Aos 13 anos de idade, iniciando sua adolescência, nossa narradora é retirada do lar que tinha por seu e inserida em um outro ambiente familiar, extremamente caótico, que dizem ser sua família biológica. Sem entender o que a levou a ser devolvida para essa outra família, a garota vive um conflito existencial ao mesmo tempo que tenta se adequar a nova realidade.

Advinda de uma família abastada financeiramente, a realidade socioeconômica de seus pais e irmãos biológicos não é a única coisa que choca a menina, mas as relações entre os sujeitos daquele núcleo familiar. Em meio a sua busca por identidade e o amor de uma mãe, a jovem irá estabelecer laços com dois de seus irmãos, Adriana e Vicenzo, que lhe proporcionam um porto seguro. 

Com o tempo, perdi também a ideia confusa de normalidade e, hoje, ignoro qual lugar seja o de uma mãe. Isso me falta, do mesmo modo que pode faltar saúde, proteção, certezas.

A Retornada é um romance de formação da autora Donatella Di Pietrantonio, em que acompanhamos o desenvolvimento da nossa narradora, durante sua adolescência. Essa transição da infância para a vida adulta é um marco muito significativo na vida de todo mundo, visto que as inúmeras dúvidas, curiosidades e incertezas sobre a própria identidade, produz crises e inquietações nos adolescentes.

A adolescência é o momento em que o sujeito passa a se entender como indivíduo e busca compreender qual o seu papel na sociedade. Seus gostos, suas opiniões, sua orientação sexual, dentre vários outros fatores, começam a ser definidos nessa fase. E se não bastasse toda a turbulência desse processo, nossa narradora enfrenta uma crise ainda maior, a materna. A narradora não só é retirada da mulher que tinha por mãe, como também, é rompido  todos os laços que elas possuíam. Isso gera na narradora um enorme conflito interno, a partir do momento em que ela não consegue entender o que aconteceu, o porquê foi rejeitada, tanto pela mãe que lhe devolve, quanto pela mãe que um dia lhe entregou ainda bebê.

Esse conflito existencial se delimita ainda mais, no fato de que assim como a narradora perde sua identidade, nós leitores não conseguimos saber qual o seu nome. Se a nossa narradora não sabe quem ela é, quem dirá nós leitores. O que nos provoca uma certa angústia, que provavelmente, é o mesmo que a narradora vivia. Esse sentimento inquietante só é um pouco sufocado, devido a linda relação que é construída entre a narradora e sua irmã Adriana. Apesar de serem totalmente diferentes, uma improvável amizade acontece e é graças a essa relação, que a narradora encontra as forças e o apoio que precisa. Não é o ponto central da narrativa, porém o companheirismo das irmãs possui uma importância muito grande na história, tanto que é representado na capa do livro.

A narradora também possui uma relação de grande relevância com seu irmão Vicenzo, contudo, isso foi algo que não me agradou na história. Acredito que a autora quis explorar a questão do amadurecimento com a influência do meio, ou seja, do contexto em que o jovem está inserido. Porém, em meio ao conflito principal da história e todo o seu desenrolar, considero que não cabia a relação proposta.

Repetia devagar a palavra “mãe” uma cem vezes, até perder todo o sentido e se tornar apenas um movimento dos lábios. Eu fiquei órfã de duas mães vivas.

No entanto, mesmo não agradando desse detalhe, a escrita da autora é leve e envolvente, e  conforme se dava os acontecimentos, meu anseio por terminar o livro e saber a que fim levaria a narradora, era crescente. Ouvi algumas críticas quanto ao tamanho do livro e que poderia ser mais trabalhado algumas questões. Todavia, acredito que dentro do que foi proposto, a autora soube explorar muito bem o que pretendia.

A Retornada foi o livro enviado pela TAG Inéditos no mês de março, e ela teve como editora parceira a Faro Editorial. Donatella Di Pietrantonio, autora do livro, é uma dentista pediátrica e escritora, que vive em Penne na Itália, país cenário do livro. A autora escreve contos, fábulas, poemas e romances desde os nove anos. e A Retornada é o seu primeiro livro traduzido para o português.

Para aqueles que estão em busca de uma leitura um pouco mais breve, mas algo tocante e envolvente, acredito que A Retornada é uma excelente escolha. Além de provocar sentimentos conflitantes, a leitura nos proporciona alguns questionamentos interessantes. Fica a dica desse livrão!

  • L’Arminuta
  • Autor: Donatella Di Pietrantonio
  • Tradução: Mario Bresighello
  • Ano: 2019
  • Editora: Faro Editorial em Parceria com a TAG Inéditos
  • Páginas: 176

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11 Comentários

  • Isabela Carvalho
    29 julho, 2019

    Olá Izabela 😉
    Ainda não conhecia o livro e nem a autora, mas gostei da premissa e da sua resenha!
    Nem imagino como deve ser esse sentimento de ser “arrancada”da família que você conheceu a vida toda, e ter esse grande choque de realidade.
    Acredito que a protagonista tenha sofrido muito com isso, e fiquei bem curiosa para saber como a história dela termina.
    Bjos

  • ELIZETE SILVA
    26 julho, 2019

    Olá! É impossível imaginar o que essa menina sentiu ao ser retirada de um lugar que ela considerava seu lar, e ser transferida para uma família que em algum momento a rejeitou, afinal ela vivia com outras pessoas, e o pior, é essa grande diferença entre esses dois lares, enfim, fiquei bem curiosa para saber como ela vai conseguir enfrentar essa situação e acompanhar o seu crescimento, com certeza é um livro que vai para lista de desejados.

