A inquisição foi um grupo de instituições dentro do sistema jurídico da Igreja Católica Romana que tinha como objetivo combater a heresia, blasfémia, bruxaria e tudo que era considerado um desvio dentro das crenças da igreja. Com duração de quatro séculos, teve duas versões: a medieval, nos séculos XII e XIV, e a feroz Inquisição Moderna, concentrada em Portugal e Espanha, que durou do século XV ou XIX. A Caça as Bruxas começou no século XV, foi um período de perseguição às mulheres que supostamente possuíam poderes sobrenaturais, devido ao pacto que faziam com o demônio. Essas mulheres eram caçadas, presas, torturadas e enforcadas.

Já é muito absurdo pensar que tudo isso aconteceu, mas para mim ficou tudo ainda mais assustador quando eu descobri a existência de um manual que auxiliou na caça às bruxas, explicando inclusive como puni-las. O Martelo das Feiticeiras, ou Malleus Maleficarum, escrito por dois inquisidores, Heinrich Kramer e James Sprenger, fez esse papel durante quatro séculos. O livro foi um manual “perfeito” para os perseguidores da época.

Separado em três partes, O Martelo das Feiticeiras começa respondendo perguntas-chave que direcionam seus leitores na identificação das bruxas. Há muitas explicações: como elas agem, por que fazem isso, como o demônio age sobre elas e assim por diante. Já na segunda parte, há muitos exemplos de como bruxas foram identificadas e como agiram em diversos vilarejos. Elas são culpadas desde a plantação que não vingou à mulher que não engravida. A terceira e última parte está destinada aos julgamentos dessas mulheres que estavam em conluio com o demônio. Nada fica de fora, as explicações são detalhadas e há procedimentos para todos os tipos de desconfianças e certezas, sendo que para cada caso deve ser de determinada maneira. Uma mais cruel que a outra, é claro.

Eu comecei essa leitura sem saber o que eu ia encontrar, e por isso, conforme eu lia, mais eu ficava revoltada com o que encontrava. No final da leitura, eu sentia um misto de incredulidade e raiva. Pensar nas milhares de mulheres que foram condenas por fugirem dos padrões morais e religiosos da época e que por causa disso foram torturadas e enforcadas é revoltante. Fica muito claro, principalmente na parte dois, que muitas vezes elas eram acusadas por vingança e misoginia. Se a mulher da época mostrava algum tipo de conhecimento, era acusada de bruxaria. Se a vizinha não gostava dela, era acusada de bruxaria. Se o bebê ou a mãe morreu na hora do parto, a parteira era considerada bruxa. Os motivos são diversos e a igreja aceitava todos.

Todo o julgamento era baseado nas acusações e levava muito tempo. É claro que quem acusava era considerado o certo na situação, a mulher acusada além de praticamente não conseguir se defender, era submetida a tortura constante até, finalmente, confessar. Como uma mulher iria resistir assim? Ela não tinha oportunidade de provar sua inocência, pois os inquisidores nunca acreditavam nelas. É assustador pensar que o livro foi a base desses julgamentos por quatro séculos e serviu de modelo para persecuções penais modernas, com seu julgamento inquisitório e suas penas baseadas na expiação da carne.

Não é de nosso conhecimento que alguma pessoa inocente já tenha sido punida por mera suspeita de bruxaria: Deus nunca há de permitir que isso aconteça.

Quando eu li a primeira parte, eu achei tudo tão absurdo que até achei graça de algumas partes. É quase impossível pensar que alguém acreditava no que estava escrito ali. Na segunda parte, eu achava que estava lendo uma mentira, os casos e exemplos apresentados são tão absurdos. Mas ler a terceira parte foi muito revoltante para mim, a explicação em detalhes de como deve funcionar os julgamentos e as torturas, passou dos limites. Ver que não importava o que acontecesse, a acusada sempre era considerada culpada, me deixou irritada e muito triste também.

É muito assustador pensar que milhares de pessoas levavam esse manual embaixo do braço como verdade única e saíram caçando mulheres por diversos lugares. Imagino as pessoas dos vilarejos, sem nenhum estudo e conhecimento acreditando realmente em bruxas, eu até acho que consigo deixar passar isso. Contudo a igreja sabia bem o que estava fazendo, então essa parte é difícil de perdoar.

Esta edição acompanha uma introdução escrita por Marie Muraro, a patrona do feminismo brasileiro. Um texto excelente em que ela analisa os alicerces presentes no manual, que permitiram a opressão e a violência institucional ao corpo das mulheres. Gostei de ler essa apresentação e ver como ela relaciona o que aconteceu com o momento atual, como uma espécie de vingança ao que aconteceu.

A leitura deixa muito claro por que hoje pensamos e agimos de determinadas maneiras. Mostra a raiz de pensamentos neuróticos das práticas de misoginias, do controle dos corpos e dos sexos. Além disso, as questões envolvendo o pensamento religioso estão sempre interligados com a prática da medicina e até mesmo serve para explicar o comportamento asqueroso de homens que traiam as mulheres. É muito fácil se livrar da culpa, culpe uma bruxa!

O Martelo das Feiticeiras é um livro difícil de ler e para mim foi ainda mais difícil classificá-lo e dizer se gostei ou não. Como dar uma nota e dizer que gostei de ler um manual de tortura? Apesar disso, eu indico o livro, pois ele é um documento de importância histórica, filosófica e jurídica.

  • The Malleus Maleficarum
  • Autor: Heinrich Kramer, James Sprenger
  • Tradução: Paulo Fróes
  • Ano: 2020
  • Editora: Rosa dos Tempos
  • Páginas: 700
  • Amazon

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