Antes de iniciar o processo de pesquisa que possibilita a coleta de informações acerca da vida e obra de escritores e escritoras que apresentamos a vocês por meio da coluna “Um Guia para…”, sempre tenho uma conversa com a Joi sobre a relevância do autor escolhido, sobre o possível interesse dos leitores do Estante Diagonal para com a personalidade abordada, ou mesmo, se a criação deste texto introdutório seria um conteúdo bacana a ser compartilhado no site. No caso específico de Mary Ann Evans o contexto não poderia ser mais contrário a tudo o que acabei de mencionar.

Se alguma vez em toda sua vida de leitor você ouviu falar desta autora é muito provável que o contato tenha se dado por meio do nome George Eliot, seu pseudônimo. A verdade inegável é que, embora sua importância para a literatura seja tamanha, esta renomada escritora realista do século XIX é pouquíssimo abordada, conhecida e publicada no Brasil. Desta forma, não pensei duas vezes ao deixar de lado nomes como William Shakespeare e Robert Louis Stevenson – os quais devem surgir por aqui em algum momento futuro – para introduzir devidamente esta autora e ressaltar, como fiz com Jules Verne, a falta de publicações e (possivelmente) interesse do mercado editorial brasileiro perante suas histórias.

Mary Ann Evans nasceu no dia 22 de novembro do ano de 1819, no condado de Warwickshire, Inglaterra. Com a morte da mãe, em 1836, Mary e o pai se mudam para Coventry, onde este passa a trabalhar como pároco, ou pastor, de uma das igrejas da região.

Embora a relação entre pai e filha sofresse com pequenos atritos, naturais em qualquer convivência próxima e familiar, poderíamos dizer que os dois construíram seu relacionamento com base no respeito e aceitação das diferenças existentes entre si. Um grande exemplo desta característica encontra-se no período em que Mary Ann, ainda muito nova, assume não acreditar mais nas palavras e pregações religiosas, negando-se a interligar-se a qualquer ação ou culto religioso. Após algumas discussões, porém, pai e filha chegam a um acordo. Seu pai iria aceitar suas opiniões acerca da religião e não iria exigir uma mudança de pensamento para algo que não fosse condizente com sua própria visão de mundo, contudo, reconhecendo o contexto social em que viviam, ele solicita que a moça aparecesse com determinada frequência na igreja, mantendo, assim, as aparências e evitando possíveis complicações para a vida dos dois. Deste modo a vida dos dois segue e Mary Ann cuidará do pai até sua morte, em 1849.

Por volta de seus vinte anos de idade, enquanto ainda vivia com o pai na cidade de Coventry, aquela que viria a se tornar uma das mais importantes autoras do século XIX recebe uma proposta de casamento de um proeminente restaurador de pinturas. Ainda que a aceitação da proposta de casamento viesse a lhe garantir certa estabilidade financeira, bem como um futuro socialmente aceito e muito mais seguro quando comparado aos caminhos que viria a trilhar, Mary Ann é enfática em sua recusa. Este segundo ato de rebeldia contra os padrões e expectativas da época demonstra a força da personalidade da moça e, mais tarde, com a morte do pai, a leva por caminhos que muitos, até hoje, consideram questionáveis.

Com a morte do pai e algumas viagens pela Europa depois, Mary Ann Evans fixa residência em Londres, Inglaterra. É neste período, ao longo do ano de 1850, que sua carreira literária tem início. Conquistando o posto de contribuinte do Westminster Review, jornal fortemente voltado a discussões e questões filosóficas, a autora torna-se responsável pela edição de diversos artigos e críticas literárias, muitos dos quais encontram-se repletos de julgamentos de valor perante à produção literária da época.

Estátua de Mary Ann em Nuneaton, na Inglaterra

Sua personalidade, grandes expectativas, ou mesmo exigências que remetem a um alto padrão de construção de narrativa, enredo e escrita direcionam a autora para a construção do texto “Silly Novels by Lady Novelists”, publicado anonimamente em 1856, onde expressa duras críticas às suas contemporâneas. Em seu texto a autora explora os preconceitos, ainda muito conhecidos e comentados na atualidade, de que a grande maioria das escritoras da época eram mulheres sem cultura cuja produção literária apresentava somente romances românticos, cobertos por uma parcela de açúcar e drama, e, principalmente, voltados a moças ignorantes. Trata-se da boa e velha fórmula daquilo que “não se deve fazer” quando se almeja construir um bom romance. Na mesma medida em que é arrogante e presunçoso, este também é um texto muitíssimo corajoso, uma vez que a autora não demonstrou medo de ser questionada por suas opiniões, exigências e expectativas perante o próprio contexto em que vivia.

Polêmica com relação a suas crenças religiosas, recusa de propostas de casamentos e críticas literárias, Mary Ann Evans também chocou a sociedade da época por conta de seus relacionamentos amorosos. Existem boatos – embora muitos desqualifiquem estes comentários por falta de provas – de que, no início de sua carreira como contribuinte do Westminster Review, a autora relacionou-se brevemente com John Chapman, responsável pela publicação do jornal e, consequentemente, seu empregador. Contudo, foi seu relacionamento de longa data com George Henry Lewes, filósofo e crítico literário, aquele que verdadeiramente trouxe consequências para a vida do casal, bem como para a forma com que muitos ainda enxergam a figura e personalidade da autora.

