um mérito esta capacidade de Sam Bourne em descrever esses acontecimentos e proporcionar a total imersão de quem está lendo.

Apesar de a narração ser em terceira pessoa, os capítulos são intercalados, o autor utiliza capítulos diferentes para nos contar o que está acontecendo com cada personagem, isso porque muitas das ações acontecem simultaneamente, na mesma cidade ou em locais diferentes. Além disso, todo início de capítulo tem o horário que está iniciando a cena, o que eu achei muito interessante. Confesso que até procurei notar se o tempo entre uma cena e outra seria o suficiente para que tudo que fora descrito, de fato, pudesse acontecer naquele espaço de tempo. E sim, tudo é muito bem colocado e coerente, o que eu achei muito importante no livro, caso contrário seria um erro muito grave.
Matem o Presidente é claramente um livro crítico, escrito para o leitor imaginar se realmente acontecessem aquelas coisas com o atual presidente americano, pois muitas das coisas (as piores possíveis) são reais. O pensamento que ele instiga o leitor a ter é que, apesar de todas as cretinices desse presidente seria moral, justo ou aceitável assassinar ele para tira-lo da presidência? Os Estados Unidos têm uma vasta história de atentados e até de assassinatos contra presidentes, justamente pela ideia de que se aquela pessoa fosse morta o país tomaria um rumo diferente.
Justamente por ter tantas histórias reais de assassinatos voltados à política americana, muitas teorias da conspiração são criadas e o livro segue muito esse rumo. Grande parte das cenas se desenvolvem com pessoas próximas ao presidente e envolvidas com a casa branca, bem ao estilo House Of Cards, mas com sua própria identidade e foco.
O livro é bom, fluí bem, é dinâmico e coerente, porém vai levar apenas três estrelas na minha avaliação por dois motivos. Apesar de particularmente ser extremamente contra o Trump, achei muito perigosa a ideia de critica-lo o tempo todo, este está mais para um livro que quer atingir o presidente do que uma ficção realmente. Para mim passou da provocação e virou algo maçante. Tudo é inserido para descrever, diretamente, uma atitude do Donald Trump na vida real e por este motivo, achei que se fossem tiradas algumas dessas cenas o livro não perderia a ideia de ser uma obra crítica e todos leitores entenderiam que era uma alusão ao real presidente do país. O segundo motivo é o fato de o final não ter me agradado, achei que o livro acabou muito rápido, sem maiores explicações e eu fiquei sentindo falta de um contexto maior, de mais páginas que mostrassem como cada pessoa lidou com aquilo e de como a presidência e o povo americano reagiu depois de todos os acontecimentos.
De qualquer forma, o decorrer do livro é muito bom, para quem gosta de livros de ação ele é excelente, trazendo a todo momento uma nova situação de extrema urgência e com muitas atividades sendo feitas paralelamente a história central da obra, mas realmente o final fica muito no subentendimento do leitor e eu sempre prefiro que me digam o que realmente aconteceu ao invés de me deixar imaginando as hipóteses possíveis.
Matem o Presidente é uma crítica direta a Donald Trump, um livro de pura ação, com muita estratégia e conspiracionistas. Para quem gosta de se sentir imerso na leitura e de viver situações onde a terceira guerra mundial é um perigo iminente, esse é um livro maravilhoso e você deve tê-lo em sua estante.

  • To Kill the President
  • Autor: Sam Bourne
  • Tradução: Clóvis Marques
  • Ano: 2017
  • Editora: Record
  • Páginas: 406
  • Amazon

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