Uma Mulher no Escuro – Raphael Montes

26 out, 2021 Por Nathallia Mombach

Victoria Bravo tinha apenas quatro anos quando seu pai, sua mãe e seu irmão foram brutalmente assassinados na sua frente. Na ocasião, o assassino pichou o rosto das vítimas com tinta preta, fato que o fez ficar conhecido como “O Pichador”. Ela foi a única sobrevivente, mas não saiu ilesa de marcas físicas e psicológicas.

Agora, vinte anos depois, Victoria é uma jovem adulta solitária, infantilizada e com dificuldades em se relacionar e confiar em outras pessoas. Até hoje ela se pergunta o motivo de ter sido a única poupada, mas com os acontecimentos recentes, ela está prestes a descobrir toda a verdadeira história do assassinato de sua família.

Victoria fechou os olhos no primeiro golpe. Uma dor lancinante se espalhou depressa por todos os músculos conforme a lâmina rasgava a pele. Sua energia ia embora, não adiantava lutar…

Quem já leu qualquer livro do Raphael Montes sabe que ele trata de temas extremamente chocantes e polêmicos, e nesse não foi diferente. Eu já li todos os publicados dele, apesar de fora da ordem de publicação. Esse é o mais recente, e também o primeiro livro solo dele em que a protagonista é uma mulher, fora esse tivemos outra protagonista feminina apenas em Bom dia, Verônica, escrito em conjunto com a rainha Ilana Casoy. Por conta de já estar acostumada com o tipo de escrita, não coloquei muita expectativa nessa leitura por ter dado três estrelas à maioria dos livros do autor. Uma Mulher no Escuro não é um livro ruim, mas definitivamente não foi aproveitado todo o potencial que o enredo tinha.

Nossa protagonista é a Vic, uma jovem de 24 anos que teve uma infância extremamente traumática e agora tenta lidar com as sequelas que esse evento gerou. Ela é muito solitária, não consegue levar nada da sua vida para frente e mantém basicamente apenas três relacionamentos: com a sua tia, que ficou responsável por ela depois do assassinato dos seus pais; com o seu psiquiatra e com o Arroz, um nerd que ela conheceu na internet e mantém algo semelhante a uma amizade. O núcleo de personagens é bem pequeno, e aparentemente eles não tem nenhuma conexão entre si.

Confira a resenha de Bom dia, Verônica

A história começa a ficar interessante quando, encorajada pelo seu psiquiatra, Vic decide conversar com um cliente frequente do café em que trabalha. Na volta de um desses encontros, ela se depara com o seu apartamento invadido e com a frase “vamos brincar?” pichada com tinta preta em uma das paredes. Esse acontecimento levanta duas hipóteses: ou o assassino voltou para terminar o que começou vinte anos atrás, ou há um imitador atrás dela. Isso leva Victoria a uma busca frenética pelo o que realmente aconteceu. O livro, além de ser um thriller psicológico, também é uma história sobre crescimento e descobertas, porque Victoria ficou um pouco presa na idade em que os fatos ocorreram e agora precisa superar diversos obstáculos.

O passado era uma ferida profunda, mas cicatrizada, cuja casca ela havia aprendido a não cutucar. Estava prestes a arruinar tudo, expondo o machucado em carne viva.

Como é um suspense nacional que se passa no Rio de Janeiro, a ambientação é muito familiar, principalmente para quem mora ou conhece esses lugares, e isso torna muito mais fácil de nos conectarmos com a história. Montes sabe muito bem como construir seus personagens – tanto as vítimas quanto os vilões -, e nesse enredo todo o crime e o que descobrimos que o levou a ser cometido também é. O livro é relativamente curto, senti um pouco de falta do resto da história porque gostei muito da premissa e queria saber absolutamente tudo sobre o que acontece depois da última página, além de achar o final um pouco apressado. Mas veja, isso não é uma crítica de quem não gostou do livro, e sim de quem gostaria de ter visto mais da história.

Esse, na minha opinião, é um dos livros do Raphael com a sinopse mais interessante, junto com Suicidas, livro dele em que eu dei cinco estrelas e favoritei. O problema de Uma Mulher no Escuro é que depois de tantas leituras do mesmo autor, você começa a perceber os mesmos elementos (sempre, em todos os livros), o que torna repetitivo demais e você se pergunta se a narrativa é realmente boa ou se é apenas chocante. Esse livro também é o que menos traz críticas ocultas no enredo, a escrita é mais “básica”, o que não necessariamente é um problema, já que como todos os livros do Raphael tem um ótimo fluxo de leitura, é apenas algo que eu, como já li outras obras dele, notei de diferente.

Como já falei, o enredo era extremamente promissor de ser um livro favoritado. Meu principal problema com a obra foi que eu achei o final um pouco apressado e isso fez com que ficasse com pontas soltas sobre algumas coisas que foram levantadas ao longo da história, e mais uma vez tive a impressão de que o Raphael foca muito em ser chocante e sangrento (e eu gosto muito de livros assim, isso não é uma crítica) e pouco em entregar um final satisfatório e explicativo ao leitor. Apesar disso, a narrativa é super bem construída, para fazer o leitor só conseguir largar o livro quando descobre os vários plots que ele coloca, e eu consegui acertar um deles!

Uma Mulher no Escuro é  um livro ótimo para quem está em um primeiro contato com o autor ou até mesmo com o gênero, pois é cheio de plot twists que nos deixam com o queixo caído e fazem a gente se perguntar se aquilo está realmente acontecendo. Para quem nunca leu nada do Raphael Montes, fica aqui o alerta de possíveis gatilhos.

  • Uma Mulher no Escuro
  • Autor: Raphael Montes
  • Tradução: -
  • Ano: 2019
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 256
  • Amazon

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