Em meados de janeiro, tendo superado uma das maiores ressacas cinematográficas que enfrentei na vida, decidi compreender por meus próprios olhos e ouvidos, meus próprios sentimentos e opiniões, de onde surgiram as inúmeras críticas e comentários positivos que acompanhei sobre o curiosamente polêmico e encantadoramente sombrio Promising Young Woman. As consequências de minhas decisões, contudo, não poderiam demonstrar-se mais imprevisíveis.

Após me deparar com a insinuação de um desfecho pelo qual tanto ansiei, fui surpreendida por alguns minutos de choque, descrença e desesperança. A frustração perante a terrível inserção da realidade em meio aos direcionamentos de uma narrativa particularmente promissora levou ao choro enlutado, a sensação de imobilidade, ao sentimento de negação. Os momentos finais deste relacionamento conturbado com um filme que hoje tanto recomendo, no entanto, me surpreenderam! Acontece que a mensagem, o sentimento final, a promessa de Promising Young Woman simplesmente não poderia remeter aos acontecimentos trágicos e revoltantes do mundo real. Não quando mulheres tanto batalharam para produzir e compartilhar essa história! E foi assim que meu choro frustrado se transformou em lágrimas de esperança. Foi assim que minha revolta se transformou em sorriso no rosto. E assim se passaram dois meses desde a fatídica e primorosa noite em que finalizei Bela Vingança.

Dois meses foram necessários para perceber que, ainda hoje, Bela Vingança permanece em meu coração, em meus pensamentos e em minhas indicações. Dois meses foram necessários para digerir uma obra que, infelizmente, se materializa de infinitas maneiras por entre os mais diversos aspectos de nossa sociedade. Dois meses foram necessários para que, nesta peculiar noite de abril, me reconhecesse pronta para escrever algo sobre o filme, algo sobre suas mensagens, algo sobre sua fotografia e construção impecáveis, algo sobre sua trilha sonora encantadoramente irônica, algo sobre seu final chocante e levemente esperançoso, algo sobre o fato de encontrarmos um drama levemente disfarçado de comédia entre os melhores filmes do Oscar 2021.

Escrito e dirigido por Emerald Fennell e estrelado por Carey Mulligan, Bela Vingança delineia ácidas, sarcásticas, duras e pertinentes críticas perante uma sociedade machista e preconceituosa, balizada na cultura do estupro e objetificação da figura feminina. Bela Vingança, ao contrário dos tão amados e heroicos filmes de guerra, trilha um caminho tortuoso onde a mulher comete tantos erros quanto o mundo que lhe deu origem, demonstrando situações em que, lutando contra indivíduos, pensamentos, instituições e sistemas vigentes, não recebe tapinhas nas costas, medalhas ou glória no final de sua jornada. O filme demonstra a extensão do pensamento machista e da cultura do estupro, expressa a dualidade existente em nossos pensamentos, expõem os infinitos pesos e medidas, os discursos que ouvimos desde o berço e os quais, por meio da repetição e aceitação, acabaram por transformar-se em realidade, proporcionando todo o tipo de tragédias que tanto nos “acostumamos” a ler, ouvir e assistir nos noticiários.

E tudo começa com Cassandra, uma promissora jovem mulher em busca de vingança, uma promissora jovem mulher marcada por eventos do passado, uma promissora jovem mulher que, noite após noite, finge estar bêbada, caindo de bêbada, tão bêbada que instiga verdadeiros cavalheiros a lhe auxiliarem a encontrar o caminho para casa deles! E é nesse momento, quando o perfeitamente caricato e encantador bom moço demonstra sua essência, suas falhas de caráter e dificuldades de interpretação das verdadeiras intenções da bela moça, que Cassie demonstra estar sóbria desde o início, chocando os pobres coitados que não sabiam o que estavam fazendo! E deste modo, trilhando uma espécie de caminhada da vergonha, noite após noite e dia após dia reconhecemos as várias facetas e habilidades de Cassandra, descobrimos os detalhes e mistérios de sua trajetória de vida, imergimos em sua profundidade de sentimentos conflitantes, acompanhamos o momento em que, percebendo não ser capaz de desvincular-se das dores e traumas do passado, declara vingança contra todos os homens e mulheres diretamente envolvidos nos eventos que levaram sua melhor amiga, Nina, a tirar a própria vida.

