Ophélie não permitiu que os habitantes do Polo alterassem sua essência, suas crenças e princípios, contudo, após os desafios enfrentados ao longo de seu período de adaptação e, conhecendo algumas das principais intrigas e nuances que cercam a comunidade da Cidade Celeste, ela se percebe muito mais madura, corajosa e firme do que a moça atrapalhada que um dia se deixou encantar e espantar com as características do Polo. Embora os esforços direcionados a discussão de seu papel na corte transformem-se em verdadeiro pesadelo, uma vez que o confuso e misterioso espírito familiar Farouk preocupa-se apenas com seus próprios desejos e incógnitas, pouco a pouco o trabalho de vice contista será o último problema em sua lista.

“Chegou o momento em que a boneca não aguentou mais ser uma boneca. Ela não se sentia mais à vontade na prateleira. ”

Na medida em que o dia de seu casamento com Thorn se aproxima, muito mais do que preocupar-se com a chegada da família enxerida, descontente e amada, Ophélie irá deparar-se com uma série de desaparecimentos peculiares. Membros da corte da Cidade Celeste desaparecem sem deixar vestígios e, quanto mais investiga e reflete sobre os acontecimentos, mais Ophélie acredita na existência de uma intrínseca e curiosa ligação entre o livro de Farouk, os desaparecimentos e sua chegada à corte.

Assim, informações, detalhes, flashbacks, segredos e mentiras serão dispostos e conectados ao longo da trama de Desaparecidos em Luz da Lua para, não somente direcionar o leitor por entre os eventos misteriosos do segundo livro da série A Passa Espelhos, mas também demonstrar outros elementos e contextualizações dos personagens que nos acompanham, além do mundo que necessitamos tanto compreender!

Desaparecidos em Luz da Lua fundamenta-se em uma estratégia muito parecida com a empregada na construção de Os Noivos do Inverno. Aqui também observaremos um enredo inicial conhecido que se estenderá até a última página, porém, como no livro anterior, encontraremos ramificações e mistérios que ampliam a trama e direcionam o leitor por entre detalhes e acontecimentos inesperados, transformando a experiência de leitura em uma verdadeira atividade de desvendamento acerca do “para qual lado esta história pretende seguir”?

Por outro lado, a obra trabalha com dois aspectos que, quando da leitura de Os Noivos do Inverno, ou me decepcionaram ou me fizeram ansiar por mais detalhes e informações.

Aqui encontramos uma Ophélie madura, observadora, mais cautelosa e corajosa do que aquela figura confusa, impulsiva e atrapalhada apresentada ao longo do primeiro livro. Toda a minha frustração com a carência de senso autopreservação da personagem desapareceu com esse livro pois, todos os eventos, desafios e injustiças vivenciados permitiram que nossa personagem amadurecesse e descobrisse uma nova versão de si mesma. Embora ela seja, sim, a causa de alguns problemas e confusões, e mesmo que sua essência adorável permaneça intacta, é inegável o crescimento da personagem. Ophélie aprendeu a observar o mundo em que vive e tirar lições de seu entorno. Ela aprendeu a enfrentar os conflitos e injustiças da mesma forma com que evita criar dificuldades ou perigos para si mesma. Ela mudou e ao mesmo tempo continua a mesma e, por isso, me senti ainda mais encantada pela personagem, torcendo verdadeiramente por seu sucesso, e não que recebesse um choque de realidade ou deixasse de agir impulsivamente e sofresse tanto por isso.

O segundo elemento desta história trata-se da contextualização e aprofundamento do universo criado pela autora. Ao contrário do observado em Os Noivos do Inverno e, embora este ainda não seja o foco da narrativa, aqui encontraremos mais detalhes, segredos, flashbacks e elementos que remetem a formação das arcas, ao surgimento dos espíritos familiares, aos misteriosos livros e, principalmente, a formação e constituição deste universo. Christelle Dabos faz uso de uma estratégia que amo, utilizada por um dos meus autores de fantasia preferidos, Mark Lawrence. Ao construir sua história ela objetiva destacar as trajetórias de personagens, os mistérios e desafios que precisam enfrentar, mas, ao longo de cada acontecimento ela oferece pistas e detalhes relacionados ao contexto geral, aos fundamentos, passado e regras daquele mundo, assim, além de fisgar o leitor com seus personagens e campo de visão reduzido – uma vez que é focado em eventos palpáveis e diretamente ligados aos protagonistas – ela conquista por não demonstrar todos os detalhes e nos fazer ansiar por conhecer mais e mais deste mundo.

Assim, Desaparecidos em Luz da Lua trata-se de uma maravilhosa continuação. A obra supera as expectativas ao resolver “problemas” encontrados ao longo do primeiro livro, ao aprofundar-se em personagens e universo, ao construir mistérios instigantes e, principalmente, ao manter o mesmo nível de escrita e narrativa do primeiro volume. Quem se apaixonou por Noivos do Inverno definitivamente se apaixonará por este livro e, para aqueles que estavam na dúvida sobre ler ou não esta série, afirmo que vale a pena acompanhar as aventuras desta Passa Espelhos encantadora e atrapalhada!

Agora nos resta torcer para que o último livro da série não demore a ser publicado pois as promessas, expectativas e possibilidades são grandes e o desejo de descobrir como essa história termina só cresce!

  • Les Disparus du Clairedelune
  • Autor: Christelle Dabos
  • Tradução: Sofia Soter
  • Ano: 2019
  • Editora: Morro Branco
  • Páginas: 480
  • Amazon

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