O ano de 2020 ficou marcado não apenas pelo início da pandemia de Covid-19, mas também por uma série de protestos que se iniciaram nos EUA e se estenderam para diversos outros países, incluindo o Brasil. Os protestos deram voz ao movimento #BlackLivesMatter #VidasNegrasImportam. Por todo lado havia pessoas discutindo sobre assuntos de raça, seja nas redes sociais ou na roda de amigos. O fato é que tais conversas nunca foram fáceis, mas elas se tornam a cada dia mais necessárias. Há quem diga que o racismo começa quando nos separamos por cor, quando dizemos: nós somos brancos e eles são negros. Há quem defenda que somos uma bela sociedade multiétnica e que racismo na verdade não existe. Há quem acredite em racismo reverso. E há aqueles que preferem não emitir opinião alguma com medo de falar alguma bobagem e sofrer com o temido cancelamento.

Mas existem coisas piores que o cancelamento, talvez permanecer calado diante de uma série de violências diárias que ferem e adoecem grande parte da nossa sociedade. Já escutei algumas vezes o seguinte ditado: Se em uma mesa existem 19 pessoas e um nazista se senta, mas ninguém levanta, então existem 20 nazistas. Conversando com uma amiga sobre tal frase, pude ver que existem mais nuances nessa questão do que podemos ver a princípio, mas a ideia geral ainda é a mesma: o silêncio também pode ser uma forma de agressão. Vovó sempre disse que quem cala consente e isso nunca foi tão verdadeiro. Mas é claro que ninguém quer sair por aí falando um monte de asneiras, ou acabar piorando uma situação ao invés de aliviá-la, e é por isso que precisamos aprender sobre raça, precisamos escutar sobre raça e principalmente, precisamos falar sobre raça.

O livro de Ijeoma é claro, revelador e cirúrgico. Os temas abordados por ela fazem parte do nosso dia a dia. Por meio de experiências pessoais bastante dolorosas a autora nos conduz por um caminho cheio de novas verdades. Ouso dizer que mesmo que você já saiba diversas coisas sobre racismo, ainda irá aprender muito quando ler esse livro. Nos primeiros capítulos temos uma breve introdução sobre o que de fato é racismo, afinal o tema vai além do significado singelo que vemos na internet.

Não se trata apenas de não “gostar de alguém por causa da sua cor” mesmo que isso por si só já seja um grave indício de que há algo de muito errado. Mas simplificar nesses termos, também simplificaria as soluções, as pautas, as histórias alheias, as dores.  Quando falamos de racismo, falamos de toda uma estrutura de poder que fere, subjuga, silencia e explora. Mesmo nos dias de hoje. Sinceramente, é desalentador perceber que fazemos parte de uma sociedade que opera dessa forma e perceber que mesmo que não tenhamos empunhado um chicote, se somos brancos, nós ainda estamos sendo beneficiados por essas mesmas ferramentas de desumanização.

Ler esse livro me colocou diante de mim mesma, das minhas crenças e das minhas atitudes. Tive que olhar para o meu ego e dizer para ele, agora você lê, escuta uma voz que não é a sua e aprende. Se essa não é sua realidade, tenha empatia para escutar. Não ouse desacreditar, não ouse se justificar, não ouse questionar baseada em experiências próprias. Questionar é extremamente importante, mas contra fatos não há argumentos e Ijeoma veio muito bem embasada em livros, artigos, reportagens. Dados que estão disponíveis para consulta, dados produzidos por profissionais. Se há algo a ser refutado, que não seja baseado em uma opinião carregada de achismos. Para ler esse livro eu me despi de qualquer arrogância, e quando eu não consegui abrir mão do “mas eu não sou assim”, li de novo e de novo até entender qual é meu papel enquanto cidadã, enquanto mulher, enquanto pessoa branca em uma sociedade que é beneficiada pela supremacia branca.

Não é sobre eu chorar em posição fetal e pedir perdão pelos atos dos meus antepassados. É sobre ser antirracista. É sobre lutar ativamente por igualdade. É sobre estar na minha empresa e observar se os cargos de poder são ocupados única e exclusivamente por pessoas brancas. É sobre eu estar na universidade e verificar se o quadro de professores é ocupado em grande parte por pessoas brancas. É sobre eu olhar para a taxa de desemprego no país e ver que a diferença entre os pretos e os brancos foi de 71,2% na última pesquisa realizada e ver nisso um alerta importante. E eu poderia utilizar muitos outros números, fatos e reportagens. Mas elas estão ai para quem quiser ver, pesquisar e aprender. E como eu aprendi enquanto lia os textos de Ijeoma. Eu era uma pessoa antes de começar a ler esse livro e agora sou outra, completamente diferente. Se você acredita que já sabe o bastante sobre racismo e que não precisa de um manual sobre como falar sobre o tema… então meu amigo, é exatamente nessa hora que eu digo: você precisa desse livro.  Esqueça tudo o que já leu sobre o assunto e se debruce nessa obra. Você só tem a ganhar. Mas vou deixar que a própria autora convença-o disso.

