Em 2015, após finalizar a releitura da famosa história em quadrinhos Watchmen, leitura que refiz com o intuito de devidamente apresentar um dos meus quadrinhos preferidos da vida aos leitores do Estante Diagonal, não imaginava que, anos no futuro, receberíamos a notícia de que uma série inspirada na HQ estava a caminho. Com personagens icônicos, narrativas paralelas que podem ou não fazer sentido para o leitor ao virar a última página, algumas críticas interessantes perante o mundo dos super-heróis, além de comentários e cenas que expressam o humor e pensamentos de uma época, Watchmen conquistou o coração de uma infinidade de apaixonados por quadrinhos, e até mesmo de leitores que pouco conheciam a diversidade maravilhosa de todo este universo.

Confira a resenha de Watchmen

A narrativa pensada por Alan Moore e Dave Gibbons fora adaptada para o cinema em 2009 por Zack Snyder, quem juntamente à roteiristas, produtores, figurinistas e uma porção considerável de profissionais, seguiu fielmente os direcionamentos do material original e ofereceu ao público o que considero um ótimo tributo para uma HQ clássica. Contudo, em 2019 a HBO anuncia o lançamento de um seriado inspirado no mesmo universo e, conforme as semanas e meses transcorrem, descobrimos que desta vez não retornaremos aos icônicos personagens, aos antigos mistérios e interessantes enredos. Agora receberemos a oportunidade de imaginar quais seriam as consequências dos eventos finais de Watchmen e compreender como este mundo que tanto amamos se fundamentaria dentro de um contexto atual.

Deste modo, episódio após episódio, acompanhamos uma história que se assemelha muitíssimo, no quesito profundidade, complexidade e necessidade de atenção e interpretação, a minha querida Westworld e, ressalto este detalhe pois, dentre tantos outros, trata-se de algo que pode ou não atrapalhar e confundir aqueles que ainda não tiveram a chance de assistir as duas séries. Watchmen não é simples, embora algumas críticas sociopolíticas sejam diretas e claras. Como o material que lhe serve de inspiração, encontra-se repleto de debates e inter-relações para com os mais variados aspectos e acontecimentos da sociedade real. Você não será capaz de compreender todo o enredo, todas as motivações de personagens, todas as ligações entre a HQ e o seriado logo no primeiro episódio, e nem mesmo no quarto, mas os mistérios e falta de respostas são tão interessantes que vale a pena acompanhar a produção.

Anos após o evento ou atentado planejado e concretizado por Adrian Veidt, milionário famoso e homem mais inteligente do planeta, as pessoas enfrentam os traumas, teorias da conspiração e decorrências da lula gigante alienígena que matou milhões em Nova Iorque. Com o desaparecimento de Ozymandias – nome utilizado por Veidt em seus momentos fantasiado como herói – a sociedade segue seu rumo, enfrenta novos desafios, esquece eventos importantes do passado e se depara com novas realidades.

Quando diversos policiais são mortos em suas próprias casas por homens fantasiados com máscaras de Rorschach, os governantes de Tulsa, cidade pertencente ao estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, respondem com uma lei inusitada e, como descobriremos ao longo do seriado, verdadeiramente tendenciosa. Agora todo e qualquer integrante da força policial deve utilizar uma máscara para proteger sua identidade. Partindo deste contexto inicial, seremos apresentados à Irmã Noite, nome escolhido por Ângela Abar quando utiliza seu uniforme e distintivo de policial. A policial foi uma das sobreviventes do atentado da 13° Cavalaria, nome escolhido por supremacistas brancos que desvirtuam o diário de Rorschach – personagem presente na história original – e utilizam máscaras inspiradas. Mãe de três filhos, esposa dedicada, policial de renome e um dos destaques do seriado, a personagem é o link essencial para o grande mistério da série, interligando assim eventos do passado, escolhas do presente e possibilidades de futuro no momento exato em que encontra o corpo do então chefe de polícia de Tulsa.

