Confesso não possuir conhecimento aprofundado sobre o mercado ou indústria cinematográfica a ponto de afirmar o que estou prestes a afirmar, mas acredito que podemos classificar O Planeta dos Macacos como um daqueles clássicos exemplos de adaptações que, muito mais do que produzir retorno financeiro e encantar uma geração de aficionados por ficção científica, também acabou por ofuscar a existência da história que lhe deu origem.

Lançado em 1968, o filme O Planeta dos Macacos logo se transformou em sucesso de bilheteria, arrebatando uma legião de fãs que se maravilharam na mesma medida em que se assombraram com os cenários daquele mundo dominado por nossos parentes distantes. Entre camisetas e convenções, entre debates acalorados e entrevistas com atores, entre o lançamento de novos títulos e o avanço da tecnologia cinematográfica, o tempo passou, e pouco a pouco aquele filme sobre macacos e seres humanos foi se enquadrando nos moldes do que poderíamos reconhecer como um verdadeiro clássico. Logo os fãs cresceram, amadureceram, construíram carreiras, formaram famílias. Mas aquele sentimento nostálgico, aquele carinho pela história curiosa e instigante nunca passou, nunca morreu. Enquanto mantinham viva a paixão por todos estes mundos encantadores e inusitados da ficção científica e da distopia, estes fãs apaixonados começaram a transmitir e cultivar o apreço pelos gêneros em seus filhos e filhas. E, é justamente desta geração que surge a pessoa que hoje escreve e revisa este texto.

Ao realizar esta experiência de olhar retrospectivo e compartilhar com vocês minha trajetória juntamente à ficção científica e distopia, não surpreende perceber que a garotinha que cresceu assistindo Star Wars, O Planeta dos Macacos, E.T e Matrix tenha reservado espaço especial para os gêneros em seu coração. Poderíamos destacar estes filmes como alguns dos principais responsáveis por permitir que, anos e anos no futuro, a garotinha se transformasse em orgulhosa estudante e pesquisadora de ficção científica distópica que defendeu uma dissertação de mestrado sobre o tema e, atualmente, se esforça para publicar artigos acadêmicos com o entusiasmo e da mesma maneira com que compartilha suas reflexões e análises das histórias que tanto ama ler. Embora o percurso inicial tenha favorecido a aquisição de todo o conhecimento que possuo, admito que ainda existem uma porção infinita de obras, detalhes e características que preciso descobrir, aprender, incorporar e compartilhar. Confesso também, com certa vergonha, que durante grande parte de minha vida acreditei que O Planeta dos Macacos se tratava de um filme, e um filme somente. Por isso, imaginem minha surpresa e admiração quando, quatro ou cinco anos atrás, me deparo com a informação de que, antes de um clássico do cinema de ficção científica, O Planeta dos Macacos é um clássico da literatura de ficção científica distópica.

Publicado em 1963 na França, a obra de Pierre Boulle delineia o relato, os desafios, aventuras e infortúnios de um astronauta desconhecido, um verdadeiro fugitivo, um membro desgarrado de espécie misteriosa. Ao longo de cada memória, acontecimento vivenciado e comentário depositado nas páginas de uma mensagem transportada pelo espaço sideral, descobriremos como um astronauta humano, pertencente a uma missão de estudos e exploração do espaço profundo, acabou sendo capturado, encarcerado, testado e negligenciado por uma sociedade de macacos que, surpreendentemente, assemelham-se muito mais àquilo que consideramos humano do que os próprios membros da espécie humana.

Neste universo fictício de situações inusitadas e perfeita inversão de papéis, acompanhamos a equipe de pesquisas de nosso protagonista, observamos quando se deparam com um planeta misterioso, quando optam por aterrissar em solo desconhecido e quando, em meio à descrença e choque, assimilam o fato de que naquele universo os humanos não passam de animais selvagens de inteligência primitiva enquanto os macacos classificam-se como os animais cujo distanciamento do meio natural possibilitou a consolidação de uma sociedade “civilizada”, científica e tecnológica. Ali os macacos caçam humanos sem remorso, eliminam espécimes com o intuito de se divertirem e vibrarem ao acompanhar o percurso das balas que perfuram corpos, derramam sangue e extinguem a vida de seres “inferiores”. O desprezo da espécie símia é tanto que, para além das caçadas, eles também recolhem espécimes vivos a fim de efetivar testes que comprovem não somente sua inteligência “superior”, mas que também garantam o fortalecimento da hegemonia da espécie.

É neste contexto que nosso estudioso astronauta e personagem principal se encontra. É também no momento exato de sua captura que cada elemento da trama, cada evento, diálogo, detalhe ou decisão delineada por autor, personagens ou ambientação transforma-se em oportunidade de reflexão e crítica da realidade. Na medida em que observamos os contornos reais desta sociedade fictícia e absorvemos as nuances de um mundo que tanto nos surpreende e assombra, compreendemos que O Planeta dos Macacos não se trata apenas de uma história sobre viagens espaciais que trouxeram consequências inesperadas. Esta obra, como tantas antes dela e diversas outras que ainda virão, se aproveita de uma aventura fantástica, da construção de um mundo distópico e das mais incríveis e apaixonantes características da ficção científica para direcionar o olhar e a mente do leitor para possibilidades de reflexão e crítica.

