Por volta dos anos 2007 e 2008, Gerard Way (vocalista da falecida My Chemical Romance) e Gabriel Bá (premiado quadrinista brasileiro e irmão gêmeo do também quadrinista Fábio Moon, com quem assina diversos projetos) anunciaram o lançamento de The Umbrella Academy, uma história em quadrinhos sobre super-heróis problemáticos, famílias disfuncionais, acontecimentos estranhos e uma certa dose de pancadaria, violência e mistérios sendo desvendados ao longo do caminho. A história publicada pela Dark Horse e lançada aqui no Brasil pela Devir, conta atualmente com três volumes, contudo, passaram-se aproximadamente 12 anos para que este quadrinho vencedor de alguns Eisners Awards chamasse a atenção de roteiristas e produtores, transformando-se no que hoje conhecemos como o seriado disponível na grade do serviço de streaming Netflix.

O enredo – e aqui me aproprio de algumas informações repassadas por leitores de quadrinhos que compreendem o universo de maneira muito mais profunda do que algum dia serei capaz de compreender – inspira-se em projetos que vão desde a história em quadrinhos Rising Stars até o estilo e personagens produzidos por Mike Mignola (criador de Hellboy). Entretanto, aquilo que na narrativa original de The Umbrella Academy desenvolve-se de maneira acelerada, liberando pouco espaço para desenvolvimento de motivações e passado dos personagens, bem como dos mais variados elementos que consolidam esta história, ao inserir-se e adaptar-se para o formato de série recebe também a oportunidade de modificar o alinhamento da narrativa, alterar detalhes de personagens, aprofundando personalidades e eventos passados, além de compartilhar com o espectador uma história muito mais estruturada do que sua prima HQ.

Tudo se inicia quando, em um dia específico de outubro de 1989 diversas mulheres espalhadas pelo globo terrestre, livres de qualquer ligação direta entre si e, o que eleva ainda mais o mistério destes eventos, que não sabiam ou simplesmente não poderiam estar grávidas, dão à luz a crianças especiais. Alguns bebês desaparecem na multidão, outros são adotadas por novas famílias, alguns supostamente tiveram um trágico destino, mas apenas sete foram recolhidos pelo milionário Reginald Hargreeves.

De alguma forma Sir Reginald conhecia o potencial destas crianças e, após acomodá-las em sua mansão, dar-lhes uma androide como mãe e um símio inteligente e falante como tutor, passa a treiná-las, habilitando-as a usar seus poderes para solucionar situações complexas e dramáticas, comuns ou não ao cotidiano dos mais simples e desinteressantes cidadãos pertencentes a humanidade. Os métodos de Reginald Hargreeves, porém, transformam seus filhos adotivos em adultos problemáticos, assombrados pelos mais diversos fantasmas, imobilizados pelos mais variados traumas, constituindo personalidades únicas e complexas, além de provocar o distanciando dos irmãos de maneira praticamente irreparável.

Quando Pogo, o símio inteligente que ao longo de toda a vida serviu como tutor para estas crianças peculiares, comunica os irmãos sobre o falecimento inesperado de seu pai, Allison, Luther, Diego, Klaus, Vanya e Número Cinco não irão apenas se reunir para um funeral; retornar de uma viagem ao futuro; discutir a completa ignorância do pai com relação aos sentimentos de cada criança ou mesmo serem atacados por misteriosos assassinos mascarados, mas também iniciar o que viria a se transformar em uma missão para evitar o apocalipse eminente.

The Umbrella Academy baseia-se na clássica premissa da família disfuncional cujos membros possuem superpoderes. Elementos dessa conhecida estrutura apresentam-se ao espectador desde a demonstração de uma mansão onde as crianças superpoderosas vivem, convivem e treinam; passando para os treinamentos questionáveis realizados por um pai aparentemente desconectado emocionalmente da vida de seus filhos adotivos; seguindo para os traumas vivenciados por cada criança e como suas personalidades se solidificaram na medida em que amadureciam; chegando, por fim, aos problemas que cada personagem enfrenta enquanto adulto e o quanto são reflexos de sua formação e vivências. Todavia, o que difere na narrativa da história em quadrinhos e no seriado produzido pela Netflix é o fato de que a série retira todos os elementos esquisitos presentes na HQ e explora, na mesma medida em que se aprofunda na personalidade, caráter, poderes e traumas de cada personagem.

Onde a história em quadrinhos peca pela falta de profundidade no passado e motivações de cada personagem; exploração da personalidade e poderes de cada membro da academia; adição de elementos esquisitos que tomam espaço e tempo de página, apressando, assim o ritmo da narrativa, o seriado acerta ao reduzir a velocidade da mesma nos momentos certos; ao aprofundar-se em cada personagem e permitir ao espectador compreender seus traumas, personalidade, poderes e caráter; ao retirar elementos desnecessários e reintroduzir aqueles capazes de transformar esta história em algo muito mais interessante do que já era em sua versão original.