Deste ponto em diante conheceremos as motivações e passado de personagens específicos, acompanharemos os caminhos trilhados por nomes importantes para a narrativa original de Watchmen, observaremos preciosas críticas sociopolíticas, seremos forçados a criar teorias e interpretar ações, atiraremos todas as certezas pela janela e seremos surpreendidos com respostas curiosas. Possivelmente acertaremos algumas resoluções importantes para a primeira temporada e, como se não bastasse, receberemos um verdadeiro quebra cabeças onde cada personagem, cada evento, cada cena torna-se peça importante para o desfecho da história!

Com uma narrativa belamente construída, o seriado vai além do entretenimento e da promoção de discussões acerca dos possíveis direcionamentos e mistérios da história. Como a obra que lhe deu origem, Watchmen debate a utilização da máscara, reflete sobre as pessoas e ideais que existem por trás das fantasias ou discursos, coloca em cheque a ética e moralidade dos famosos “super-heróis”. Contudo, a série oferece também uma infinidade de relações com nossa sociedade, partindo desde questões raciais e o preconceito infiltrado por entre as fundações de todas as nossas instituições até o machismo exacerbado, os pensamentos hegemônicos e irracionais, a forma como extremistas parecem ascender enquanto a racionalidade afunda.

Embora os cenários fascinem o espectador, o figurino encante com seus detalhes e, não me surpreenderia ao encontrar várias Irmãs Silenciosas por aí no próximo Halloween, existe uma falha que considero absurda e imperdoável em toda a questão visual e de efeitos especiais da série. Com apenas um piscar de olhos o espectador percebe a pintura azul do pobre Dr. Manhattan, percebe a falta de cuidado para com a representação de um dos personagens mais icônicos e poderosos do universo de Watchmen. Para os fãs a decepção é ainda maior pois não somente a imagem do Manhattan é estranha e confusa, mas tudo o que o personagem é, tudo o que ele faz, todos os seus poderes tudo o que o faz ser ele mesmo está fora do lugar, como se algo estivesse faltando, como se neste ponto o material original não fosse capaz de oferecer embasamento suficiente quando, em verdade, oferece. Famosa por nos oferecer Game of Thrones e Westworld, e toda uma qualidade de efeitos especiais e cuidado visual, é vergonhoso o que a HBO fez com o pobre Doutor Manhattan!

Se ignorarmos, porém, o triste Manhattan, Watchmen é uma série primorosa. Seu elenco de peso não decepciona em momento algum e os destaques vão para a maravilhosa, corajosa e verdadeira kick ass Regina King, para Jeremy Irons e seu curioso, intrigante e até mesmo simpático Adrian Veidt e, não poderia deixar de ressaltar, para a irritante, um tanto quanto diferente do que esperava e incrível Laurie Blake de Jean Smart. Seus mistérios se estendem por toda a primeira temporada e prendem a atenção do espectador. Suas críticas e debates são importantíssimos para o momento em que vivemos, porém, em momento algum parecem desconectados da narrativa. Aqui narrativa, personagens, reflexões, trilha sonora e figurino se interligam perfeitamente, construindo uma série interessante e inteligente, curiosa e peculiar.

Para os apaixonados pela famosa história em quadrinhos afirmo que vale a pena conferir o que Damon Lindelof e Dave Gibbons prepararam, ainda que alguns pontos – como a mudança de Laurie, a forma como desvirtuaram Rorschach, o sumiço do Coruja e o azulão – estejam um tanto questionáveis ou decepcionantes. Para os curiosos indico que, se você gostou da profundidade, complexidade, por vezes confusão e inteligência de Westworld, provavelmente também irá gostar de Watchmen. Mas, caso apenas queira algo novo para conferir, indico de novo o seriado, pois meu amor por Watchmen não me permite fazer menos que isso.

  • Watchmen
  • Lançamento: 2019
  • Criado por: Damon Lindelof
  • Com: Regina King, Yahya Abdul-Mateen II, Tom Mison
  • Gênero: Ação, Mistério, Drama
  • Duração: 9 episdódios – 60 minutos

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