Vocês já imaginaram uma ficção cientifica que envolva afrofuturismo? Sensacional a ideia né? E é justamente isto que o livro de estreia de Ale Santos se propõe a fazer, um mundo futurista e distópico com elementos muito bem construídos e envolvendo uma cultura afro-brasileira maravilhosamente encantadora.

Eliah e Hanna são um casal de irmãos, que vivem em Obambo, uma favela onde vive a população negra de Nagast. Quem domina o distrito são seres híbridos, uma mistura de humanos com máquinas, chamados de Cygens, que são os responsáveis por uma ditadura racial, que oprime os habitantes de Obambo.

O garoto recebe uma visão, uma ancestral lhe fala sobre a importância para seu povo, ele pode ser o salvador, o grande nome que irá libertá-los dos Cygens, será que ele acreditará no que lhe é dito? Ele conseguirá salvar seu povo?

Que livro fabuloso, não só pela cultura toda que é demonstrada, mas por toda sua qualidade de escrita e a maneira como a ação acontece, é cada cena explosiva, com uma ambientação detalhadíssima, instiga o leitor a ficar lendo uma página após a outra sem parar.

A primeira coisa que me chamou atenção na leitura foi seu enredo ser repleto de gírias, e alguns personagens abusarem delas, fazendo com que as caraterísticas da personalidade de cada um ser muito bem definida, além do fato de tornar o enredo futurístico próximo ao público, ampliando o entendimento do leitor quanto ao estilo de vida tomado pelos personagens, sem ter a necessidade de detalhar estes pontos.

Confira a resenha de Binti

Seguindo a leitura, mais elementos foram mostrando que minha experiência de leitura seria fantástica! As cenas de ação se iniciaram e a quantidade em que são postas no enredo também é outro fato perfeito, nem de menos, nem de mais, no ponto certo. Nada acontece fora do seu momento, inclusive, há tempo para descobrirmos os motivos da revolta dos personagens, quem são os mocinhos e os vilões, para qual lado você deve torcer, até mesmo quem é o “Último Ancestral” e a importância deste personagem para o enredo. Tudo isso aparece no momento certo, tornando tudo prazeroso e muito emocionante, um desenvolvimento construído com maestria.

Além de seu universo amplo e muito bem criado, ainda contamos com elementos originais, com os quais eu nunca tinha imaginado, ideias que você ficará completamente animado e instigado a descobrir como que algumas coisas incluídas aqui podem funcionar.

Mas a originalidade é muito perigosa também, já que criar elementos sem nenhuma lógica para o universo ou muitos cacarecos literários podem fazer o escritor cometer erros, principalmente o de elaborar funções que não tenham o menor sentido para seus personagens ou mundo, que também podem cansar quem lê. Em alguns livros existem tantos personagens, tantos detalhes secundários que acabam confundindo o leitor e nenhum deles conseguem permanecer na mente, porém Ale Santos consegue encaixar tudo com muita perfeição, novidades e personagens na medida certa, coerentes acima de tudo e muito e muito memoráveis.

Não consigo encontrar nenhuma falha ou detalhe negativo que eu possa mencionar, e olha que eu procurei. Eu sou bem chato com minhas leituras e quando não acho, o sentimento de ter tido uma leitura perfeita é imenso. Até a edição do livro é primorosa, em capa dura e com uma arte incrível, a obra ainda possui um mapa nas primeiras páginas, e vocês sabem daquela lei do universo literário né? “Quando tem mapa no livro, ele não pode ser ruim.”

E quando eu achava que nada mais me encantaria no livro, chegam as últimas páginas e com ela mais momentos emocionantes e ligados a nossa cultura. Muitos livros nacionais envolvem elementos da cultura brasileira e na grande maioria deles nosso folclore ou hábitos são quase que banalizados, só para mostrar que o autor preza por eles, e que quer engrandecê-la, mas, mais uma vez, em O Último Ancestral isso acontece de forma perfeita, destacando partes de como é ser brasileiro. Vocês já viram um livro nacional terminar no meio do carnaval e fazer completo sentido? Pois é, a gente termina de ler querendo sambar na avenida!


Ale Santos
é um escritor novo, mas figurinha carimbada e conhecida na internet, onde fala sobre cultura afro, além de ter seus posts geek cheios de nerdisse. Pelo perfil Savage Fiction fala muita coisa interessante e o acompanhando mais de perto podemos ter a real noção de como esta mente brilhante funciona e de onde ele tira tantas coisas fascinantes e inimagináveis.

Falei com ele pelo instagram antes de fazer esta resenha e sem nenhuma surpresa me pareceu um cara extremamente simpático e genial. Nosso papo foi ótimo e veio com várias boas notícias, algumas, infelizmente, nem posso contar para vocês, mas uma eu não irei me conter, O Último Ancestral terá sequência, o que ficou bem óbvio pelo seu final, mas o fato é que o livro já está sendo escrito e as ideias de produção e edição dele estão também em desenvolvimento. Ele vai contar com uma edição ainda mais legal, com mais ilustrações e uma história ainda mais surpreendente.

A sequência do livro se chamará A Divindade Digital e eu mal posso esperar para ver o que acontecerá com Eliah e Hanna, sem contar que esse título já deixa minha cabeça fervilhando de expectativa pelo que virá por aí.

  • O Último Ancestral
  • Autor: Ale Santos
  • Tradução: -
  • Ano: 2021
  • Editora: Harper Collins Brasil
  • Páginas: 352
  • Amazon

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