Em meados do mês de outubro de 2015 me aventurei pelo mundo distópico, caótico e peculiarmente apocalíptico de A Menina que Tinha Dons. A escrita acessível, direta e verdadeiramente eletrizante de M.R. Carey me fisgou. O contexto daquela humanidade fictícia, tão próxima à nossa realidade, que enfrentava corajosa e polemicamente as consequências da evolução de um fungo mortal, conquistou espaço especial em minha mente e coração. A trajetória e desafios enfrentados pelos personagens desta história, imersos num ambiente perigoso, confuso e desmantelado, de alguma maneira marcou para sempre o imaginário desta leitora que pouco sabe sobre zumbis.

Costumava haver um mundo no qual as coisas faziam algum tipo de sentido, tinham algum tipo de permanência, mas a espécie humana acabou com esse mundo em algum lugar, deixou-o descuidadamente para trás, e agora ninguém consegue encontrá-lo ou reconstruí-lo.

Ainda que a narrativa de A Menina que Tinha Dons detalhasse um universo extraordinário onde a luta pela sobrevivência, a busca por uma cura e a degradação da espécie humana se interligavam aos problemas, necessidades, dores e anseios de indivíduos específicos, protagonistas de uma trama que, pouco a pouco, conectava-se aos eventos de um cenário amplo, não conseguia parar de sentir falta de algo. Apesar de esperançoso, o final aberto da obra esteve presente em meus pensamentos até o momento em que sento e escrevo esta resenha. Deixando para trás uma porção considerável de perguntas, muitos direcionamentos promissores e nenhuma certeza, me encontrei, vezes seguidas, elaborando possíveis desfechos… e foi assim que, cinco anos após finalizar a leitura de A Menina que Tinha Dons, descobri em O Menino na Ponte a continuação que não sabia que precisava!

Localizado aproximadamente 20 anos no futuro do universo caótico de A Menina que Tinha Dons, O Menino na Ponte acompanha a última esperança da humanidade, os últimos esforços dos sobreviventes daquele que, uma vez no passado, orgulhosamente delimitou-se como território da Inglaterra. Aqui seremos apresentados aos dez indivíduos que formam a equipe científica e militar de Rosalind Franklin, uma espécie híbrida de laboratório e tanque de guerra, construída para suportar e superar os mais inusitados desafios, os mais perigosos ataques de famintos e ainda possibilitar que seus cientistas realizem pesquisas em busca da cura para a infecção pelo fungo Cordyceps.

Entre paradas estratégicas para o recolhimento de espécimes e dados; informações acerca dos rumos tomados pela humanidade; romances, descontentamento e relações de amizade firmadas entre os tripulantes; contextualizações e aprofundamento de personagens, além de sugestivas informações acerca de traição, tomadas de poder e jogos de conspiração, nos aventuramos novamente pelo universo criado por M.R. Carey.

Na medida em que percebemos as nuances das relações entre os membros da equipe militar e científica, descobrindo seus segredos e as consequências destes para o sucesso ou fracasso da expedição, observamos também a formação de uma tênue conexão com os detalhes, informações e eventos transcorridos 20 anos atrás. Porém, quando a escapulida de Stephen Greaves – garoto de quinze anos, possivelmente autista e verdadeiro prodígio da química e biologia – resulta na formação de uma emboscada, na morte de um soldado, no embate entre a cadeia de poder militar, mas também na descoberta de algo que pode mudar o destino da humanidade, a tripulação de Rosalind Franklin se vê enfrentando inimigos desconhecidos e misteriosos, sabotagens e as forças de um mundo que não oferece mais qualquer chance ao que sobrou da espécie humana.

Da mesma maneira com que tantas outras histórias de zumbis realizaram, e do mesmo modo com que muitas outras ainda realizarão, O Menino na Ponte delineia um mundo em decadência dominado por forças incontroláveis, o qual escancara não apenas as limitações da espécie humana, mas também estabelece contextos cruéis, assombrosos e caóticos a fim de refletir sobre nossos instintos de sobrevivência, nossa necessidade de construir comunidades, nossas possíveis e divergentes essências e o que realmente significa ser humano… enquanto espécie e enquanto indivíduos. O surgimento e expansão da infecção pelo fungo Cordyceps são interessantes e curiosos, mas o que verdadeiramente prende o leitor e o faz virar página atrás de página são os espelhos voltados para quem somos aqui, no mundo real. São as traições que cometemos, os lados que escolhemos, os sonhos que buscamos alcançar, os objetivos que alteramos, os desafios superados e as mais peculiares características de nossas personalidades que transformam uma história de zumbis em algo mais, que transformam essa história de zumbis em algo mais.

O que chama a atenção, contudo, é a maneira sutil com que estes elementos e reflexões inserem-se na trama. A escrita instigante, detalhada na medida certa, direta e acessível de M.R. Carey fisga o leitor, conduzindo-o por entre acontecimentos eletrizantes, perseguições incansáveis, embates entre personagens e uma porção considerável de inconvenientes que transformam a história, mas também a expedição de Rosalind Franklin, em verdadeiro filme de ação. Do início ao fim do livro observamos eventos inesperados, escolhas que dão errado, consequências terríveis e, a cada página virada, precisamos saber como tudo se resolverá. A história não oferece trégua e, em meio a tanta coisa acontecendo, encontramos as reflexões e, até mesmo críticas, que fazem a leitura valer ainda mais a pena.

Ainda que todos os meus apontamentos sejam positivos e carregados de um carinho que cresceu muito após a leitura deste livro, devo confessar que foi somente com a chegada do desfecho que consegui acalmar e solucionar meus sentimentos conflitantes com relação ao primeiro livro. Foi somente com o final que senti que aquilo que faltava em A Menina que Tinha Dons finalmente se encaixou, finalmente se encontrou. Não serei aquela que oferecerá a informação final para vocês, queridos leitores, ressalto apenas que as informações que tanto necessitávamos, que tanto buscávamos e imaginávamos, finalmente aparece em O Menino na Ponte. E puxa, como foi maravilhoso descobrir que, assim como tanto sonhamos, tudo pode, de uma maneira ou de outra, acabar bem!

O Menino na Ponte é a continuação que muitos de nós ansiávamos, que muitos leitores desejavam, que muitos ainda não sabiam que precisavam. Ao apresentar uma nova história para o universo de A Menina que Tinha Dons, M.R. Carey oferece respostas, finaliza narrativas e amplia um mundo extraordinário, assombroso, caótico e curiosamente similar ao nosso. Trata-se de uma espécie de presente para aqueles que não se contentaram com o final de A Menina que Tinha Dons, mas também de uma indicação bacana para todos os leitores apaixonados por zumbis.

  • The Boy on the Bridge
  • Autor: M.R. Carey
  • Tradução: Edmundo Barreiros
  • Ano: 2020
  • Editora: Fábrica 231
  • Páginas: 379
  • Amazon

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