Após descobrirem a localização e segredos de um dos mais antigos e importantes templos de Orïsha, após reunirem-se com o único sobrevivente e guardião de saberes, histórias e habilidades essenciais ao povo maji, após compartilharem sonhos, pensamentos, ideias e traumas do passado, Zélie e Amari firmam um dos laços de amizade e lealdade mais sensíveis e delicados da literatura fantástica juvenil contemporânea. Após superarem todo e cada desafio disposto ao longo de seu caminho, demonstrando magnífico equilíbrio entre maturidade e irresponsabilidade adolescente, após sacrificarem muito mais do que poderiam imaginar, sendo obrigados a carregar o peso do mundo em suas costas, Zélie, Amari e Tzain concretizam o ritual que prometia trazer a magia de volta ao povo maji.

Contudo, alinhando-se a mais essencial e certeira regra do universo, o ritual bem-sucedido também delineia suas consequências inesperadas e, num piscar de olhos, Amari e Zélie se deparam com uma Orïsha onde os majis retomam seu acesso à magia, bem como todo e qualquer cidadão proveniente de ancestrais mágicos.

Agora, enquanto a nobreza testa os limites de um poder inconcebível e a realeza torna-se ainda mais tirana, fortalecendo suas forças militares corrompidas por anos e anos de ordens descabidas, nossas protagonistas lutam para reagrupar o povo maji, encontrar os líderes do movimento rebelde e conquistar o trono para a princesa Amari. Contudo, uma vez mais o universo demonstra pouco interesse perante os interesses humanos e, como toda boa história, impõem novos desafios, sacrifícios, desentendimentos e obstáculos ao longo do árduo caminho trilhado por Zélie e Amari.

Filhos de Virtude e Vingança, da mesma maneira que seu antecessor, oferece ao leitor a oportunidade de entrar de corpo e alma num universo fantástico habilmente construído, fortemente inspirado na mitologia Iorubá, repleto de detalhes e características que verdadeiramente enriquecem a narrativa de Tomi Adeyemi. Os fundamentos e extensão da magia de Orïsha continuam sendo um dos maiores destaques da série, seus contextos sociais e culturais novamente surpreendem pela pertinência e relevância perante o mundo que nos cerca, a forma com que essa fantasia permite aos jovens leitores descobrir e se encantar pela mitologia Iorubá ainda se eleva como um dos maiores méritos de Tomi Adeyemi.

Porém, ao contrário de Filhos de Sangue e Osso, os principais elementos da série O Legado de Orïsha não apresentam força suficiente para garantir a mesma conexão entre leitor e história. E ouso afirmar que isso se deve à falta de direcionamento e objetivos claros de Tomi Adeyemi perante sua criação, bem como à falta de orientação de seus editores perante o maravilhoso presente que nos ofereceram!

Confira a resenha de Filhos de Sangue e Osso

Uma porção considerável de acontecimentos, informações, considerações e sentimentos se unem a fim de construir o que recebemos como Filhos de Virtude e Vingança. A narrativa se aproveita de estratégias de delineamento de enredo que poderiam encaixar-se perfeitamente ao espetáculo que foi Filhos de Sangue e Osso, contudo – e infelizmente é assim que observo a publicação deste segundo volume: um acúmulo de contudos, todavias e entretantos – encontramos personagens descaracterizados, personalidades alteradas, desligamento de laços belamente construídos no volume anterior, tendências melodramáticas e a mais torturante falta de comprometimento perante o que se estabeleceu como precedente no primeiro livro da série.

Se em Filhos de Sangue e Osso acompanhamos personagens adolescentes que, apesar das inconstâncias da idade, hormônios aflorados e sofrimentos cometidos por um governo tirano, ainda eram capazes de conversar entre si, debater ideias, superar dificuldades e, em meio ao mundo injusto que os cerca, perceber as dores do outro … em Filhos de Virtude e Vingança acompanhamos personagens adolescentes verdadeiramente inconsequentes, profundamente alienados pelos desentendimentos que não se esforçam por desfazer, equivocadamente preparados para uma guerra que não se preparam para lutar, livres daquela tênue e encantadora maturidade edificada previamente.

Ao focar sua atenção nas questões psicológicas de Zélie e Amari, bem como na construção confusa de romances instantâneos que tomam páginas e momentos preciosos do livro, Tomi Adeyemi não somente demonstrou desvinculo com sua própria criação, como transformou duas protagonistas poderosas em verdadeiras estranhas aos olhos do leitor. As conversas, os laços, o relacionamento, o apoio, a compreensão e, até mesmo o amor entre Amari e Zélie se desfazem por paixonites adolescentes, falta de diálogo e imaturidade juvenil… algo completamente descabido ao considerarmos os eventos apresentados ao longo do primeiro livro.

Despreparada narrativamente para trabalhar com as consequências da guerra, dos traumas do passado, das injustiças desempenhadas por uma realeza preconceituosa e tirana, da tortura e pobreza, dos sacrifícios e dores que pesam na mente e coração de seus próprios personagens, Tomi Adeyemi nos oferece adolescentes irritantes, inconsequentes, despreparados para as tarefas e desafios impostos pelo caminho que escolheram trilhar. Deste modo, ainda que a crueldade de um sistema racista, o desgoverno de uma realeza incompetente e o sofrimento da parcela mais “frágil” da sociedade apresentem-se como pautas fortes, a habilidade da escritora não se mostrou capaz de trabalhar tantos elementos, tantas críticas, tantos pensamentos. A ideia era maravilhosa, uma vez que, desde o início acompanhamos e reconhecemos as características destes personagens traumatizados que buscam construir um mundo melhor. Era razoável recebermos um segundo volume que delineia as consequências de sonhos e esperanças, que explora sentimentos, sacrifícios, dúvidas, dores, laços e amores… o que não consigo entender é como a potencialidade deste enredo se perdeu.

Considerando o caminho trilhado por Tomi Adeyemi e seu Legado de Orïsha, a maneira levemente previsível, dramática e repleta de oportunidades com que Filhos de Virtude e Vingança chega ao fim, bem como a relevância desta história para a produção de literatura fantástica jovem contemporânea – mas também para o mundo real, me recuso a acreditar que o próximo volume da série se assemelhe aquilo que encontramos neste segundo livro. Agora, não somente a escritora, mas também seus editores, devem alinhar pensamentos, reparar os danos, especificar direcionamentos e definir objetivos para que a continuação retome o amor que sentimos por Amari e Zélie. E uma vez que mencionamos os nomes das protagonistas, agora cabe a Tomi Adeyemi fortalecer os laços que dolorosa e incompreensivelmente rompeu com as personagens.

Minhas esperanças são tão grandes quanto eram as de Zélie ao concretizar o ritual de Filhos de Sangue e Osso, aguardo ansiosamente pelo momento em que me reencontrarei com estas queridas personagens, sei que Tomi Adeyemi possui a habilidade, talento e criatividade para inserir novamente os leitores neste mundo fantástico, mágico e encantador, nos levando por entre os limites de seu território e espelhando, uma vez mais, o preconceito e injustiça do mundo em que vivemos.

  • Children of Virtue and Vengeance
  • Autor: Tomi Adeyemi
  • Tradução: Petê Rissatti
  • Ano: 2020
  • Editora: Rocco
  • Páginas: 432
  • Amazon

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