O Afeganistão é um país que está sempre em guerra, acaba uma e começa a outra. Em 1992 com a renúncia do presidente comunista Mohammad Najibullah, várias facções queriam tomar o poder, e assim começou uma guerra civil no país. Essa luta pelo poder só terminou em 1996 com a chegada do Talibã, a organização extremista que assumiu o controle de mais da metade do Afeganistão, incluindo a própria capital, Cabul. Somente no final de 2001, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e derrubaram o Talibã do poder.

No meio de todas essas guerras, muitas pessoas perderam tudo, inclusive membros de sua família. Esse foi o caso da família de Nadia Ghulam, que teve sua casa bombardeada quando tinha apenas 9 anos. Ela ficou gravemente ferida, cheia de queimaduras pelo corpo todo e com seu rosto desfigurado. Após seis meses em coma e sem ninguém acreditar que ela sobreviveria, ela acordou para o que seria uma luta diária pela sobrevivência. 

Durante dois anos, Nadia passa por 8 cirurgias, muito tempo em hospitais, trocando curativos e tentando viver com sua família em um país devastado pela guerra. Até que seu irmão mais velho morre, e ela decide que a alternativa para ninguém em sua casa morrer de fome é trabalhar. Contudo, o Talibã proibiu as mulheres afegãs a trabalharem, então a única saída é se passar por menino.  Depois de colocar um turbante e ir para a zona rural de Cabul, Nadia volta pra casa como Zelmai, o nome de seu irmão morto, e com um emprego. Os anos que virão não serão fáceis para ela, mas ela está disposta a tudo pela sobrevivência de sua família. 

Mais limpas e de estômago cheio, falamos com o mulá e explicamos que estávamos procurando meu pai. Este era o sistema habitual quando éramos nômades, fugindo dos combates e nos separando e perdendo de vez em quando o rumo uns dos outros.

O mais impressionante nessa leitura para mim foi ver como as pessoas conseguem viver, já que elas não têm outra escolha, no meio de guerras, estupros, roubos, agressões, bombas, fome e tudo de mais horrível que conhecemos no mundo. Eu já tinha vista em jornais é claro o horror das guerras no Afeganistão, mas ler sobre isso parece que me despertou para essa realidade cruel.

Eu fiquei muito impressionada com tudo que Nadia fez enquanto foi Zelmai. Ela trabalhou, foi na mesquita, ajudou o Mula, foi até cozinheiro por um dia do Talibã. Ela não media esforços para levar dinheiro para casa para comprar comida. Sendo que teve uma época que ela somente jantava, para que ninguém em casa passasse fome. Tudo isso com apenas 13 anos. Crescer vivendo uma mentira e passando trabalho são coisas que ninguém deveria viver. Foi muito doloroso ver que nem mesmo para dormir Nadia tirava o turbante, pois seu medo de ser descoberta era tanto. 

Não podemos esquecer que como mulher, chegou o momento em que Nadia ficou menstruada e que seus seios começaram a crescer. Ela não sabia nada sobre as mudanças de seu corpo e teve que ser forte para lidar com tudo sozinha. Ela apertava com faixas os seios e sempre usava muitas roupas para esconder, até mesmo no calor. A relação de Nadia com sua família tinha altos e baixos, seu pai em muitos momentos era um homem agressivo e sua mãe falava muito pouco. Nadia acabou se transformando na líder de sua casa, decidindo a maioria das coisas. O mais impressionante de tudo é que ela nunca desistiu de seus sonhos, quando pôde fez curso de inglês gratuito e datilografia. Como menino, seus amigos também eram meninos, mas pelo menos eu fiquei feliz em ver que ela não era totalmente sozinha e tinha com quem brincar e conversar.

Durante quatro anos, ela trabalhou na mesma fazenda, sendo que nos últimos dois seu trabalho era cuidar de um poço. O que era bem perigoso e exaustivo. Felizmente em 2003, muitas ONGs estão instaladas em Cabul, e Nadia começa a trabalhar em uma delas. Depois que o Talibã perdeu o domínio do local, a vida da menina começa a voltar ao normal, e ela começa a voltar aos poucos a ser a antiga Nadia. Acompanhar esse processo, foi muito gratificante para mim, pois eu torcia muito por ela enquanto lia sua história. Esse processo não foi rápido e nem fácil, Nadia também passou por muitas situações difíceis nessa transição.  

Como a narrativa é bem focada na vida de Nádia, o contexto político não é muito explorado. Ficamos sabendo é claro o que estava acontecendo no Afeganistão na época, mas esse não é apresentado muito a fundo. Tem um momento inclusive quando a Al Qaeda e os Estados Unidos são citados em que ela deixa bem claro que ela e quase ninguém ali sabia o que uma coisa tinha a ver com a outra. Esse relato me impressionou pois eu pensei em como era óbvio o fato de que muitas pessoas não sabiam direito o que estava acontecendo em seu próprio país. Pois muitas eram humildes, não tinham rádio nem TV, já vinham de uma outra guerra civil e só tinham como preocupação sobreviver a tudo que acontecia. Pensar nisso e nessa realidade é muito assustador. 

Escrito por Agnès Rotger e narrado em primeira pessoa por Nadia, O Segredo do Meu Turbante é um relato incrível da luta pela sobrevivência de uma menina em meio a guerra. Um livro que revolta, emociona e que me transformou.

  • El Secret del meu turbant
  • Autor: Nadia Ghulam e Agnès Rotger
  • Tradução: Denise Schittine
  • Ano: 2020
  • Editora: Globo Livros
  • Páginas: 304
  • Amazon

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