Na inversão de papéis, nesta ideia maravilhosa de imaginar macacos como humanos e humanos como macacos, Pierre Boulle delimita a atmosfera ideal para debater, refletir e criticar nossas ações enquanto espécie, sociedade e indivíduos.

Com a expansão humana por entre os mais variados territórios e climas, o promissor avanço da ciência e tecnologia, o derradeiro distanciamento do meio natural e toda a alteração de crenças místicas e folclóricas para as racionalidades hegemônicas vigentes, passamos, enquanto espécie e sociedade, a acreditar que não somente não poderíamos classificarmo-nos como animal, como nossa inteligência e saberes também nos diferenciavam de todo e qualquer ser vivente no planeta. Deste modo nos tornamos ignorantes, egoístas, egocêntricos, indiferentes ao meio natural. Logo, passamos a cometer as maiores atrocidades em busca de um progresso imensurável. Incentivamos pelo mercado e indústria, pela ciência e tecnologia, pelas modificações na cultura e distanciamento da humanidade primitiva, passamos a trancafiar outros seres a fim de realizar experimentos, “produzir” alimento, comprovar nossas teses e teorias, validar nossa inteligência, além de negar os sentimentos, sensações e inteligência de todo e qualquer ser vivo que não o humano.

Agora, caso sua habilidade imaginativa perceba-se afiada, imagine que tudo o que descrevi, que todos estes comportamentos, ações e escolhas com as quais facilmente nos acostumamos graças a história, se tornaram “normais”, se transformaram em norma, mas não são mais efetivados pelos seres humanos e sim por macacos! Agora são eles que nos matam, que nos prendem em jaulas, que realizam testes e ignoram nossas necessidades, nossas dores e sentimentos.

Se o processo de imaginar este cenário foi, no mínimo, desconfortável, encontramos a oportunidade perfeita para o debate, para a reflexão e a crítica. E é desta forma que “quebramos o código”, que descobrimos o segredo, que encontramos a estratégia de O Planeta dos Macacos. Trata-se de uma brincadeira formidável e maravilhosamente bem estruturada de posicionar personagem e leitor do outro lado do processo de ação, permitindo que sintam na pele ou na mente aquilo que sujeitamos inúmeros seres todos os dias, seja no comércio, na indústria ou no âmbito científico e experimental. E o mais interessante neste estratagema todo é o fato de que, em momento algum – ou talvez apenas em pequenos e preciosos momentos – o autor toma partido acerca da inversão de papéis. No fim, cabe ao leitor pensar, repensar, imaginar, refletir e sentir se vale a pena iniciar um processo de mudança de pensamento ou mesmo de desconstrução de crenças. Mas as possibilidades estão ali, depositadas ao longo das páginas de um dos maiores clássicos da ficção científica francesa.

O Planeta dos Macacos, antes de tornar-se uma obra que carrego com o maior carinho no coração e que indico com o mais profundo respeito, foi um filme peculiar que marcou minha infância, minha jornada enquanto pequena padawan. É difícil não confundir os contextos e ambientações, não imaginar os macacos do filme nas cenas e situações do livro. É complicado não realizar comparações, não me indagar como, por tanto tempo, permaneci ignorante da existência desta obra que continha todos os elementos necessários para se transformar em verdadeira favorita! Mas o bacana desta vida de leitor é descobrir coisas novas, é descobrir livros que até então simplesmente não existiam … em nossas mentes. E talvez o momento em que estes livros surgem em nossas vidas sejam exatamente os momentos em que realmente precisávamos deles, ou em que efetivamente estávamos preparados para a leitura.

No fim, tudo o que posso dizer é que, se este livro está aparecendo na sua frente pela primeira vez, aproveite a oportunidade para conhecê-lo um pouquinho mais. Se já conhecia a obra e nunca realizou a leitura, aproveite a oportunidade para abrir a primeira página e descobrir os segredos deste mundo que tanto nos oferece. Sempre acreditei que um dos maiores defeitos da humanidade enquanto espécie e comunidade histórica é a habilidade de não olhar para o outro e imaginar futuros e cenários possíveis e impossíveis… se mais de nós ousássemos receber as mensagens de obras como essas, talvez não estivéssemos aqui hoje. Mas sempre existe espaço para dar o primeiro passo… por esse motivo, te convido a iniciar essa jornada por meio deste livro!

  • La Planète des Singes
  • Autor: Pierre Boulle
  • Tradução: André Telles
  • Ano: 2015
  • Editora: Aleph
  • Páginas: 216
  • Amazon

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