A Filha Perdida | Elena Ferrante

17 mar, 2022 Por Viviane Papis

Difícil ter passado os últimos meses sem esbarrar, mesmo que sem querer, com a obra adaptada para as telinhas do streaming. O breve e intenso romance de Elena Ferrante, um pseudônimo da escritora italiana, foi publicado em 2016 pela Intrínseca no Brasil e apenas em 2021 que recebeu a devida atenção internacional com sua adaptação cinematográfica pela estreia de direção de Maggie Gyllenhaal. O romance então recebe holofote antes reservado à série A Amiga Genial de mesma autoria, agora centrando a narrativa nas memórias e reflexões de uma mãe desajustada e, como a própria personagem diz, “desnaturada”.

A narrativa inicia-se com uma viagem de verão da protagonista Leda, uma professora universitária de literatura, à costa napolitana, ao buscar um refúgio de meses (e anos) de cuidados incessantes à sua família por agora se ver livre das maiores responsabilidades de ser mãe. Com as filhas crescidas e trilhando seu caminho na maturidade, Leda finalmente pode viver sua meia-idade centrando-se no seu bel-prazer.

Fui deparada com essa apresentação deveras superficial da personagem-narradora e conforme avança a nostalgia que Leda é submetida durante essas férias, adentrei mais na sua subjetividade e compreendi sua história de uma perspectiva pouco convencional e discordante sobre maternidade. Os disparos para esse mergulho surgem de uma família bem napolitana que Leda encontra e passa a interagir nas praias que escolheu passar suas férias.

Leda reconhece muito de sua juventude em Napoli nessa família, até por conhecer o dialeto e partilhar de certos comportamentos e entonações de fala, em especial uma jovem mãe, Nina, e sua pequena filha Elena. Ao observar, quase como voyeur, a relação de mãe e filha, Leda é mergulhada nas memórias de sua própria relação com suas filhas e a ambivalência que a maternidade parecia lhe causar.

Assim como Leda, que foi obrigada a testemunhar e vivenciar os eventos por quais essa família passa, nós leitores somos obrigados a testemunhar o resgate do passado de uma Leda mãe que apresentava diversas resistências de desempenhar esse papel por completo. A trama então passa a tomar um rumo diferente quando num sumiço da filhinha Elena, Leda se envolve diretamente com essas dinâmicas familiares ao, quase sem intenção ou atento, manter para si a boneca de Elena.

Leda quase que imediatamente deseja devolver a boneca, e tudo o que ela representa, o cuidado, o afeto materno, a transição de uma proximidade para um afastamento na relação com a mãe. No entanto, há algo nessa boneca, e na sua simbologia, que a captura com o passar dos dias. Não entendemos o que uma mulher feita quer com essa boneca, mas também me senti capturada pela relação que Leda passa a estabelecer com essa díade Nina-Elena através dela.

“Ás vezes, precisamos fugir para não morrer”

Ferrante é nada menos que genial em tomar a fala de uma mãe que não aceitava ser submetida a esse papel, que foge e retorna por interesses próprios e ainda de si mesma. Ambivalência é totalmente descritivo da dinâmica de Leda a respeito da maternidade e de seu lugar no mundo. Ainda que nunca tendo passado pela experiência de ser mãe, senti raiva da personagem e de seu egoísmo, ao mesmo tempo sendo tomada pelo desvelar dos eventos e da rede que Leda tece ao seu redor e sendo engolfada por completo por uma relação materna que tanto emula e difere da sua. Com certeza um livro que desperta diversos sentimentos e muito surpreendente com sua conclusão. Reconheço como um dos destaques desses últimos tempos. Difícil será outra leitura ultrapassar essas expectativas que Ferrante instaurou em mim. Ao fim, fica então para o leitor, no caso a mim mesma, desvendar a qual filha perdida a autora e narradora se refere. Acredito que seja a própria Leda.

A obra de Gyllenhaal merece menção e tem seus méritos, escolhendo representar Leda como uma mulher frágil, afetada por suas escolhas como mãe e mulher, confusa com suas ações e perdida em como se sentir e atuar no mundo. Acredito que a força da narrativa está em explicar, justificar e responsabilizar Leda pelo caminho que escolheu trilhar até então, mesmo que isso a torne uma figura de pouca empatia e compaixão. E ainda que eu tenha preferido a experiência da leitura, o filme acrescenta na reflexão e debate das maternidades que mulheres são submetidas e escolhem desempenhar.

  • La figlia Oscura
  • Autor: Elena Ferrante
  • Tradução: Marcello Lino
  • Ano: 2016
  • Editora: Intrínseca
  • Páginas: 176
  • Amazon

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