  • Rayssa Bonai
    20 julho, 2019

    Olá! Achei interessante o fato de que durante a leitura nos é permitido acompanhar o desenvolvimento da narradora na adolescência, que é de fato uma fase bem complicada, em que estamos lidando com muitas mudanças ao mesmo tempo e para a narradora a fase em que vive é mais complicada ainda por ter de aprender a se adaptar a sua família biológica.
    Quero muito conferir a amizade da narradora com a irmã Adriana.
    Ainda não conhecia a autora e espero que outros livros dela sejam lançados aqui no Brasil.
    Enfim, espero ter a oportunidade de fazer essa leitura, que parece envolvente e emocionante mesmo com menos páginas do que estamos habituados a ver.
    Obrigada pela indicação!
    Beijos! ♡

  • Lily Viana
    20 julho, 2019

    Olá!
    Não tinha conhecimento do livro mas ao ler a resenha fiquei bastante interessada pela leitura. A personagem passa por uma fase um pouco turbulenta, creio eu né, mas o menos que entendi. Fiquei interessada na leitura!

    Meu blog:
    Tempos Literários

  • Rayane B. de Sá
    18 julho, 2019

    Oiii ❤ Fico imaginando como deve ser difícil pra personagem ter sido rejeitada por ambas as mães, o trecho que ela fala que é órfã de duas mães é bem tocante e triste.
    A adolescência já é uma fase complicada por si só, são tantas mudanças ao mesmo tempo, tanta coisa nova pra lidar, com a rejeição de alguém que devia te amar e apoiar deve ser pior ainda.
    O que me acalenta é saber que ela encontra um refúgio na irmã, a situação ainda parece complicada, mas com alguém ao seu lado, parece mais fácil de enfrentar o mundo.
    Gostaria de saber o que fez ela ter de voltar a morar com a mãe biológica.
    Gostei da indicação, espero poder fazer essa leitura.
    Beijos ❤

  • Maria Alves
    17 julho, 2019

    Fiquei pensando sobre o motivo que levou a protagonista a ser devolvida para a família biológica, me gerou alguns questionamentos, deve ser uma leitura que mexe com as nossas emoções, pois se trata de família, achei legal as irmãs se darem bem. Imagino como deve ter ficado a cabeça dela, em uma fase que já é complicada por natureza e vem essa troca de família, espero que tenha uma explicação para isso, gostaria muito de poder conferir essa historia.

  • Aline Teixeira
    17 julho, 2019

    Olá Izabela!
    Gostei da indicação de uma autora italiana, fugindo um pouco doa autores americanos e britânicos que estamos acostumados. Achei a história bem emocionante e cheia de mistério, pois assim como a protagonista fiquei bem curiosa para saber o motivo de ela ter sido rejeitada pela família adotiva. O amadurecimento da personagem é sem dúvida o ponto alto da história, e achei muito bonita a relação com os irmãos.
    Beijos

  • Alison de Jesus
    15 julho, 2019

    Olá Izabela!
    Embora a obra careça de uma caracterização mais profunda para realmente cativar o leitor, os temas que são retratados não deixam a desejar, sendo que Di Pietrantonio fornece um excelente material para reflexão acerca de uma fase que é marcante e conflituosa. Acompanhar a jornada da protagonista em busca de sua identidade passa a ser cada vez mas urgente para o leitor, e no final é gratificante presenciar a evolução da protagonista.
    Beijos.

  • Nil Macedo
    14 julho, 2019

    Que interessante.
    Primeiro livro da autora chegando por aqui e já parece ser sensacional.
    Fico tentando imaginar a cabeça de uma adolescente que passe por essa situação. Sim, porque isso, com certeza acontece por aí. E não deve ser nada fácil.
    Um livro rápido, fácil, emocionante. Gosto disso, Vou procurar pra conferir.

    • Joi Cardoso
      23 julho, 2019

      Oi Nil, a TAG anda trazendo livros muitos interessantes com exclusividade, acho que a seleção deles junto as editoras está dando certo!

  • Angela Gabriel
    14 julho, 2019

    Confesso que não conhecia este livro e nem o nome da autora, mas pelo que li acima, ela não trata deste retornar a um lugar que deveria ser um lar,mas também apresentando todas as dúvidas, conflitos e na sua totalidade, uma mudança tão brusca. Nada fácil a alguém tão jovem ter que lidar com tudo isso, procurando não somente o amor da mãe, mas também o seu lugar na família e no mundo.
    Fiquei meio apreensiva com tudo do irmão, só de ler ali, pareceu meio forçado e nem sempre o resultado sai agradável.
    Mas sim, se tiver oportunidade, quero conferir!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel(O Vazio na Flor)