Karen Reyes é uma garotinha de 10 anos viciada em histórias de terror que vive numa Chicago marcada pela intolerância, é 1960 e através do diário dessa personagem que acompanharemos a história por trás de um misterioso assassinato.

Anka Silverberg é a vizinha assassinada, uma sobrevivente do Holocausto, que nunca aparentou ser uma vizinha “normal” pois sempre se mostrou enigmática e traumatizada pelo seu passado. Quando decide investigar por conta própria o caso, Karen irá descobrir mais sobre a vida de Anka, de sua vinda ao Estados Unidos, seu casamento, seu passado obscuro e como, seu irmão Dezê parece ter uma pontinha em todo este acontecimento.

A narrativa se desenrola de forma progressiva, fazendo com que a trama, até então simples, ganhe complexidade e peso, tratando assuntos importantes da época. Ao mesmo tempo em que acompanhamos a versão de Karen como uma detetive determinada, ela irá apresentar sua rotina ao lado de sua família e as dificuldades que passam juntos, seu cotidiano na escola e as inseguranças que enfrenta logo nos seus primeiros passos para a vida adolescente. É através do seu vício em filmes B de horror e as revistinhas Medonha, Pavor e tantas outras que lê, que Karen encontra uma fuga da realidade e são seus desenhos que acompanharão o leitor até o final.

Os personagens de Minha Coisa Favorita é Monstro são fascinantes, um personagem é mais intrigante que o outro, começando pela narradora que se apresenta para o leitor como uma lobismoça fofa, que vê nesta sua versão uma forma de acabar com todos seus problemas. Dezê também é um personagem peculiar, logo percebemos que ele é assombrado por suas escolhas e decisões. Mas é Anka que a meu ver rouba a cena, a retratação dos horrores que viveu quando mais nova são reservadas para a parte da leitura mais densa da história.

Amei a forma como Ferris sabe transmitir os sentimentos dos seus personagens, de revelar a maturidade que Karen precisou aprender como modo de sobrevivência, mas sem descaracteriza-la como uma criança curiosa e sonhadora. Da forma como apresenta a relação de Karen com Dezê que é mantida através da arte e de suas visitas aos museus da cidade. É ele quem motiva Karen a continuar contando esta história extraindo seus sentimentos para as páginas. Falando mais sobre os personagens secundários, todos me pareceram humanos, com falhas reais e passíveis de identificação. Analisando tudo que absorvi, este é o tipo leitura que você percebe a dor e o amor caminhando lado a lado.

Emil Ferris levou 10 anos para concluir Minha Coisa Favorita é Monstro e sua arte é toda em caneta esferográfica. A Companhia das Letras dividiu a graphic novel em duas partes, então, é torcer para que não demore muito para que eles tragam este quadrinho para cá. Vale ressaltar o trabalho incrível de diagramação e tratamento de imagem da edição (Américo Freiria e Jéssica Freiria), não foi um trabalho fácil visto que todas as capas de revistas que aparecem aqui precisaram ser traduzidas também em suas artes finais.

Enfim, pegar esta graphic novel nas mãos é uma experiência e tanto, extremamente bela e rica. Nunca li e vi um trabalho tão lindo com um enredo tão original e que flerta por diversos gêneros. Aqui somos apresentados a monstros reais e aqueles ilustrados por Karen. Narrado pela perspectiva de uma garotinha de 10 anos em seu diário, o enredo choca por não retratar diretamente o que quer retratar, mas toda a mensagem sobre diversos tipos de violência e preconceito estão lá, e seu impacto no cenário político de 1960 revela que o verdadeiro terror que Karen vive não está apenas em seus quadrinhos.

Não sei se esta resenha faz jus a perfeição que é este quadrinho e nem sei se consegui falar sobre tudo que ele fala e transmite. Vale todo o investimento para você tê-la em sua estante, esta é uma graphic que abordará vários temas, cabe você percebe-las e entender o quão belo é cada linha deste trabalho.

  • My Favorite Thing Is Monsters
  • Autor: Emil Ferris
  • Tradução: Érico Assis
  • Ano: 2019
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 416
  • Amazon

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