Em 2019, tomei coragem e me rendi à leitura do romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, publicado em 1956 e considerado obra fundamental na Literatura Brasileira. Foi uma experiência sefariadora, mas incrível e única. Assim, como uma boa leitora de quadrinhos, eu não poderia deixar de ter outra experiência com a obra, mas agora através de um romance gráfico.

Com roteiro de Eloar Guazzelli e arte de Rodrigo Rosa, nesta versão gráfica do romance, vamos encontrar o sertão nordestino muito bem retratado, tanto nas cores quando nos traços, e com o melhor da obra original a imersão na alma humana, com a linguagem única e rica que somente Guimarães Rosa soube usar.

Antes de falar sobre como ficou essa adaptação, precisamos falar da trama, pois nem todo mundo leu a obra original. Aqui Riobaldo, ex-jagunço, já um velho fazendeiro e está na companhia de um receptor, que não se manifesta no texto, narrando como foi a jornada de sua vida até aquele momento. Ele vai lembrar de sua infância, seus trabalhos, suas lutas e seus amores, contando tudo com um ar muito saudosista e cheio de entusiasmo. Outra informação necessária para quem não conhece o romance é sobre a narração. Aqui quem nos conta a história, em primeira pessoa, é Riobaldo como se ele estivesse conversando com alguém. Em vários momentos, ele chega a responder como se o outro tivesse feito uma pergunta, essa da qual não temos conhecimento, assim precisamos descobrir o que seria pelo conteúdo da resposta do sertanejo.

Esse recurso da linguagem foi mantido aqui de forma muito bem colocada, conseguimos identificar quando é a narração e quando é a fala da situação narrada, fica bem demarcado isso. Uma das dificuldades encontradas por mim na leitura do livro original foi a compreensão da passagem do tempo, que vai e volta soltando as peças do quebra cabeça e deixando na mão do leitor o trabalho de juntá-las. Aqui, contudo, Guazzelii apresenta o roteiro muito bem elaborado neste elemento narrativo e a linha do tempo fica de fácil entendimento. 

Diadorim estava me esperando. Menti que só tinha entrado lá por causa da velha Ana Danuza, a fim de requerer o significado do meu futuro.

Levando em consideração todos os elementos abordados no romance original, não seria possível abordar tudo na graphic novel, então achei muito inteligente do roteirista aqui, focar principalmente na amizade entre Riobaldo e Diadorim e na guerra de jagunços. Acompanhamos um pouco da vida de Riobaldo até ele virar um jagunço. Minha tristeza aqui fica ao ver que exatamente pelo “espaço” restrito ao se construir um romance gráfico, muitos elementos ficam de fora. E o principal na relação entre Riobaldo e Diadorim, não ficar nítido aqui para mim: aqueles sentimentos contraditórios o tempo todo de Riobaldo em relação a Diadorim, pois aqui nesse contexto uma relação homossexual entre jagunços não devia nem ser cogitada. Senti muito falta disso!

Falado na parte gráfica da HQ, ela está perfeita, gosto muitos das cores escolhidas que estão muito próximas ao terror, a cara do sertão, mas gostei principalmente dos trechos de Rodrigo Rosa. Ele consegue deixar claro a confusão na narrativa do protagonista e nas lutas confusas dos jagunços. é uma obra muito bonita visualmente, como grande sertão veredas merece. A linguagem, um dos principais pontos na obra de João Guimarães Rosa, está aqui tal qual no livro, mas é claro em seus fragmentos e fazendo partes das situações apresentadas. Acho muito legal isso, para um leitor que vai conhecer a obra pela HQ, pois já da um vislumbre do que é o livro original. 

Caso você não conheça a história, se prepare para o final, apesar de eu achar que não tem o impacto do original, a surpresa vai ser incrível. Grande Sertão Veredas: Romance Gráfico é perfeito para completar sua experiência de leitura ou para apresentar essa história grandiosa para um novo leitor. Eu gostei muito de reviver essa história e reencontrar esses personagem. Se eu já tinha gostado antes, agora eu gosto ainda mais.

  • Grande Sertão Veredas: Romance Gráfico
  • Autor: João Guimarães Rosa
  • Tradução: -
  • Ano: 2021
  • Editora: Quadrinhos na Cia
  • Páginas: 184
  • Amazon

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