Rana fez muitas escolhas consideradas péssimas ao lado da vida, e após desligar o celular ela tem certeza absoluta que poderia ganhar um prêmio de maior encrenqueira do ano. Uma tacinha de vinho não deveria ter feito ela perder o controle dessa forma, e ok, talvez não fosse uma taça e sim uma garrafa inteira, mas quem se importa com a quantidade? Ela acabou de ligar bêbada para Landon Roderick e ainda por cima jogou umas boas verdades na cara dele. Ela só não estava pensando muito bem quando fez isso afinal eles não se falam há treze anos. Ela se lembra do garotinho de cabelo loiro que costumava implicar com ela por meio de bilhetes engraçados. Mas aquele homem de voz sexy do outro lado da linha não se parece nada com o Landon que Rana conheceu.

Foi um impulso tolo e ela nem tem certeza por qual motivo fez isso e entende menos ainda quando Landon retorna sua ligação no outro dia e parece querer recuperar todo o tempo perdido. Ao longo dos dias essas ligações se tornam parte de sua rotina e desligar a chamada fica cada vez mais difícil. Quando seu coração começa a implorar por mais e seu corpo anseia por diminuir a distância entre eles Rana se pergunta se alguma relação suportará todos os segredos que ela guarda a sete chaves. E quanto mais ela conhece esse novo Landon, mais ela tem certeza que quer fazer parte da vida dele. No entanto, o que começa com uma simples ligação pode virar a vida de ambos de cabeça para baixo. Enquanto vivem uma aventura romântica, eles aprenderão mais sobre perdão e recomeços.

A leitura desse livro me colocou em uma montanha-russa de emoções, e eu poderia dividir essa percepção em dois grandes momentos: os capítulos iniciais, e o desfecho da trama. Gostaria de apresentar essa resenha da mesma forma, mas eu estava muito frustrada com a primeira metade da obra, e o texto abaixo possui um tom crítico o suficiente para fazer você desistir da leitura. E isso definitivamente não é algo que eu queira já que a segunda metade do livro é simplesmente adorável e seria um crime fazer você perder essa experiência. Então eu só posso presumir que apesar de ter amado o rumo que a história tomou nas últimas páginas, o desenvolvimento da trama não sustentou esses dois universos tão incoerentes entre si. Em um primeiro momento Penelope Ward aposta em diálogos engraçados, cheios de piadinhas de duplo sentido para tornar a história de Landon e Rana sexy e fluida. No entanto falta complexidade nos personagens e o amor é tão instantâneo que não convence. Talvez na tentativa de tornar a trama mais ágil, Penelope tenha optado por não se aprofundar nas questões emocionais dos protagonistas logo de cara e isso tirou um pouco da riqueza do enredo.

Os personagens são como duas cascas vazias nas páginas iniciais do livro e em nada combinam com aqueles tão maduros do final. O problema é que não houve uma progressão nessa mudança. As questões dos personagens eram simplistas demais, fúteis até. As conversas por mensagens de texto e telefone duram apenas algumas páginas e nada do que era dito ali poderia ser considerado algo digno de fazer nascer um sentimento. O fato de eles se conhecerem na infância e isso ser resumido em algumas lembranças também não contribuiu para tornar o romance do casal verossímil. Dito isso, fiquei abismada quando apenas alguns capítulos depois encontramos Landon e Rana perdidamente apaixonados um pelo outro e dispostos a tudo para permanecerem juntos. Como faltou profundidade no desenrolar da relação, toda questão parecia girar em torno da tensão sexual existente entre eles. Um outro ponto que reforçou esse estereótipo de personagens com hormônios em ebulição foi a fixação de ambos na aparência física.

Eu estava apavorada com o que olhar pra ele fazia comigo. Pelo mesmo motivo, não queria admitir que minha apreensão tinha a ver apenas comigo, não com ele. Era complicado demais explicar por que eu tinha medo de revelar minha aparência para ele.

