Quem acompanha minhas resenhas sabe o quanto eu amo literatura nórdica, principalmente a maneira como os escritores dos países do norte da Europa conseguem expressar em seus enredos toda a frieza de um povo e do próprio clima, transparecendo inclusive as dificuldades geográficas impostas ao lugar de onde são. E não há história mais incrível na literatura atual, principalmente aquela que fala de suspense, do que os livros escritos por Lars Kepler e eu vou explicar o porquê.

Lars Kepler não é uma pessoa e sim um casal, Alexander e Alexandra Ahndoril, nascidos na Suécia, já escreveram a quatro mãos muitos livros, dentre eles as história de um um detetive pra lá de complicado, chamado Joona Linna, um dos melhores detetives da atualidade, um mérito que vem pela qualidade de escrita do casal e não pela capacidade investigativa de Linna, já que até preso ele já foi.

E é desta prisão que se inicia o livro em questão, Joona está trancafiado na cadeia de Oslo, exatamente como terminou o livro Stalker, mas aparentemente a segurança mundial está em risco, um novo assassino em série ameaça o mundo, desde à Noruega até os Estados Unidos, e Joona pode ser uma peça chave para conseguir resolver mais este mistério.

O Caçador é mais um livro da série do detetive, porém, para mim, o motivo para buscarem Linna na cadeia foi o único ponto fraco da história. Convenhamos, é muito clichê que o personagem principal, preso ao final do último livro, precise sair da cadeia para ajudar na solução de um crime que assusta o mundo. Era óbvio que ele não iria ficar pra sempre preso, o máximo que poderia acontecer era ele se envolver em alguma investigação dentro da própria cadeia, mas ele também poderia fugir, virar um detetive procurado… imaginem que legal! Mas não, eles escolheram um jeito pouco criativo de tirar Linna da prisão.

De qualquer maneira o resto do enredo é muito bem amarrado e construído, mas, principalmente (e aqui vai toda a minha admiração pela forma como o casal escreve), o seu desenvolvimento é único.

Lars Kepler é sinônimo de desenvolvimento fluído e rápido, são poucos os parágrafos com mais de 5 ou 8 linhas, todos eles são curtos, o que inclusive ajuda muito com algumas cenas. O autores se utilizam da quebra de clima a todo momento, criando um suspense digno da troca de frames cinematográficos, ler Lars Kepler acaba se tornando assistir a um filme onde os frames demoram a passar e que a cada novo movimento de câmera você descobre uma nova informação, descobre algo que aumenta ainda mais o mistério da história. Este tipo de construção, obviamente, exige um maior número de páginas, então não se assuste ao ver os calhamaços que esta série possui, a leitura é rapidíssima e até mesmo o mais lento dos leitores vai conseguir avançar na leitura.

Um ponto que me chateou um pouco ao saber do livro foi o seu título nacional, o título original do livro é Kaninjägaren e a tradução é “O Caçador de Coelhos”, em inglês o título ficou “The Rabbit Hunter”, tradução literal do título norueguês. O fato de não ser um caçador qualquer, de ser um caçador de coelhos tem uma importância grande no livro, o coelho está presente em muitos momentos na história. Eu não sei o que pode ter pesado para a editora fazer essa mudança, será que teria menos leitores caso se chamasse “O Caçador de Coelho”? Ou será que pareceria um livro infantil e não um suspense nórdico super forte?

Agora, falando sobre aqueles motivos que fazem essa série ser tão marcante e que fizeram esta leitura ser tão boa pra mim, aqui vai um dos principais detalhes que eu procuro em um livro, mesmo de ficção: o teor histórico da obra, as informações reais que o autor consegue colocar entre as linhas da ficção. E quando estes detalhes estão ligados à brigas geopolíticas, falando de preconceitos e situações que realmente aterrorizam a população do lugar, eles dão um peso completamente diferente para a história toda.

Em O Caçador, o conflito entre noruegueses e albaneses está novamente presente e tem papel importante para o enredo. A história não explica toda briga entre os noruegueses contra os imigrantes, ou todo preconceito que existe nos países nórdicos contra albaneses, brigas que chegaram a causar problemas diplomáticos durante a copa da Rússia por exemplo, mas para quem sabe das peculiaridades geopolíticas locais. ter este elemento a mais no enredo se torna um grande presente.

O Caçador é o sexto livro da série do detetive Joona Linna, mais um detetive nórdico, com histórias repletas de ação, investigações muito bem traçadas e críveis, além de uma ambientação ótima, falando de cada ambiente onde as cenas ocorrerem. E como se isso já não bastasse para você dar uma chance ao casal de escritores, ainda existe seu desenvolvimento feroz, onde apesar de ter mais de 600 páginas ele consegue ser de leitura rápida, fácil e envolvente.

E você, já leu alguma coisa de Lars Kepler? Conhece algum escritor que na verdade sejam duas pessoas?

  • Kaninjägaren
  • Autor: Lars Kepler
  • Tradução: Renato Marques
  • Ano: 2020
  • Editora: Alfaguara
  • Páginas: 528
  • Amazon

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