Após a Segunda Guerra Mundial o mundo se viu dividido entre duas potências. De um lado os Estados Unidos com o capitalismo e a promessa da vida perfeita que atraiu sobreviventes da guerra e inúmeros imigrantes para o solo americano; do outro, a União Soviética com o comunismo e a ameaça constante dos terríveis gulags, campos de trabalho forçado para os inimigos do Estado.

No meio desse jogo de xadrez entre os dois hemisférios, temos na história desenvolvida por Lara Prescott, baseada em uma missão real da CIA, conhecida naquela época como a Agência, duas vozes que se destacam das demais; duas mulheres em tempos diferentes que pareciam não possuir nada em comum, exceto os seus próprios segredos.

Muito mais que um romance sobre a Guerra Fria, em Os Segredos que Guardamos descobriremos o verdadeiro poder de um livro, sua capacidade de incomodar, questionar, divertir e apaixonar serão postas à prova quando se chocam com o nítido “não” do Estado que não permitia divergências de pensamento. Quando algo tão forte quanto a verdade precisa ser dita, mesmo sob ameaças constantes, você se calaria ou arriscaria tudo pelo que é certo?

Publicado inicialmente para os assinantes do Clube Intrínsecos da Intrínseca em 2019, o livro ganhou sua edição em brochura no início desse 2020 e, como boa entusiasta de histórias de espionagem e guerra, a curiosidade por este logo veio e eis que a leitura me surpreendeu bastante.

De uma forma genérica, o livro se divide em duas visões: uma no Oriente, abrangendo a União Soviética durante os anos 1949-1961 trazendo Olga Ivinskaia e as respectivas experiências que fizeram este livro valer muito a pena; e a outra no Ocidente, focando os Estados Unidos e A Agência durante os anos 1956-1959 com a descendente de russos Irina e outras mulheres que eram “meras datilógrafas” da CIA. De forma abrangente, o livro traz facetas e acontecimentos que vão se desenrolando a cada novo capítulo, de maneiras imaginadas e outras bastante inesperadas.

Dedos rápidos guardam segredos” era o lema não oficial do setor de datilografia.

Aparentando dois opostos, tanto pelos anos divergirem quanto por haver todo o Oceano Pacífico Norte e outras nações entre as duas narrativas, o que une as duas histórias não são apenas os segredos das partes, ou a presença feminina constante que lutava contra os costumes da época, mas sim um determinado livro chamado Doutor Jivago do soviético Boris Pasternak que, além de revoluções, falava sobretudo do amor de um homem por uma mulher.

O processo de pesquisa da autora se mostra exemplar e foi esse embasamento nos fatos históricos e a forma de escrita da mesma – um estilo que lembra diário ou relato jornalístico, com humor, sarcasmo e doses imersivas da cruel realidade da época – foi o que me fizeram mergulhar de cabeça nas páginas, ou ao menos, em grande parte delas visto que os capítulos que traziam todo o drama soviético vivenciado por Olga foi o que mais me atraiu, sendo melhor construído e desenvolvido que a parte ocidental da história.

Nesta última, temos o serviço de espionagem americano retratado com louvor em sua fase pós Segunda Guerra Mundial onde a OSS vai se tornando aos poucos a Agência ou CIA; apesar de sua composição masculina, a autora escolhe priorizar a presença feminina mostrando as diferenças de tratamento e outros pormenores que, durante a Guerra, eram mais bem quistos nas espiãs que após seu término, delegando muitas delas ao “simples” serviço de secretárias da Agência. “Simples” porque isso as tornou invisíveis, fazendo-as ver e ouvir tudo o que acontecia no departamento, seja sigiloso ou nem tanto. Apreciei bastante esse avanço que traz a ex-espiã da OSS e agora ativa da Agência, Sally Forrester treinando Irina, que é filha de imigrantes russos, para a missão que pode ter sido a mais importante daqueles anos. Ao mesmo tempo que o gostinho por espionagem é saciado, Prescott constrói os arredores das vidas daquelas mulheres dando camadas e tons, alguns além do esperado. Provavelmente um dos temas mais polêmicos e que, naquela época, era tratado pelo mundo como doença, questões sobre homossexualidade tivera uma presença marcante em grande parte destas páginas deslocando sutilmente a trama do ponto que nos é apresentada inicialmente.

Por outro lado, no Oriente com a narrativa de Olga, vemos de leve como o Estado soviético funcionava e como tratava aqueles que considerava antipatrióticos como a própria Ivinskaia que teve anos da sua vida roubados em um gulag, apenas por ser a amante – e musa – de Boris Pasternak, um dos maiores e mais renomados escritores da URSS; até flertar com caminhos tidos por revolucionários para Stálin e seus asseclas. A construção dessa parte do livro foi ainda mais primorosa que as demais, mostrando uma ideologia que nunca vivenciamos na pele e os dois efeitos da mesma, um para quem a seguia e outro para quem a rejeitava. Apesar dos grandes expurgos de Stálin, onde muitos de seus amigos artistas foram perseguidos, presos, torturados e mortos, Pasternak jamais abdicou de sua visão grandiosa do romance que acreditava – assim como a literatura em si – colocando constantemente sua vida e de seus amados em risco.

Mas não é isso que as grandes revoluções pedem? A força de caráter que resiste até o mais ferrenho punho de ferro. Contudo, até os mais fortes quebram um dia e, se não tivesse sido a missão hercúlea da CIA em inserir cirurgicamente na União Soviética o grande Doutor Jivago, sem dúvida os acontecimentos que se sucederam após o lançamento não teriam visto o raiar do dia. Ou assim a história nos leva a crer.

O primeiro memorando interno descrevia Jivago como “a obra literária mais herética de um autor soviético desde a morte de Stálin”, dizendo que tinha “grande valor propagandista” pela “exposição passiva, penetrante, dos efeitos que o sistema soviético tem na vida de um cidadão inteligente e sensível”. Em outras palavras, era perfeito.

Como uma montanha russa que irá tirar você da sua zona de conforto, Os Segredos que Guardamos é uma experiência marcante e que merece ser compartilhada por todos e para todos os leitores. Lara Prescott se mostra um às nesse romance de espionagem com ares históricos e de intenso teor jornalístico. Leia, releia e reflita sobre cada palavra. Mais que um livro sobre o poder do livro, ou que uma pungente história de amor, este exemplar possui aquilo que a democracia mais preza: o poder da liberdade e o que a falta dela pode fazer ao ser humano.

A obra que inspirou a pesquisa e escrita deste livro por Prescott rendeu o Nobel de Literatura ao escritor russo em 1958, contudo, Pasternak foi forçado a recusar o prêmio porque a União Soviética considerava o conteúdo do livro contrário a ideologia pregada pelo Estado. No mais, Os Segredos que Guardamos, além de abranger temas ditos polêmicos como a mulher no mercado de trabalho e a homossexualidade, faz seu papel maior em explicitar o poder da palavra escrita e sem dúvida ao ler este você desejará ter em mãos o quanto antes a dita arma da Agência contra o comunismo, a Magnum Opus de Boris Pasternak: Doutor Jivago.

  • The Secrets we Kept
  • Autor: Lara Prescott
  • Tradução: Alessandra Esteche
  • Ano: 2020
  • Editora: Intrínseca
  • Páginas: 368
  • Amazon

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