George Henry Lewes era casado. Tinha filhos com a esposa no momento em que conhece e passa a se relacionar com Mary Ann Evans, entretanto, as nuances e complexidade de todo o caso vão além de tudo o que se poderia imaginar. Primeiramente, Lewes conhecia o caso amoroso entre seu sócio, Thornton Hunt, e a esposa. O caso vinha acontecendo antes mesmo de George conhecer Mary Ann, e, para ampliar ainda mais este enredo, o autor sabia que mais de um dos filhos da esposa eram provenientes do caso que mantinha com Hunt. Compreendendo o contexto social em que vivia e buscando aliviar a culpa da mulher perante a sociedade da época, Lewes declara em cartório que todos os filhos eram seus e não provenientes de um caso extraconjugal entre sua esposa e o sócio. Assim, no momento em que passa a se relacionar romanticamente com Mary Ann, a trajetória do autor era digna da mais dramática e complexa novela mexicana e, apesar de tudo, os dois viveram juntos até a morte do autor, em 1878.

Foi graças à verdadeira parceria, incentivo e apoio de Lewes que Mary Ann inicia sua jornada como escritora, vindo a adotar o pseudônimo George Eliot por compreender a característica questionável do meio literário de privilegiar e valorizar obras produzidas por autores homens, ignorando ou mesmo desqualificando aquelas produzidas por mulheres. Seu primeiro passo na carreira como escritora dá-se por meio de “Scenes of Clerical Life”, obra onde explora histórias relacionadas aos residentes da pequena Warwickshire, condado onde nasceu. Contudo, é por meio de sua primeira novela, intitulada Adam Bede, que a autora recebe elogios e torna-se um grande sucesso.

Mesmo sendo pouco conhecida no mercado editorial brasileiro e, ainda que a obra em questão se encontre descontinuada, o texto que redijo não teria qualquer valor caso não apresentasse devidamente o romance de maior popularidade e reconhecimento já escrito pela autora, considerado pela crítica o primeiro romance realista da literatura inglesa vitoriana, intitulado Middlemarch (1872). Ao longo de suas 800 páginas, por meio da construção de um enredo capaz de envolver e interligar múltiplos personagens de inegável relevância, delineando uma verdadeira análise da vida rural inglesa no século XIX, bem como dos relacionamentos humanos e todas as suas nuances psicológicas, George Eliot ressalta a vida de uma protagonista que, pouco a pouco, desvenda o que realmente quer e espera da vida, assim como busca por um amor que atinja suas expectativas. Sua heroína muitas vezes é questionada pelos padrões da sociedade, sua narrativa muitas vezes reflete a própria vida da autora, os parceiros da protagonista, da mesma maneira com que os da autora, foram desaprovados por parentes e amigos, mas, em meio a vida de uma mulher fictícia, observamos nesta obra discussões muito interessantes sobre casamento, padrões, sonhos e relações humanas.

Devido a sensibilidade de suas narrativas, a forte análise psicológica contida em seus enredos, além da observação das mais intrínsecas motivações humanas, muitos leitores da época vieram a questionar se George Eliot não seria, em verdade, uma mulher. Apesar das especulações de leitores, autores e editores, o elemento mais interessante deste aspecto da vida e carreira da autora está no fato de que foi Charles Dickens quem apostou todas as cartas na suposição de que Eliot era uma mulher, vindo a escrever: “se George Eliot não for uma mulher, então eu sou”.

Depois da morte de George Henry Lewes e, acredito que seja importante ressaltar que o caso não ocorreu logo após sua morte, Mary Ann finalmente irá firmar laços de matrimônio, vindo a casar-se com John Walter Cross, um amigo, conselheiro e banqueiro da família e, já que estamos falando de uma mulher repleta de polêmicas, 20 anos mais novo que ela.

Mary Ann Evans, essa mulher de personalidade forte, com visão de mundo que ia muito além dos padrões de sua época, escritora e crítica exigente, amante incondicional e sem rodeios, polêmica até a atualidade, deixa o mundo no dia 22 de dezembro de 1880. Considerada uma das mais importantes romancistas realistas do século XIX, ela é absurdamente ignorada no Brasil. De todas as histórias que criou ao longo da carreira, somente Silas Marner: o Tecelão de Raveloe (1861) ainda pode ser encontrado em publicações recentes, sendo distribuído por meio do selo José Olympio, pertencente ao Grupo Editorial Record. Já Middlemarch, obra mencionada anteriormente, também foi publicada pelo Grupo Editorial Record, porém, atualmente encontra-se descontinuada, o que nos leva a questionar acerca dos possíveis motivos pelos quais não observamos outras apostas e incentivos à leitura de obras como as de George Eliot.

Outras obras da autora nunca publicadas no Brasil são: The Mill on the Floss (1860), Romola (1863) e Daniel Deronda (1876).

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