Estratégica e ligeiramente distanciado de grandes conflitos e movimentações, demonstrando tendências desgostosas quanto a drásticas e profundas transformações em sua vida pacata, Ryland Grace era pura, legítima e simplesmente, outro professor de ciências do ensino fundamental. Curiosamente, a trajetória deste personagem, protagonista de uma ficção científica fundamentada em pesquisas, princípios científicos e algumas especulações, se limitava pela atuação escolar, pelo pequeno e aconchegante apartamento, pelas raras confraternizações com outros professores.

Ryland Grace não poderia, ainda que desejássemos com todas as forças de nossos seres, se encaixar nos moldes heroicos de um desbravador do espaço profundo, um verdadeiro astronauta aventureiro que arrisca a vida para salvar a humanidade… contudo, de inusitadas e maravilhosas maneiras, é exata e encantadoramente um pouquinho disso no que ele se transformará ao longo de Devoradores de Estrelas.

Após anos distanciado, exilado, parcialmente excluído da comunidade científica, uma das pesquisadoras responsáveis pela descoberta da Linha de Petrova – que sai de Vênus em direção ao Sol -, se reúne com o protagonista a fim de discutir suas implicações para as condições de vida no planeta Terra. Formada por microrganismos alienígenas que se alimentam de radiação solar e se reproduzem em escala acelerada, a Linha de Petrova ocasionará a redução das emissões solares, contribuindo com intensas alterações na temperatura do planeta, promovendo a extinção de variadas formas de vida, redução na produção de alimentos, elevação dos níveis do mar e, por fim, possibilitando a instalação de conflitos por sobrevivência.

“Estou me sentindo o próprio Sherlock Holmes. Tudo que vi foi “nada”, e cheguei a um monte de conclusões! Conclusões que são altamente especulativas e sem nenhum embasamento, mas ainda assim conclusões!”

Por estar no local certo, no momento certo – ou, para os pessimistas, no local errado, no momento errado – Ryland Grace é “recolhido” por um grupo de operações especiais que, por meio de algumas viradas de páginas, personagem e leitor descobrirão, se tratar do Projeto Hail Mary, uma força tarefa composta por exércitos, líderes políticos, cientistas e pesquisadores de todos os pontos geográficos, reunidos com o intuito de construir uma nave espacial que seguirá em missão suicida para o único sistema que parece não ter sido afetado pela infestação de astrofágicos.

Confira a resenha de Artemis

E assim o professor de ensino fundamental se transforma em referência em astrofágicos, e o especialista em astrofágicos se transforma num dos membros mais importantes do Projeto Hail Mary, e este importante membro do Projeto Hail Mary se transforma em astronauta, e o astronauta se percebe sozinho em uma nave espacial, trilhando caminhos perigosamente misteriosos, recheados de surpresas, abordagens científicas encantadoramente detalhadas, inusitados imprevistos e riscos de aniquilamento da missão, amizades verdadeiramente tocantes, além do mais primoroso bom humor que somente Andy Weir sabe nos proporcionar!

Em meio ao universo de possibilidades da ficção científica, encontramos estilos de escrita e construção de narrativa específicos. Alguns livros nos surpreenderão pelo ritmo frenético com que viramos suas páginas, enquanto outros, com suas aventuras alucinantes e intrincados mistérios, nos transportarão para novas e maravilhosas realidades. Algumas obras demonstrarão as bases científicas em que se fundamentam, detalhando informações e cenários para que a lógica e verossimilhança reinem em seus domínios. Existem, ainda, exemplos de livros que harmoniosamente integram elementos fantásticos aos pilares de seus mundos, nos fazendo questionar acerca da verdadeira classificação de tais histórias.

Para cada narrativa de ficção científica, portanto, encontraremos leitores que muito aproveitarão suas nuances e encantos, e, na mesma medida, encontraremos leitores que muito se incomodarão com a falta ou frequência excessiva de detalhamento, com os aprofundados embasamentos científicos, com a intercambialidade com que se integram gêneros a fim de garantir maior apreço daquele que, talvez, não tenha um contato frequente com os universos fantásticos da ficção científica.

