Quando Jack era apenas um jovem humano constituído por sangue, carne e ossos, a comunidade onde vivia enfrentou grande perigo e assombro. A fim de salvar seus parentes, amigos e vizinhos, Jack evoca e efetua uma negociação com um ser sobrenatural, habitante do Outro Mundo, o famoso chefe dos lanternas. Em troca da segurança de sua pequena vila, Jack passa por um processo de separação e transformação. Agora sua constituição é semelhante à de um esqueleto disfarçado, escondido por entre efeitos e magia que impedem outros seres de observarem sua verdadeira forma. Sua alma foi depositada em uma adorável e sorridente abóbora, que o acompanha e brilha fortemente, demonstrando que ali se encontra a alma de um humano. Sua função, por fim, é cuidar de encruzilhadas que liguem o mundo mortal ao Outro Mundo, evitando que humanos ultrapassem as barreiras ou que seres sobrenaturais se escondam por entre mortais.

Jack logo aprende os segredos e peculiaridades do ofício, conquistando não somente a confiança do Chefe dos Lanternas, mas também certa liberdade para proteger e cuidar da encruzilhada que lhe fora atribuída. Contudo, durante uma noite particularmente sombria, diversos seres sobrenaturais, dentre eles o líder do Outro Mundo, percebem a presença ou nascimento de uma poderosa bruxa nos arredores da encruzilhada de Jack.

Conhecendo algumas das nuances, injustiças e comportamentos questionáveis que permeiam o mundo sobrenatural, bem como algumas das perseguições comandadas pelo Senhor do Outro Mundo, Jack relata desconhecimento da existência de qualquer bruxa em sua encruzilhada, escondendo e se tornando uma espécie de protetor para a pequenina bruxinha Ember. Desta maneira o tempo passa e o evento é esquecido, os anos voam como folhas secas dispersadas pelo vento de outono e, agora com 17 anos, Ember sabe que algo ou alguém a protege desde pequena, desde o momento em que passou a viver com a tia e seus gatos na pequena cidade. Tendo desenvolvido e aprimorado seus poderes de forma autônoma, a bruxa chama a atenção de Jack e, após contatos confusos, conversas curiosas e algumas informações trocadas, muito mais do que iniciar uma espécie de amizade com o lanterna, também se vê curiosa para conhecer o Outro Lado.

Todos os planos para convencer Ember a permanecer no mundo mortal, todas as histórias sombrias que Jack selecionou e todos os perigos que planejava compartilhar desaparecem de sua mente quando, durante uma noite de comemorações, a bruxa desaparece do mundo humano e surge do outro lado da encruzilhada sem que qualquer ser tenha conhecimento do fato. Agora, com o intuito de proteger a jovem das garras do Senhor do Outro Mundo, Jack partirá em missão de resgate, descobrindo tramas e segredos que nunca imaginou permearem a trajetória e passado do mundo sobrenatural.


Com escrita simples e direta, detalhamento na medida certa, personagens cativantes e curiosos, além de um enredo razoavelmente conhecido pelos amantes de romances sobrenaturais, Colleen Houck nos conduz por entre eventos de uma aventura que, muito mais do que triângulos amorosos, primeiros amores e a luta por permanecer ao lado da pessoa que se ama, caracteriza-se também por tratar-se de uma narrativa divertida e leve. Embora o romance esteja presente, ainda que o casal principal seja facilmente reconhecido e, mesmo com as clássicas cenas de ciúme, competitividade masculina, afirmação da posição e liberdade feminina – algo que pode irritar pessoas desavisadas, ou leitores mais velhos – os sentimentos que permearam toda a minha experiência de leitura foram a diversão, a leveza e as risadas que surgiram ao observar alguns dos maiores clichês de obras do gênero.