Rana, apesar de ter o corpo e o rosto perfeitos, não se sente digna de amor. Segundo ela, “não há cirurgia que cure uma alma quebrada.” Ela teme ser usada pela própria aparência e isso até que faz sentido se pararmos para pensar. Mas quando Landon vê uma foto dela e não cansa de mencionar o quanto a bunda dela é gostosa e ela se sente muito envolvida por isso, a teoria anterior perde um pouco a credibilidade. E isso ocorre o tempo todo na história. Um ponto sempre se contrapondo ao anterior. Aqui se pode fazer o uso do meme, ENFIM A HIPROCRISIA. É obvio que uma mulher quer e merece ser desejada, mas quando isso é a única coisa que um cara tem para falar de você, sinceramente, onde de fato está o amor? Tudo bem que Landon também cita muitas e muitas vezes o quanto Rana é engraçada e o quanto ele precisa dela para poder rir e relaxar, mas ela deveria ser o quê dele? Namorada ou rivotril? Esses detalhes aparentemente pequenos me deixaram bastante incomodada enquanto lia, eu não conseguia ignorar a sensação de que estava lendo apenas por ler. Mesmo sendo uma apaixonada por romances, procuro profundidades nas histórias de amor.

Um outro ponto bastante problemático e que e me saltou aos olhos diversas vezes foi o ciúmes sem fundamentos expressado pelo casal. Eu adoro uma ceninha de ciúmes clichê na literatura romântica, mas apenas quando ela é sutil e vem principalmente acompanhada de certa delicadeza inocente. Agora episódios grosseiros tais como foram apresentados aqui apenas me despertou o sinal de alerta: relação tóxica à vista!!! Rana tem ciúmes até do ar que Landon respira. Ela fala com ela após treze anos, e quando percebe que ele está acompanhado SENTE CIÚMES e expressa o questionamento mais cretino de todos os tempos: “por qual motivo o fato de ele estar acompanhado me incômoda?” Realmente né minha filha, o cara não é nada seu e vocês mal se conhecem! O contrário também ocorre quando Landon diz com ares de macho alfa que não quer ver Rana dançando com aquela fantasia “minúscula” para mais ninguém. Afinal ele é o “dono daqueles peitos”. (mais uma vez o foco é apenas na aparência física).

Você poderia ter o que quisesse de mim, mas está perdendo tempo se preocupando com alguém que eu comi uma década atrás, alguém em quem eu não pensava há anos até você mencioná-la. Enquanto isso, é só em você que eu penso, mesmo que eu não veja seu rosto há treze anos.

Em determinado ponto da trama parece que a autora decidiu ligar o interruptor das emoções e despejou nas páginas seguintes tudo o que faltou na primeira metade do livro. O enredo tomou ares de um bom drama familiar e foi impossível parar de ler. Em um caleidoscópio de acontecimentos e revelações conhecemos os segredos que Landon e Rana vinham escondendo um do outro até então.  Ao abordar parte do passado de Landon, a autora deixou uma margem para que o casal colocasse seu amor à prova e saísse daquela perspectiva puramente sexual. Ao se abrir e finalmente colocar seus verdadeiros sentimentos em um primeiro plano, o protagonista trouxe um pouco de ternura para o romance. Já o segredo de Rana é digno de ser chamado de plot twist. Foi surpreendente e o ponto alto da história; e sinceramente, fez a leitura  vale à penas apesar de tudo que mencionei até aqui. O episódio trouxe o amadurecimento necessário para a relação do casal e reforça que é preciso coragem para amar e o dobro dela para perdoar alguém.

O desfecho é lindo e de aquecer o coração. Fiquei deslumbrada quando virei a última página e não me arrependo de ter solicitado esse livro para resenhar. Outros personagens da história, embora caricatos em certos momentos, também são extremamente importantes para humanizar os protagonistas e tornar seu drama mais real. Admito que fiquei genuinamente triste em algumas passagens e impressionada com a capacidade que a autora teve para contar um relato cheio de tabus de forma tão singela como a vista aqui. E eu inda estou desacreditada que finalmente li um livro onde alguém precisa de terapia e realmente faz isso. Amém Penelope.  Nem toda dor se cura apenas com amor, ainda é necessário buscar ajuda profissional para aquelas dores e traumas com os quais você não consegue ligar. É de um respeito tão grande ver essa particularidade. A leitura é rápida, pode curar você de uma ressaca literária e ainda possui um final que é quase um presente, então encerro essa resenha recomendando mais um livro pra vocês.

  • Drunk Dial
  • Autor: Penelope Ward
  • Tradução: Isadora Sinay
  • Ano: 2020
  • Editora: Globo Livros
  • Páginas: 256
  • Amazon

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