Bela Vingança, título nacional escolhido para Promising Young Woman, constrói-se ao longo da jornada de Cassie, ao longo de seus planos e busca por vingança, ao longo de seu contato com figuras caricatas, com personagens que representam pensamentos, conspecções, sistemas e personalidades verdadeiramente reais, inegavelmente existentes em nossa sociedade. Desta maneira, o primeiro ato se apresenta como verdadeira introdução do espectador às principais ideias e direcionamentos do filme, o que possibilita os conflitos e contato de Cassandra, mas também do próprio espectador, com os mais tristes discursos, os mais decepcionantes pensamentos, as mais frustrantes escolhas de pessoas que, embora ficcionais, poderiam e podem ser reais! Em seus dois primeiros primorosos atos, o filme explica o mistério envolvendo Nina, sugere acontecimentos e segredos do passado de Cassie, fundamenta sua busca por vingança e, maravilhosa e estrategicamente bem, promove uma pausa no momento exato em que encontra um homem decente que alegra seus dias e lhe possibilita o encontro com uma espécie de amor, esperança e tranquilidade que nunca teve contato.

E como história magistral e habilmente construída que é, todo e cada um destes elementos, todo e cada um destes detalhes, toda e cada uma destas cenas promovem a atmosfera ideal para o estabelecimento do terceiro ato. Por definir direcionamentos específicos, as revelações que culminam no terceiro ato quebram nosso ingênuo coração acostumado com finais felizes, possibilitando o nascimento de nosso desejo por um desfecho peculiarmente impossível … o que nos choca com a chegada do momento em que, realisticamente, deveríamos ter esperado desde o início! E mesmo o choque, mesmo a violência, mesmo os gatilhos e desconforto da cena possuem razão de ser, possuem cunho questionador! E, mesmo com a dor que sentimos, com nosso choro enlutado, com nossa frustração e raiva, Bela Vingança aponta uma centelha de esperança ou mudança, indicando as transformações lentas e processuais que permitem o mundo girar.

Dito isso, todo o filme se edifica e delineia de forma a possibilitar analogias entre o mundo real e o fictício, de forma a estabelecer conexões entre discursos e prerrogativas da sociedade aos personagens apresentados, de forma a materializar o que se acredita feminino por entre os mais variados elementos visuais. Aqui ficam nítidas as cores, comportamentos e expressões que se assimila ou espera da mulher quando se posiciona na luz clara do dia. Aqui se ressaltam a maquiagem, o vestuário, as relações e escolhas da mulher quando se posiciona entre os mistérios e possibilidades da noite. Aqui, o que antes era claro, fofo, agradável e aconchegante se transforma em sombrio, trágico e desolador … por possuir uma razão muito clara.

De cores pastéis, figurino apaixonante e trilha sonora impecável a cenários representativos e atuações acertadas, Bela Vingança demonstra a habilidade, cuidado e curadoria com que foi produzido! Cada detalhe possuí razão de ser, cada elemento apresenta uma conotação, cada aspecto da história possibilita uma conexão com a realidade.

O filme que tanto me chocou, tanto me desestruturou, tanto me marcou e tanto me acompanhou, também me fez refletir, também me fez chorar inconsolavelmente, também me trouxe mensagens de mudanças possíveis, de transformações lentas, de uma esperança que não podemos perder. Bela Vingança é uma história primorosamente elaborada, habilmente construída e encantadoramente produzida onde tudo foi pensado, onde reina uma crítica gigante e pertinente para com a sociedade, onde se promove um contato necessário com diversos pensamentos e discursos, e também se oferecem alguns chacoalhões. Promising Young Womam é uma de minhas apostas para esse Oscar 2021, é o filme que gostaria de acompanhar recebendo a consideração e prêmios que merece, e posso afirmar, sem receio algum, que derramarei outras tantas lágrimas caso leve para casa a estatueta de Melhor Filme.

  • Promising Young Woman
  • Lançamento: 2020
  • Com: Carey Mulligan, Jennifer Coolidge, Bo Burnham
  • Gênero: Drama; Thriller
  • Direção: Emerald Fennell

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