Também é verdade que, apesar de criticar diversos pontos do material que deu origem à série, em minha resenha da HQ, elogio o trabalho realizado por Gerard Way e Gabriel Bá, porém, vale ressaltar que naquele momento não conhecia absolutamente nada do assunto e estava compartilhando uma das minhas primeiras experiências com histórias em quadrinhos, por esse motivo, minhas opiniões se modificaram e, embora ainda carregue o título em meu coração, reconheço suas falhas e destaco o bom trabalho efetuado pelos produtores e roteiristas.

Para além das comparações e escolhas de construção de narrativa o seriado conquista e encanta pela qualidade dos mais variados de seus aspectos técnicos. Seja pela renderização dos elementos carentes de computação gráfica (como o personagem Pogo); os efeitos especiais bem posicionados e constituídos (com destaque para os poderes do Número Cinco); as explosões, cenas de tiroteio ou fogo (aqui seria difícil destacar apenas uma); a ambientação e construção de cada cenário (como todos os ambientes pertencentes a mansão) chegando a trilha sonora belamente escolhida e interligada de maneira a criar as mais estranhas e maravilhosas atmosferas já vistas (destaque para a cena de luta com a música Istanbul ditando o ritmo), em todos os aspectos técnicos o seriado mostra a que veio e demonstra o cuidado da produção com cada detalhe.

Por fim, nos resta abordar as atuações e, embora meus elogios estejam chegando ao fim, gostaria de expressar todo o meu amor pelos atores Robert Sheehan e Aidan Gallagher, os mais perfeitos e encantadores Klaus e Número Cinco que um fã poderia sonhar! Talvez seja desrespeito dizer que os atores roubaram a cena e conquistaram meu coração, mas trata-se da mais pura verdade. Como menção honrosa, devo mencionar o trabalho de Mary J. Blige e Cameron Britton como Cha-Cha e Hazel.

The Umbrella Academy trata-se do exemplo perfeito em que a adaptação consegue elevar o nível da obra original. Aqui encontramos aprofundamento de personagem, atuações primorosas, trilha sonora contagiante, efeitos especiais bem produzidos e posicionados e uma narrativa bem estruturada, modificada de maneira a garantir ao espectador a melhor experiência possível. Para os fãs de super-heróis, famílias disfuncionais, mistérios curiosos e algumas explosões e pancadaria ao longo do caminho, essa dica é perfeita e, o melhor de tudo é o fato de que já temos uma segunda temporada confirmada.

  • The Umbrella Academy
  • Criado por: Jeremy Slater
  • Com: Ellen Page, Tom Hopper, David Castañeda
  • Gênero: Ação, Drama
  • Duração: 10 episódios - 45 a 50 minutos

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18 Comentários

  • Ana I. J. Mercury
    01 julho, 2019

    Que legal uma série inspirada numa HQ.
    Parece ser boa, diferente e bem ousada.
    Com super poderes já me ganhou, rrsrs
    A atuação parece ok também.
    Vou procurar.
    bjs

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      Espero que tenha chance de conferir a série Ana !!! Vou ficar torcendo para que curta a história !!! 😉

  • Lily Viana
    30 junho, 2019

    Olá!
    Já tinha visto o trailer dessa serie e estou bastante curiosa por ele. Não sabia que é uma adaptação de uma HQ, ainda mas pelo vocalista de My Chemical Romance, eu adorava essa banda. Fiquei um tanto curiosa agora, até ire assistir.

    Meu blog:
    Tempos Literários

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      Pouca gente conhece o material original Lily !!! Embora The Umbrella Academy tenha ganhado alguns prêmios, ela não é muito conhecida por aqui, rsrsrs, isso também acontece pelo fato de que ela não é perfeita sabe ??? É bem corrida e se inspira em várias outras histórias, talvez por isso não tenha chamado tanto a atenção, rsrssr
      Mas a série eleva muito o trabalho original, vale a pena conferir.

  • Nil Macedo
    30 junho, 2019

    Izabel

    Até hoje não tinha me interessado em iniciar essa série. Achei que seria uma coisa muito teen e que não me sentiria ligada. Mas eu gosto muito do mundo dos super-heróis e de toda uma trama para salvar ou perturbar o mundo. Não sabia que a séria havia sido baseada em uma HQ. Que bom que veio melhorada.

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      Pode ficar tranquila que The Umbrella Academy passa longe das produções mais voltadas para o público adolescente Nil !!! E que bom que ela faz isso né ?! XD Confesso que ultimamente essas séries teen tem me decepcionado muito, a única que sigo assistindo e gostando é The 100 !!!

  • Maria Alves
    30 junho, 2019

    Já tinha ouvido falar da série, mas não sabia da HQ, fiquei muito curiosa para conferir a série adoro super heróis e ação, ainda mais que parece que tudo foi muito bem elaborado, tanto enredo quanto os atores, difícil achar uma adaptação assim bem feita e até melhor. Pena que ainda esta no começo tenho receio de me apegar e depois vir a notícia que os fãs de séries odeiam ser cancelada, mas quero conferir assim mesmo rs.