Voltada ao público jovem e adolescente, a obra segue os preceitos e fundamentos esperados para sua construção. Ela está alinhada aos anseios e dúvidas juvenis, delineia o reconhecimento e frustrações do primeiro amor, apresenta ações precipitadas e inconsequentes, além de mensagens e reflexões importantes para o público ao qual se direciona. Contudo, ao realizar a leitura pouco me irritei com as atitudes impensadas da protagonista, com homens brigando e tendo ataques de ciúme perante uma mulher que sabem não possuir, com os pequenos deslizes que não perceberíamos e tanto nos encantariam se fossemos mais jovens. Talvez pelo tempo que não lia obras como essa, talvez por precisar de um momento de leveza em meio ao período de minha vida, talvez por possuir carinho pela autora, ou ainda, por ter verdadeiramente me conectado com todo o universo de vampiros, abóboras, bruxas e referências a clássicos do terror (coisa que amo), me vi muito mais encantada com esse universo que a cada dia me distancio mais e mais, rindo de atitudes e pensamentos que normalmente critico, do que me revoltando com os pequenos problemas e deslizes da trama.

Leitores de Colleen Houck sabem que a autora realiza diversas pesquisas antes de construir suas histórias, inserindo detalhes, curiosidades e informações ao longo de toda a trama. Porém, em A Chama de Ember a escritora se apresenta muito mais madura e confiante quando da interligação de suas pesquisas aos elementos da narrativa. Ao contrário do que observamos ao longo da famosa Saga do Tigre, onde as informações históricas e culturais surgiam por meio de pequenas palestras ofertadas por personagens específicos, aqui as curiosidades e referências aparecem de maneira sutil e completamente interligadas ao percurso da história.

O bacana na experiência de leitura é que os apaixonados por clássicas histórias de terror, ou aficionados pelas tradições do Halloween, receberão uma porção de referências diretas e indiretas relacionadas a todo este universo. Assim, adentramos em uma verdadeira busca por ligar os elementos da obra àqueles que tanto amamos, como a Ilha do Dr Moreau; Frankenstein; Drácula; a Lenda do Cavaleiro sem Cabeça; a criação de abóboras sorridentes, além de tantas outras inspirações que fundamentam esta história.

Contudo, apesar de todo o meu carinho para com a obra, além dos comentários delineados até o momento, considero importante destacar minha leve decepção perante o texto original, revisão da edição brasileira ou mesmo tradução do livro. Admito não ter identificado onde se encontra o problema, uma vez que não tive acesso ao conteúdo original e não saberia dizer se a responsabilidade deveria ser depositada nas mãos dos tradutores e revisores brasileiros ou dos revisores da própria Colleen Houck, porém, fato é que o livro apresenta uma quantidade absurda de palavras mal utilizadas e empregadas, além de repetição de palavras dentro de um mesmo parágrafo e, o pior de tudo, dentro de uma mesma frase. Cansei de observar a palavra “mas” utilizada de maneira equivocada, além de frases onde “bonito, bonito”, “preto, preto” e tantas outras palavras são repetidas.

No fim, A Chama de Ember encaixa-se nos padrões tão conhecidos e amados por leitores de romances sobrenaturais. Aqui encontramos a moça diferente, sonhadora e corajosa que enfrenta o mundo não apenas para estar do lado daquele que ama, mas também para descobrir seu verdadeiro lugar, sua vocação, quem ela realmente é. Aqui observamos os clássicos, e por vezes bobinhos, triângulos amorosos, os ataques de ciúme, as disputas entre homens que “precisam” conquistar a atenção da protagonista. Aqui encontramos desafios instigantes e até mesmo algumas reviravoltas interessantes, mas, principalmente, um livro cuja escrita e narrativa destinam-se a um público determinado que busca e vibra que este tipo de história.

Embora possa irritar leitores maduros – e no início verdadeiramente acreditei que iria me encaixar neste caso – a obra nos leva por uma jornada cativante, divertida e repleta de inspirações, além de delinear alguns dos elementos que tanto nos encantavam quando éramos mais novos. De qualquer maneira, o livro entretém, diverte, encanta e, mesmo que possua pequenos deslizes – algo que fui capaz de perdoar devido a meu estado de espírito e por se enquadrarem no esperado quando observamos o estilo de história – ainda se destaca como dica bacana para aqueles que procuram uma leitura de Halloween leve e livre de sustos.

  • The Lantern’s Ember
  • Autor: Colleen Houck
  • Tradução: Ana Ban
  • Ano: 2019
  • Editora: Arqueiro
  • Páginas: 336
  • Amazon

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