Três coisas (entre tantas) que você pode aprender lendo “Então você quer conversar sobre raça”:

  • Caso isolado, n° 1025485

Sabe quando você vê uma noticia absurda na televisão ou no jornal, onde uma pessoa negra sofreu racismo, seja por meio de uma fala, seja sobre ser seguida em uma loja, seja sobre a violência policial e alguém diz: “ah mas racismo não existe, isso foi um caso isolado”? Se você como eu, é branco, realmente é um caso isolado. A gente não vive essa realidade 24 horas por dia. Não sabe como é de fato ser perseguido todos os dias em uma loja, não sabe como é ouvir piadas sobre raça todos os dias, não sabe como é andar na rua com medo de cada policial que aparecer. E se essa experiência não é a minha, como eu posso simplesmente desacreditar a pessoa que me conta tais fatos. E como eu posso achar que tenho o direito de minimizar a dor de alguém simplificando toda uma série de micro agressões com a fala “mas esse é apenas um caso isolado”?

Muitas vezes, ser uma pessoa de cor numa sociedade dominada por brancos é como estar em um relacionamento abusivo com o mundo. Todo dia é uma nova mágoa, uma nova desumanização. Andamos por aí vacilando, sofrendo com a última dor e temendo a seguinte. Mas quando dizemos “isso está nos machucando”, um holofote é colocado sobre a dor mais recente, o hematoma apenas ainda se formando: “Veja como é pequeno e tenho certeza de que há uma boa razão para isso. Por que você está fazendo tempestade em um copo d’água? todo mundo se machuca de vez em quando”- enquanto o mundo ignora que nosso corpo está cheio de cicatrizes.

  • O mercado de trabalho é racista?

De todas as coisas que eu poderia dizer sobre o assunto, sempre me vem na memória a situação vivenciada por uma mulher que admiro muito. Ela é uma profissional maravilhosa, capaz e com grande experiência no currículo. Alguns bons anos atrás, antes do índice de desemprego se tornar tão agressivo quanto é hoje, ela foi fazer uma entrevista para uma vaga na área dela. Os requisitos básicos solicitavam formação completa e experiência. No dia da entrevista ela foi entrevistada junto com outra candidata. A jovem estava no segundo ano da faculdade, e não tinha experiência nem mesmo em estágio. Minha amiga é negra e a jovem era branca. Sabem quem ficou com a vaga? Minha amiga simplesmente não entendia o que tinha feito de errado e por qual motivo ela precisava estudar muito mais, trabalhar muito mais, se esforçar muito mais, para conseguir minimamente competir com uma pessoa branca com menos qualificação e ainda assim sair perdendo. Sinceramente? Na época eu também não entendi. Eu demorei anos para entender algumas coisas que a Ijeoma aborda nesse livro de forma simples e prática. Esse livro é uma aula de história, é um recorte da estrutura social a qual pertencemos. A leitura é obrigatória.

Vemos as disparidades no emprego e na educação por raça e gênero. Ou você acredita que essas disparidades existem porque pessoas de cor e mulheres são menos inteligentes, menos trabalhadoras e menos talentosas do que homens brancos, ou acredita que existem problemas estruturais que impedem que mulheres e pessoas de cor sejam contratadas para empregos, promoções, salários justos e que sejam aceitas na faculdade.

  • Eu preciso mesmo falar sobre o cabelo de alguém?

Precisamos parar de falar das características físicas das outras pessoas. Há tanto mais que pode ser dito. Boas conversas, assuntos interessantes, política ou até mesmo o que passou naquele episódio da novela. Mesmo algo considerado inútil como o filme da sessão da tarde ou quem foi pro paredão no BBB ainda é mais aceitável que falar sobre o corpo, cabelo, ou qualquer outra característica de alguém. Mesmo se for para elogiar é preciso ter cuidado. Alguns elogios podem ser extremamente tóxicos para quem ouve. Lamentavelmente uma amiga querida recebeu o seguinte comentário de uma outra mulher “Você é linda, tem traços de uma pessoa branca. Possui lábios e nariz finos”. Acredito que está bem claro que isso não foi um elogio!

O livro também explica por qual motivo você não deve sair pegando no cabelo dos outros e principalmente você entenderá que não é mimimi quando seu amigo ou amiga recusa seu toque nos cachos que ele cuidadosamente hidratou e preparou. Depois da recusa de alguém, qualquer outra aproximação é invasão do espaço pessoal do outro.

O cabelo cresce no corpo de alguém, revestido em diferentes produtos de beleza e uma boa quantidade de suor e óleo. Tocar no cabelo de outra pessoa é estranho e nojento. Todo mundo parece entender isso quando o cabelo de outra pessoa é encontrado em qualquer lugar – em assento, em travesseiros de hotel, na sua comida – em qualquer lugar, exceto na cabeça de uma pessoa negra.

  • So you want to talk about race
  • Autor: Ijeoma Oluo
  • Tradução: Nina Rizzi
  • Ano: 2020
  • Editora: BestSeller
  • Páginas: 312
  • Amazon

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