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      Maria, por enquanto estamos seguros !!! A segunda temporada de The Umbrella Academy já está sendo produzida e, acredito eu, se fizer sucesso, é possível que teremos uma terceira ainda !!! Vamos torcer !!!

  • Rayssa Bonai
    30 junho, 2019

    Olá, já tinha ouvido falar sobre essa série, mas nunca havia procurado me informar mais detalhadamente sobre ela, mas eu deveria, já que agora depois de ler sua resenha, fuquei fascinada pela premissa da mesma! Gostei muito do fato de a série explorar a personalidade, os poderes e os traumas dos personagens ao mesmo tempo. Adoro quando uma adaptação é tão bem feita que consegue elevar o nível da obra original, é tão legal quando isso acontece. Com certeza vou colocar essa série na minha lista de séries para maratonar. Obrigada pela indicação! Beijis!

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      Fico feliz por saber que se interessou pela série Rayssa, já vou ficar aqui torcendo para que curta a história !!!
      The Umbrella Academy foi uma aposta que deu super certo, nos trazendo atuações maravilhosas, trilha sonora contagiante e mais uma pancada de elementos que fazem qualquer apaixonado por aspectos mais técnicos ter seus olhos brilhando de alegria, rsrsrs. Agora é torcer para que a segunda temporada não decepcione.

  • Rayane B. de Sá
    30 junho, 2019

    Oiii ❤ Agora que li a resenha, estou ansiosa pra assistir The Umbrella Academy. Essa série parece ter tudo que eu gosto em séries, heróis, lutas, mistérios a serem desvendados… Por quê eu ainda não assisti essa série?! Rsrsrs.
    Num primeiro momento, quando ouvi falar dessa série, fiquei com um pé atrás, não por conta da trama, mas por ser uma adaptação da Netflix, pois já me decepcionei com várias adaptações desse streaming. Mas agora que sei do potencial dessa série, não vou deixar de assistir por causa de ser uma adaptação da Netflix.
    Gosto muito em tudo que leio/assisto quando o passado e os traumas dos personagens são explorados, pois assim os próprios personagens ganham profundidade.
    Obrigada pela dica de série, essa eu vou querer conferir ❤

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      Já fiquei aqui super feliz por saber que se interessou pela série Rayane !!!
      Mas tenho que confessar que fiquei curiosa … qual adaptação produzida pela Netflix tu não curtiu ??? Normalmente os seriados são o ponto mais forte da Netflix, estranho eles errarem feio .

  • Angela Gabriel
    30 junho, 2019

    E que venha a segunda temporada! rs
    Puxa, mesmo não sendo nadinha um dos meus estilos favoritos em matéria de série, Umbrella me conquistou desde o primeiro episódio e foi impossível não a maratonar inteirinha em pouco tempo.
    A qualidade do trabalho dos personagens é incrível, cenário escuro, denso, aquela pitada generosa de humor sarcástico e uma história fantástica!
    A junção de tudo que era considerado “ruim” ,mostrando que tudo pode se encaixar perfeitamente!
    Super recomendo!!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel(O Vazio na flor)

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      Aaaaaaa que legal Angela !!! Já fiquei aqui super feliz por saber que assistiu e curtiu The Umbrella !!!
      O trabalho realizado na produção desse seriado foi maravilhoso né ??? Adorei o cuidado deles para com o aprofundamento dos personagens, além de explicarem melhor alguns detalhes que na HQ passam suuuuper corridos.
      Agora é esperar pela segunda temporada !!!

  • Luana Martins
    30 junho, 2019

    Oi, Izabel
    Minha lista de séries estão aumentando cada vez mais…
    Muito legal que a série complementa o que ficou faltando na HQ, gosto muito de saber mais sobre os personagens. Nossa ficar grávida de manhã sem saber e no fim do dia ter o bebê é bem misterioso e ainda as crianças tem poderes.
    Já adorei, além de assistir também quero ler a HQ. Que bom que vai ter a 2ª temporada.
    Beijos

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      A minha também Luana !!! E agora que a Marvel anunciou algumas séries dos heróis, minha série está se tornando infinita, rsrsrs
      Espero que curta The Umbrella Academy !!!

  • ELIZETE SILVA
    30 junho, 2019

    Olá! Uma série bem diferente hein, confesso que num primeiro momento não me interessei muito pela série, mas agora que descobri que ela foi inspirada em uma HQ feita pelo vocalista do My Chemical Romance, despertou (e muito) meu interesse. Acredito que antes de assistir a série, vou dar uma conferida nas HQs, até mesmo, porque aparentemente a série complementa bem a história da HQ, além de dar mais profundidade aos personagens.

    • Izabel Wagner
      23 julho, 2019

      Quem é fã de My Chemical Romance não tem como não se identificar né ?! E deixa eu te contar Elizete, o Gerard não decepcionou aqui não, a série está melhor do que o quadrinho !!! *-*