Dito isto, ressalto para os leitores que conhecem e compreendem a especificidade dos elementos que funcionam em suas leituras, que Devoradores de Estrelas se enquadra naquelas cativantes ficções científicas fortemente ancoradas em princípios e teorias científicas – sendo estas comprovadas pela ciência contemporânea ou não. Da mesma maneira, como no adorável Perdido em Marte, aqui acompanhamos um astronauta solitário que luta pela sobrevivência. Um ser humano que, em todas as suas falhas e limitações, supera o impossível para permanecer vivo, para encontrar respostas para suas inquietações, enfrentando o espaço e seus mistérios a fim de oferecer outra chance à Terra! Por outro lado, aqui nos reencontramos com o bom humor de Andy Weir, suas piadas leves que promovem um sorriso no rosto, aquecendo o coração e nos preparando para as reviravoltas e momentos angustiantes que nos aguardam nas páginas seguintes.

Embora uma análise descuidada direcione os desavisados a pensar tratar-se de outro exemplo de narrativa construída com base em estratégias de sucesso, Devoradores de Estrelas, ao longo de suas 423 páginas, expressa o amadurecimento de um escritor que em seu livro de estreia já demonstrava criatividade, talento e cuidado na tecedura de histórias que preenchem uma porção considerável de quesitos muito, muito caros à leitora apaixonada por ficção científica que vos escreve.

Repleto de aventuras, reviravoltas e imprevistos a serem solucionados com o máximo de atenção por um personagem em constante perigo, o livro não prioriza um ritmo frenético de leitura, correndo o risco de construir uma narrativa falha, inverossímil e livre de lógica ou embasamento científico. Ao integrar detalhamento aprofundado, mistérios espaciais e certo teor de dramaticidade, o livro se recusa a elevar uma característica em detrimento de outra, delineando, talvez, um posicionamento do escritor contra a criação de uma literatura de ficção científica meramente comercial.

Em verdade, a pesquisadora de distopia e ficção científica considera relevante ressaltar que, embora os gêneros tenham se popularizado, massificado e transformado em fenômeno comercial, ainda resistem, mantendo algumas de suas características essenciais, valorizando, não somente a inserção da ciência no âmbito da criação literária, mas também o não conformismo com o que se espera de tais obras. Deste modo, ao não facilitar para o leitor, delineando ritmo de leitura lento e detalhamento aprofundado, Devoradores de Estrelas demonstra uma parcela da ficção científica dura, aquela que retoma percursos trilhados por romances científicos e narrativas entusiastas.

Por outro lado, o livro é sutil em suas críticas e comentários sociais, não significando fraqueza ou leveza naquilo que se dispõem a questionar, mas apenas que tais críticas e comentários expressam-se interligados aos eventos, a trama que se desenrola ao longo das páginas.

Confira a crítica de Perdido em Marte

Em 2011, Perdido em Marte conquistou leitores de diversas posições geográficas com seu bom humor, maneira como interligava o conhecimento humano sobre o planeta vermelho e forma com que transmitia um quentinho no coração, um sentimento de esperança na humanidade. Dez anos depois, Devoradores de Estrelas reconquista os leitores por expressar o mesmo bom humor, a mesma visão otimista e quentinho no coração, transmitindo fundamentos científicos e pressuposições acerca do universo enquanto nos surpreende com suas reviravoltas, momentos angustiantes e, na especificidade desta narrativa, com uma adorável e verdadeira amizade!

Livro para os amantes de ficção científica que conhecem o estilo de escrita de Andy Weir, essa é uma história que, embora aparentemente distante da realidade vigente, peculiar e sutilmente demonstra cenários possíveis, encobrindo-se por elementos de aventura espacial com o intuito de semear a consciência crítica perante um futuro que já desponta no horizonte.

Para alguns leitores, será uma jornada de superação recheada de embasamento científico. Para outros, uma trilha de mistérios a serem desvendados enquanto torcemos pela sobrevivência de um protagonista tão humano quanto nós. Por um lado encantador, eletrizante e surpreendente. Por outro, de ritmo lento, detalhamento aprofundado e reflexões mais vastas do que a aparência possibilita perceber. No fim, contudo, trata-se de um livro com o mais adorável bom humor, as mais cativantes piadas e a transmissão de um, tão necessário, sentimento de esperança, amizade e pertencimento. Por esses motivos, dentre todos os outros, Devoradores de Estrelas é um livro para ler, manter na estante e guardar com carinho no coração!

  • Project Hail Mary
  • Autor: Andy Weir
  • Tradução: Natalie Gerhardt
  • Ano: 2021
  • Editora: Suma
  • Páginas: 424
  • Amazon

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